3.2 O Centro Hospitalar São João
3.2.3.3 A Unidade da Qualidade e Segurança do Doente
Inicialmente criada em 2010 como o Serviço de Qualidade Clínica, a Unidade da Qualidade e Segurança do Doente (UQSD) do CHSJ foi criada em março de 2012, para agilizar e tornar mais eficiente a recomendação do Decreto-lei nº 50-A/2007, de 28 de fevereiro, que torna mandatório a criação de uma comissão nesta área. A USQD é vinculada no organograma do hospital ao Centro de Epidemiologia Hospitalar, por sua vez vinculado ao Conselho de Administração.
As atividades desenvolvidas por esta unidade são todas as que dizem respeito à qualidade e segurança do doente, tais como a identificação do doente no hospital através do uso de pulseiras de identificação, os riscos de queda e a informação e comunicação com o doente, pretendendo por em prática a auditoria clínica e a gestão do risco. Além dessas atividades, trabalha áreas mais especificas da qualidade, em auditorias temáticas de suas áreas de intervenção e outras propostas pelos serviços clínicos, tentando desenvolver os conceitos da qualidade e segurança do doente sem seguir um modelo teórico da qualidade.
Os modelos de acreditação e certificação hospitalar são importantes uma vez que avaliam toda a instituição sendo a qualidade da informação vista e tratada com regras e determinações específicas e claras, com alterações conforme cada modelo e país. Os mais utilizados em Portugal são o modelo inglês, King’s Fund e o modelo dos Estados Unidos da América, a Joint Commission International. O Ministério da Saúde português, na figura da Direcção Geral de Saúde, propôs para os hospitais o modelo de Andaluzia sem, contudo, o tornar obrigatório. Assim sendo, cada hospital pode escolher e adotar o modelo de qualidade que melhor se adapte à instituição.
O CHSJ não possui acreditação ou certificação hospitalar específica, mas a coordenadora da unidade comenta, no entanto, que no período de 2003 a 2005 foi criada uma comissão para iniciar o processo baseado no modelo inglês “King’s Fund”, sendo no ano de 2005 obtida uma certificação parcial. Entretanto, não houve a continuidade deste trabalho. Devido a este fato alguns serviços foram certificados pela norma ISO 9001, como o
Laboratório de Sangue, a Anatomia Patológica, o Ambulatório e a Medicina de Reprodução com o apoio do serviço de certificação.
Um das atividades em que a UQSD colabora no CHSJ é com um grupo formado por um médico e dois enfermeiros, que estão realizando um diagnóstico hospitalar dos serviços oferecidos e atividades desenvolvidas por cada um destes serviços. O objetivo é criar um sistema único de registro eletrônico para o hospital, uma vez que atualmente existem aproximadamente 66 aplicações informáticas no CHSJ onde são registradas informações clínicas. Esta é uma das maiores dificuldades, segundo as enfermeiras consultadas. A quantidade de informação dispersa, principalmente em suporte eletrônico, é um fator que contribui substancialmente para a qualidade da informação dos registros clínicos e na forma como estes são tratados. Nesse sentido, cabe destacar o Despacho nº 2784/2013, de 11 de fevereiro, do Gabinete do Secretário de Estado da Saúde português o qual traz orientações sobre a normalização a nível nacional dos dados mínimos que devem conter os registros electrónicos, especificamente os relativos às notas de alta médica e de enfermagem, bem como às notas de transferência das unidades de cuidados intensivos. Tal orientação ainda menciona que os estabelecimentos hospitalares do SNS devem, obrigatoriamente, possuir um plano de auditoria interna aos registros clínicos electrónicos cujos resultados precisam ser comunicados a Direção Geral de Saúde.
Em todas as entrevistas exploratórias realizadas, foi indagado aos coordenadores destes Serviços como estes viam a existência de três setores distintos no CHSJ tratando as questões de auditorias e qual a opinião sobre o papel do gestor da informação nestes processos.
Com relação à participação do gestor da informação nos processos internos de auditoria, todos os serviços consultados foram unânimes em salientar que a articulação deste com os serviços internos e seu auxílio é fundamental para o desenvolvimento das atividades internas, no sentido de que ele saiba como localizar a informação necessária. O inverso também é ressaltado, quando a responsável pelo arquivo clínico diz que a colaboração destes serviços beneficia muito as atividades e ajuda a resolver as dificuldades diárias com que o Arquivo Clínico se debate.
Com relação à existência de três setores distintos relacionados às auditorias internas, dois dos serviços consideram que faz sentido serem serviços separados e que a existência de um serviço único agregando os três (a auditoria interna, a codificação clínica e a qualidade clínica) não seria viável porque o objeto que tratam é diferente. Um dos serviços, no entanto, diz que o fato de existirem serviços separados tratando de qualidade e auditoria ao processo clínico e aos registros clínicos dos pacientes no CHSJ dificulta o tratamento da qualidade da
informação contida nestes registros e a uma auditoria de fato. A unificação e integração dos serviços poderia beneficiar o hospital e o tratamento real da qualidade da informação.
Embora todos os entrevistados reconheçam que em determinadas ocasiões seja um pouco confuso tratar destas questões em separado, o que é necessário, segundo eles, é a cooperação para realizar determinadas ações e o que falta, talvez, seja articular mais estas ações entre os três. Um dos serviços comenta, no entanto, que por vezes a falta de um serviço único onde se possa levar as questões das inconformidades que surgem dificulta em alguns casos as atividades realizadas.
3.3 Diferenças e Paralelismos entre o Hospital Brasileiro e o
Hospital Português
Tal como relatado no item 2.3 ao analisar as práticas de auditoria dos hospitais estudados neste trabalho, se procurou realizar um exame crítico dos fluxos e processos de trabalho existentes nestas instituições. Identificar os processos de gestão da informação e de auditorias nas duas instituições foi importante para verificar quais são fundamentais e quais se revelam desnecessários para a qualidade da informação clínica dos prontuários dos pacientes/processos clínicos de modo a contribuir para a gestão dos hospitais.