CAPÍTULO 2 - A TUTELA CONSTITUCIONAL E INFRACONSTITUCIONAL
2.5 A tutela infraconstitucional do meio ambiente
A tutela infraconstitucional do meio ambiente teve início na legislação pátria antes mesmo do atual texto constitucional, ainda sob a influência do período pós Conferência de Estocolmo, sendo, em grande parte, recepcionada pela atual Constituição.
A Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981 – Política Nacional do Meio Ambiente e a Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985 – Ação Civil Pública, representam, a nosso ver, os exemplos mais significativos desse período. Tanto que o próprio conceito hoje aceito de meio ambiente é definido no art. 3º da Lei 6.938/1981, como sendo o “conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.
A Lei da Política Nacional do Meio Ambiente emprestou os fundamentos básicos ao legislador constituinte para criação do ordenamento jurídico constitucional ambiental pátrio, reconhecidamente um dos mais avançados do mundo.
Seguindo essa mesma linha de preocupação com a questão ambiental, a Lei da Ação Civil Pública – ACP inseriu o meio ambiente como primeiro bem jurídico a ser tutela por esta lei (inciso I, do art.1º), disciplinando as ações de responsabilidade por danos morais e materiais causados ao meio ambiente.
A Resolução 1, de 23 de janeiro de 1986, do Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA é outro importante instrumento normativo para a defesa do meio ambiente que trata, entre outras coisas, sobre o Estudo de Impacto Ambiental - EIA e sobre o Relatório de Impacto Ambiental – RIMA, bem como sobre a necessidade de realização de audiências públicas.
Há quem defenda que a Resolução em apreço não foi recepcionada pelo atual texto constitucional entre os quais cito Toshio Mukai27, fundamentando suas argumentações nas disposições do art. 25 das Disposições Constitucionais Transitórias.
Para o citado autor, o texto constitucional declarou revogados, a partir de 180 dias da promulgação da Constituição, todos os dispositivos legais que atribuam ou deleguem a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela Constituição ao Congresso Nacional, especialmente no que tange a ação normativa, inclusive as resoluções e portarias que foram baixadas por tais órgãos com base naqueles dispositivos revogados.
Em sentido contrário, defendendo a aplicação do fenômeno da recepção28 da Resolução em referência, e demais disposições regulamentares, pela Constituição Federal de 1988, Affonso Leme Machado e Álvaro Luiz Valery Mirra, conforme abordado a seguir:
Para Affonso Leme Machado29 a competência do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA não foi atingida pelo disposto no art. 25 das Disposições Constitucionais Transitórias, na medida em que o Conselho não exerce nenhuma das atribuições reservadas ao Congresso Nacional, constantes do Título IV. Capítulo I, ´Do Poder Legislativo`, Seção II, art. 48 e 49, mas atribuições típicas do Poder Executivo, portanto não há que se falar em revogação desta.
Também defendendo a constitucionalidade da Resolução do CONAMA em discussão, sustenta Álvaro Luiz Valery Mirra30 que “A Resolução n.001/86 do CONAMA – tanto quanto o Decreto n. 88.351/83 – inovou o ordenamento jurídico, é certo, mas nos limites do que lhe era permitido e para bem e fielmente cumprir a Lei 6.938/81”.
27
MUKAI, Toshio,Direito Ambiental Sistematizado.4. ed., rev. atual. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 90.
28
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Recepção (Direito Constitucional). In: ENCICLOPÉDIA SARAIVA DO DIREITO. São Paulo: Saraiva, v. 63, 1977. p. 333. “No plano do direito constitucional, o fenômeno jurídico da recepção consiste na revitalização, por uma nova Constituição, do direito comum a ela anterior.”.
29
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro, 14 ed. Malheiros Editores, São Paulo: 2006, p. 108/109.
30
MIRRA, Álvaro Luiz Valery.Impacto Ambiental. /aspectos da legislação brasileira. 2. ed. rev. e aum. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2002, p. 17.
O mesmo autor advoga ainda a tese de que “não só a Resolução 001/86 do CONAMA e todas as demais referentes ao tema e anteriores à CF/88, como também aquelas posteriores, estão em perfeita consonância com a nova ordem constitucional e devem ser integralmente aplicadas, o mesmo acontecendo com aquelas outras que vierem futuramente a ser editadas”.
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Como se observa, é posição doutrinária majoritária a incidência do fenômeno da recepção da Resolução 01 do CONAMA em relação ao texto constitucional posterior, ou seja, de 1988. Portanto, permanecem em pleno vigor as exigências impostas pela supracitada Resolução, entre as quais o Estudo de Impacto Ambiental – EIA, o Relatório de Impacto Ambiental – RIMA e a necessidade de realização de audiências públicas.
De fato, assiste razão a quem advoga pela constitucionalidade, sobretudo pelo fato de ser meio eficaz de defesa do meio ambiente.
2.5.1 – A LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL REGIONAL E LOCAL SOBRE O MEIO AMBIENTE
No que diz respeito à legislação infraconstitucional, o Estado do Amazonas, como não poderia ser diferente, dado ao fato de ser detentor de uma das maiores áreas de reserva florestal e de biodiversidade do planeta, também editou normas em defesa do meio ambiente, nos limites de sua competência, sendo as Leis 1.532/1982 e 2.416/1996 as principais delas.
Enquanto a Lei 1.532/198232disciplina a política estadual de preservação e controle da poluição, melhoria e recuperação do meio ambiente e da proteção dos recursos naturais, a Lei 2.416/199633 reforçar as disposições da Constituição Federal e Estadual, quanto à
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op. cit. p. 25 32
AMAZONAS. Lei 1.532, de 6 de julho de 1.982. Disciplina a Política Estadual da Preservação e Controle da Poluição, Melhoria e Recuperação do Meio Ambiente e da Proteção aos Recursos Naturais. In: Legislação Ambiental Brasileira – VEMAQA 6. ed. Manaus/Am: Editora e Gráfica Ziló, 2005.
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AMAZONAS. Lei 2.416, de 22 de agosto de 1996, Arts. 4º e 20. . In: Legislação Ambiental Brasileira – VEMAQA 6. ed. Manaus/Am: Editora e Gráfica Ziló, 2005.
obrigatoriedade do licenciamento ambiental prévio, no caso especifico para a utilização de recursos florestais, através do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas – IPAAM (art.4º.), e ainda cria para o citado órgãos ambiental a obrigação institucional de ingressar com ação civil pública sempre que os empreendimentos e atividades madeireiras se constituírem em ameaças aos recursos florestais do Estado ou causarem a sua degradação (art.20).
O Município de Manaus também contribui para a ampliação da tutela ambiental a nível local por meio da promulgação da Lei 605, de 24 de julho de 2001.
O citado diploma legal municipal, seguindo os ditames da Constituição Federal, da Constituição Estado do Amazonas e da Lei Orgânica do Município de Manaus tornou obrigatório o prévio licenciamento do órgão ambiental municipal, para a instalação de obras, atividades e o uso ou exploração de recursos ambientais de qualquer espécie, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras, ou capazes, de qualquer forma, de causar degradação ambiental (art. 43).
A mesma lei estabeleceu ainda (art. 60) a necessidade de realização de Audiência Pública, em consonância com que dispõe as Resoluções 1 e 9 do CONAMA, para manifestação da população sobre o projeto e seus impactos sócio-econômicos ambientais, na fase de apresentação do RIMA.