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2 INELEGIBILIDADE E RESPONSABILIDADE DO AGENTE PÚBLICO

3.1 A Tutela da Moralidade e a Inelegibilidade

Conforme já analisado, a Constituição Federal, no seu art. 14, § 9º, estabelece casos de inelegibilidade e outorga à Lei Complementar a criação de novas hipóteses, a fim de proteger: a probidade administrativa, a moralidade para o exercício do mandato considerada a vida pregressa do candidato, a normalidade e legitimidade das eleições contra abuso do poder econômico ou o abuso do exercício de função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta.

Esta pesquisa se concentra na inelegibilidade e moralidade administrativa, motivo pelo qual é preciso desmembrar o conceito da norma constitucional; para tanto, optou-se aqui por iniciar pelo fim do dispositivo: a normalidade e legitimidade das eleições contra os abusos acima listados.

A proteção da normalidade e legitimidade das eleições se mostra evidente na alínea c do inciso I, do art. 1º, da LC 64/90, que prevê a inelegibilidade para aqueles que tenham contra sua pessoa representação julgada procedente pela Justiça Eleitoral, em decisão transitada em julgado ou proferida por órgão colegiado, em processo de apuração de abuso do poder econômico ou político.

As hipóteses que preveem crimes eleitorais, renúncia do cargo e condenação por doações eleitorais tidas por ilegais também têm como objetivo preservar a normalidade e legitimidade das eleições.

Resta esclarecer a diferença entre a moralidade para o exercício do mandato considerada a vida pregressa do candidato e a probidade, na forma como dispõe o texto Constitucional.

Para tanto, é preciso ressaltar que a probidade, como já analisado, tem íntima relação com a moralidade administrativa; na verdade, considera-se que o princípio da moralidade engloba a probidade.

Isto porque é a probidade administrativa que instrumentaliza a moralidade administrativa, na medida em que dá aplicação prática quando do desrespeito ao dever de probidade, cujo conceito já foi tratado neste trabalho.

Neste sentido, Thalita Abdala Aris, em sua dissertação de mestrado intitulada Improbidade Administrativa no Direito Eleitoral, conclui:

Entendemos que assiste razão à corrente da doutrina que afirma que a probidade administrativa corresponde a espécie do gênero moralidade, uma vez que esta possui um campo de abrangência maior, englobando conceitos vagos e dotados de maior abstração, tais como a retidão, a honestidade, a boa-fé, a lealdade e a eticidade, sendo que a probidade corresponde a um “capítulo” da moralidade, que vem delimitando de forma qualificada pelo ordenamento jurídico tendo como traço caracterizador a desonestidade do agente público, que busca seu favorecimento pessoal ou de terceiro por ele beneficiados150.

Pois bem, conforme consta do § 9º, do art. 14 da CF, almeja-se proteger a probidade e moralidade para o exercício do mandato considerada a vida pregressa do candidato.

Alexis Galiás de Souza Vargas, ao tratar dos princípios constitucionais de Direito Eleitoral, faz uma diferença entre moralidade do candidato e o princípio da moralidade administrativa, na medida em que a moralidade do candidato se volta à candidatura. Afirma que

[…] a consequência mais forte a ser extraída deste sub-princípio é a exigência de padrões morais mais elevados para que se admita a postulação de candidatos. Isto é, a Constituição exige um plus dos candidatos. Não basta a presunção de inocência e legalidade. Há que se comprovar que o candidato tem condições morais de assumir o cargo que pretende disputar. Este comando é bastante nítido no art. 14, § 9º, da Constituição Federal151.

Didaticamente perfeita é a distinção realizada, já que a Constituição Federal é clara ao exigir dos candidatos preceitos morais elevados.

Mais adiante, será esclarecida a diferença entre a moralidade comum e a moralidade administrativa.

150 ARIS, Thalita Abdala. Improbidade Administrativa no Direito Eleitoral. 2012. Dissertação

(Mestrado em Direito) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2012, p. 73- 73.

151 VARGAS, Alexis Galiás de Souza. Princípios Constitucionais de Direito Eleitoral. 2009.

Tese (Doutorado em Direito) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009, p. 179.

Neste momento, o importante é ressaltar que o texto objetiva tutelar o princípio da moralidade atrelada a valores sociais voltados para qualquer candidato, não só aquele que já foi detentor de cargo eletivo.

Nesse aspecto, os candidatos devem demonstrar que possuem condições morais pregressas, tanto em sua vida pública como em sua vida privada.

Em outras palavras, qualquer cidadão tem o dever de demonstrar que possui condições morais para o exercício do cargo que almeja.

Como consequência dessa exigência, a LC 64/90 define hipóteses de inelegibilidade para aqueles que foram excluídos de sua profissão por órgão de classe, os que renunciaram o mandato, os que tiverem condenação pela prática de crime de tráfico de entorpecentes, contra o patrimônio privado, contra o sistema financeiro, contra o meio ambiente, contra a saúde pública, contra a vida e contra a dignidade sexual, dentre outros.

Ocorre que as alterações da LC 64/90 também enalteceram o dever de probidade.

Assim, não restam dúvidas que as novas dimensões das condições de acesso a cargos eletivos, introduzidas pela Lei Complementar nº 135/10152,

evidenciam o avanço da moralidade administrativa quando o que está em discussão é a capacidade eleitoral passiva. É o que se vê diante da inclusão no rol de inelegibilidades as contas rejeitadas por irregularidade insanável que configure ato doloso de improbidade e a condenação de suspensão dos direitos políticos, ainda que por órgão colegiado, que importe ato doloso de improbidade administrativa que importe em lesão ao patrimônio público e enriquecimento ilícito.

As hipóteses de inelegibilidade que envolvem a prática de ato ímprobo merecem destaque quanto ao objetivo de exaltar a moralidade no exercício da

152 Legislação que alterou a Lei Complementar nº 64, de 18 de maio de 1990, que estabelece, de

acordo com o § 9º do art. 14 da Constituição Federal, casos de inelegibilidade, prazos de cessação e determina outras providências, para incluir hipóteses de inelegibilidade que visam a proteger a probidade administrativa e a moralidade no exercício do mandato (BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei Complementar nº 135, de 4 de junho de 2010. Altera a Lei Complementar nº 64, de 18 de maio de 1990, que estabelece, de acordo com o § 9º do art. 14 da Constituição Federal, casos de inelegibilidade, prazos de cessação e determina outras providências, para incluir hipóteses de inelegibilidade que visam a proteger a probidade administrativa e a moralidade no exercício do mandato. Brasília: DOU, 7 jun. 2010).

função pública, na medida em que as restrições normativas têm como fundamento intrínseco o dever de moralidade.

Conforme afirma José Roberto Pimenta Oliveira, é incontestável que a exigência jurídica de probidade, no exercício da função pública, tem nítida inspiração de ordem moral153.

Conclui-se que a moralidade administrativa se apresenta enaltecida nas hipóteses de inelegibilidade, considerando que a violação do referido princípio pode ter como consequência a restrição à candidatura e, neste aspecto, também não há como dissociar o objetivo constitucional de considerar vida pregressa do candidato. Neste sentido, a Lei 64/90 indaga: Quando do exercício de função ou cargo público o candidato praticou ato de improbidade administrativa que tenha causado dano ao erário? Agiu ele contra o princípio da moralidade administrativa a ponto de subsumir-se nas hipóteses de restrição à candidatura?

Na verdade, é um grande desafio democrático atribuir àqueles que transgrediram os limites impostos pela moralidade administrativa o impedimento, ainda que temporário, ao acesso a cargos eletivos.