3. Metodologia e procedimentos analíticos: o Projeto FrameNet
3.1. FrameNet: norteador teórico-metodológico
3.1.3. Conceitos básicos
3.1.3.1. A Unidade Lexical e os Elementos de Frame
A Unidade Lexical é fruto do pareamento de uma palavra a um frame. O próprio conceito de Palavra, como apontam Ruppenhofer et al (2006), é problemático. No entanto, a teoria da FrameNet adota uma postura mais abrangente de palavra, que engloba unidades mono e polilexêmicas. Um lexema verbal como cut (cortar), por exemplo, é pareado a seis diferentes Unidades Lexicais, a depender de qual sentido irá exercer. O sentido de cut nos diferentes frames se deve também à relação que esta palavra irá manter com os diferentes Elementos de Frame. Por exemplo, quando agrupada a caminho, como em “cortar caminho”, cut será uma UL do frame Intentional_traversing (Atravessar_intencionalmente); a uma direção, como em “cortar à esquerda”, o frame evocado é Change_direction (Mudar_a_direção); quando agrupada a algum objeto cortável, como em “cortar papel”, cut será uma UL do frame Cutting (Corte); e assim por diante. Observemos a tabela abaixo, adaptada do site da FrameNet:
Lexical Unit Frame LU Status Lexical Entry Report Annotation Report
cut.v Intentional_traversing Created
cut.v Change_direction Created
cut.v Cutting Created
cut.v Cause_change_of_position_on_a_scale Created LE
cut.v Cause_harm Finished_Initial LE Anno
cut.v Experience_bodily_harm Finished_Initial LE Anno
Figura 7: Lista de ULs grafadas pelo lexema Cut, apresentada na Página da FrameNet
Dessa forma, a problemática questão da polissemia para as abordagens tradicionais fica, nos termos da FrameNet, resolvida de uma maneira prática: há um único lexema, que reporta estruturas conceptuais distintas. Evidentemente é possível depreender ligações experiencialmente motivadas. O fato de que cortar é empregado num frame de Corte (de separação de um item do todo) e num frame de Causar_dano pode se dever ao fato de em ambos os casos ser possível recorrer a algum objeto cortante para efetivar a ação. Uma vez
que o corte lembra uma ruptura numa área, seguir em algum caminho pode ser comparado a ato de cortar longitudinalmente uma matéria plana. Essas postulações são intuitivas e requereriam um estudo pormenorizado que incluísse, por exemplo, o papel dos mapeamentos metafóricos e metonímicos, o que não é o foco deste trabalho.
Como se vê, o papel dos Elementos de Frame (EFs) é de extrema relevância para o estabelecimento de um frame. Elementos de Frame são os participantes da cena como entidades, atributos, eventos, noções espaciais, temporais, e são classificados quanto ao seu estatuto de centralidade no frame (RUPPENHOFER et al, 2006, p.26-28). Há dois grandes grupos: os nucleares e os não-nucleares.
Os Elementos de Frame Nucleares são imprescindíveis ao frame, pois são os elementos que o particularizam e são inferidos pelo frame (ainda que não estejam explicitamente lexicalizados). Um frame deve necessariamente incluir seus elementos nucleares. Por exemplo, o frame Forming_relations (Formar_relações) se caracteriza pela presença dos EFs PARCEIRO_1 e PARCEIRO_2 ou do EF PARCEIROS. Assim, numa sentença
como “Joana se casou muito jovem”, mesmo sendo omitido o PARCEIRO_2, há uma
interpretação definida para este EF. Os Elementos Nucleares costumam figurar em posições argumentais mais proeminentes, como Sujeito e Objeto, embora isso não seja exclusivo. Um exemplo ilustrativo é, no caso de construções passivas, o AGENTE poder aparecer numa posição adjuntiva. No frame Killing (Matar) o AGENTE pode ser expresso por um Adjunto encabeçado pela preposição por, como em “O jovem foi assassinado [por um bando de bêbados AGENTE] nos dias de carnaval”. No entanto, considera-se que os EFs que possam ocupar os lugares de Sujeito e Objeto num frame possam receber o estatuto de nuclearidade.
Os Elementos de Frame Não-Nucleares não distinguem o frame, mas lhe atribuem características. Dividem-se em dois tipos: os Periféricos e os Extra-temáticos. Os Periféricos são os Elementos que acrescentam características genéricas que podem ser aplicadas a frames diversos, e geralmente expressam informações adicionais de modo, lugar, finalidade, tempo. Costumam ocupar posições sintáticas de Adjuntos. Retomando a ilustração anterior, o elemento temporal “nos dias de carnaval” (um adjunto preposicionado) não é o fator que distingue o frame Killing (Matar). Fato é que pode caracterizar temporalmente outras cenas distintas, como “O jovem machucou a perna [nos dias de carnaval TEMPO]”,
“Joana se casou [nos dias de carnaval TEMPO]”, e inúmeros outros frames.
Já os Elementos Extra-temáticos são participantes que, embora presentes na cena descrita pelo frame que está em destaque, podem incluir o evento num estado de coisas
mais amplo ou, mesmo, evocar frames distintos. Alguns exemplos de Elementos Extra- temáticos são ITERAÇÃO, EVENTO, DEPICTIVO, como observamos em: “Joana se casou [muito
jovem DEPICTIVO]”. O depictivo é alguma descrição do elemento envolvido no evento em
questão. Em “Cruzeiro venceu o Atlético [153 vezes ITERAÇÃO]”, o EF ITERAÇÃO expressa o
número de vezes que o evento ocorreu. Na sentença “O Neguinho da Beija-Flor se casou [em pleno desfile de carnaval EVENTO]”, o desfile é o evento maior evocado que inclui o evento
do casamento.
Elementos de Frame podem exibir relações entre si, como, por exemplo, a relação de exigência, chamada Exige. Essa relação é própria de frames que apresentam uma alternância entre construções simétrica e assimétrica. Uma relação simétrica é vista, por exemplo, num frame de Similaridade, em sentenças como “Aqueles gêmeos se parecem” onde há um único Elemento de Frame que corresponde ao conjunto de entidades em comparação. No caso de a relação ser assimétrica, apresentando as duas entidades em comparação, a relação de Exige postula que, em se apresentando um EF (ENTIDADE_1), o outro
(ENTIDADE_2) é requerido. Por isso, uma sentença como “João se parece” é anômala, pois
omite a segunda entidade.
Outra relação entre EFs é a de exclusão, chamada Exclui. Ao contrário da anterior, esta relação postula que a presença de certos Elementos de Frame exclui a possibilidade de outro configurar. Tomando o exemplo “Aqueles gêmeos se parecem”, num caso de haver o elemento ENTIDADES para o frame de Similaridade, é excluída a presença dos
EFs ENTIDADE_1 e ENTIDADE_2. Também frames que comportam ao mesmo tempo Elementos como AGENTE e CAUSA como nucleares irão apresentá-los em relação de exclusão. Lembremos o caso mostrado do frame Causar_ficar_molhado:
(3) [Meu irmão AGENTE] me ensopou com um jato de água fria. (4) [A forte chuva CAUSA] me ensopou.
Uma vez que os Elementos de Frame centrais são imprescindíveis para a caracterização do frame, a abordagem da FrameNet também prevê uma solução para casos em que algum Elemento central não aparecer numa instanciação da UL evocadora do frame. Nessas situações é indicada a ausência do EF, seguindo condições de omissibilidade, chamada Instanciação Nula. Isso quer dizer que o elemento ausente tem uma instanciação conceptual, pois pode ser inferenciado na cena. As Instanciações Nulas podem ser de três tipos: IND
(Instanciação Nula Definida), INI (Instanciação Nula Indefinida) ou INC (Instanciação Nula Construcional).
A Instanciação Nula Definida (IND) abarca casos de elementos que podem ser recuperados anaforicamente pelo contexto. Por exemplo, o frame Hiding_objects (Esconder_objetos) tem como EFs nucleares: AGENTE, OBJETO_ESCONDIDO e LOCAL_DO_ESCONDERIJO. Assim, se em: “Jéssica escondeu sua boneca preferida”, o local
puder ser depreendido pelo contexto, é entendido como IND e é marcado da seguinte forma:
(9) Jéssica escondeu sua boneca preferida. [IND LOCAL_DO_ESCONDERIJO]
Em português, há casos em que o Sujeito de um verbo não é lexicalizado, dada a possibilidade de ser depreendido pela flexão verbal. Assim, uma situação comum em português será a atribuição da marcação de IND para casos como:
(10) Ando devagar porque já tive pressa. [IND TEMA]
uma vez que, por meio da flexão [–o] de andar, fica claro que o Sujeito é “eu”. Casos assim não são previstos na FrameNet, por ter sido desenvolvida para a língua inglesa (que não admite omissão de Sujeito). Esta foi, então, uma decisão metodológica que adotamos no Projeto FrameNet Brasil.
A Instanciação Nula Indefinida (INI) se refere a casos indefinidos ou existenciais. A natureza do Elemento ausente é compreendida por meio de convenções interpretativas (e não é necessário recorrer ao contexto). Os casos mais comuns são INIs para Objetos de verbos como comer, beber, costurar. No frame Attaching (Conexão), se se diz:
(11)Ela pregou dois botões na camisa. [INI CONECTOR]
o AGENTE (Ela), ITEM (dois botões) e ALVO (na camisa) estão presentes. No entanto, o
conector utilizado não é lexicalizado. É, entretanto, depreensível que seja algo como uma agulha, ainda que possa ter sido uma cola. Neste caso, a marcação recebida para o CONECTOR,
que é um elemento nuclear, é de uma Instanciação Nula Indefinida.
A Instanciação Nula Construcional (INC) compreende os casos em que a omissão de um EF central se deve a uma imposição estrutural. É comum haver uma INC em
casos como Agentes da Passiva que são omitidos em construções passivas, Sujeitos omitidos em construções imperativas ou em formas gerundiais e infinitivas de verbos. Para casos de Objetos omitidos construcionalmente, Ruppenhofer et al (2006, p. 36) apontam que gêneros textuais particulares também podem licenciar a omissão de Objetos. O exemplo dado é que em receitas culinárias é permitida uma sentença como:
(12) Cozinhe em fogo brando até ficar pronto. [INC COMIDA]
Há certos grupos de Elementos de Frame nucleares que formam um Conjunto Nuclear. Dentre o conjunto, não é requerida, tampouco usual, a co-ocorrência de todos os elementos para satisfazer a valência semântica da UL. Elementos como ORIGEM, TRAJETÓRIA
e DESTINO em frames de locomoção são agrupados como um Conjunto Nuclear, o que faz com que apenas um ou dois Elementos possam satisfazer a inteligibilidade da sentença. Nesses casos, os EFs não lexicalizados não necessitam de receber uma marcação como Instanciação Nula. Por exemplo, em:
(13) Ana pegou carona [de Juiz de Fora ORIGEM] [ao Rio de Janeiro DESTINO].
embora seja omitida a TRAJETÓRIA, (por exemplo, [passando por Três Rios TRAJETÓRIA]), que é um Elemento central, não há necessidade de marcá-la como Instanciação Nula, pois o Conjunto Nuclear cumpre a função de garantir o sentido e definir o frame.