CAPÍTULO 4: DIREITO: UNIVERSAL E GERAL
4.2 A UNIVERSALIDADE DOS DIREITOS
Apesar dos direitos serem históricos, no sentido de que são produto da luta concreta dos homens no tempo, e isso significar que não têm uma fundamentação natural, divina ou racional, existem algumas características que os tornam universais, isto é, acima dos interesses de algum grupo particular.
Para encontrar essas características, CHAUÍ (1997, p. 431) diferencia os direitos das necessidades ou carências e dos interesses. As necessidades ou carências e interesses são particulares, pois expressam as necessidades de grupos específicos e podem ser conflitantes.
“Um direito, ao contrário de necessidades, carências e interesses, não é particular e específico, mas geral e universal, válido para todos os indivíduos, grupos e classes sociais”.
O direito à vida, às boas condições de vida, à saúde e à educação são direitos a que todos os seres humanos aspiram e nesse sentido são universais e gerais. Podem expressar-se de modo particular e conflitante como, por exemplo26, a necessidade das mães de um bairro por creche, enquanto outro grupo de mães do mesmo bairro necessita de hospital. Creche e hospital são carências particulares, mas o direito às boas condições de vida e de assistência à saúde são universais. Os interesses também são particulares e podem ser conflituosos, como por exemplo, o interesse dos comerciários e dos donos de lojas.
Apesar das revoluções francesa e inglesa proclamarem direitos liberais, CHAUÍ (1997, p. 432) cita as contribuições que elas vieram trazer para a expansão dos direitos. Os direitos de liberdade, igualdade e participação política já tinham sido criados pela democracia ateniense como lembra a autora:
“Quando a democracia foi inventada pelos atenienses, criou-se a tradição democrática como instituição de três direitos fundamentais que definiam o cidadão: igualdade, liberdade e participação no poder (...)”
CHAUÍ (1997, p. 406) chama a atenção para o significado político das revoluções com características burguesas, ou seja, com objetivo político, “visando à tomada do poder e à instituição do Estado como república e órgão separado da sociedade civil”, e com característica “popular”27, com
26
Os exemplos são da própria autora.
27 As revoluções liberais, além da Revolução Francesa, são a Inglesa denominada Gloriosa de 1688 e
a da luta pela independência americana de 1776. A revolução de 1848 que HOBSBAWN (1982, p.29 e segs.) fala em revoluções de 1848 são revoluções populares. Elas iniciaram na França e rapidamente atingiram a maior parte do continente europeu. Chegaram a regiões distantes como, por exemplo, Pernambuco no Brasil. Algumas de suas características foram: a) todos os governos da Europa atingidos por elas foram derrubados; b) foi a primeira revolução de natureza global, no sentido de intensa colaboração internacional entre os movimentos revolucionários da Europa; c) tiveram curta duração, de modo que alguns meses após a derrubada dos governos constituídos, eles voltaram ao poder, com exceção da França; d) de modo geral foram “revoluções sociais dos trabalhadores pobres” com o objetivo de instaurar o programa de governo proposto pelos liberais, que assustados, afastaram-se da luta. HOBSBAWN diz ainda, que “1848 fracassou porque ficou evidenciado que a confrontação decisiva não era entre os velhos regimes e as “forças do progresso” unidas, mas entre
objetivos “político e social visando à criação de direitos e à instituição do poder democrático que garanta uma nova sociedade justa e feliz”, têm sobre a conquista de direitos, na medida em que “desvenda a estrutura e a organização da sociedade e do Estado!”. Em suas palavras “elas evidenciam:
- a divisão social e política, sob a forma de uma polarização entre um alto opressor e um baixo oprimido.
- a percepção do alto pelo baixo da sociedade como um poder que não é natural nem necessário, mas resultado de uma ação humana e, como tal, pode ser derrubado e reconstruído de outra maneira;
- a compreensão de que os agentes sociais são sujeitos políticos e, como tais, dotados de direitos. A consciência dos direitos faz com que os sujeitos sociopolíticos exijam reconhecimento e garantia de seus direitos pela sociedade e pelo poder político. Eis por que toda revolução culmina numa declaração pública conhecida como Declaração Universal dos Direitos dos Cidadãos.
- pela via da declaração dos direitos, uma revolução repõe a relação entre poder político e justiça social, mas com uma novidade própria do mundo moderno, pois a justiça não depende mais da figura do bom governo do príncipe virtuoso, e sim de instituições públicas que satisfaçam à demanda dos cidadãos ao Estado. Cabe ao novo poder político criar instituições que possam satisfazer e garantir a luta revolucionária por direitos (grifo da autora)”.
Em linhas gerais, a política liberal tem como símbolo de consolidação a Revolução Francesa (1789), quando a burguesia, detentora do poder econômico, alcança o poder político28.
‘ordem e revolução social’. É importante destacar que esse foi o primeiro momento em que os trabalhadores emergiram como classe social com um projeto autônomo, enquanto o Manifesto Comunista surgia como sua expressão teórica.
28
Como coloca HOBSBAWN (1982, p.71): “(...) foi a França que fez suas revoluções e a elas deu suas idéias, a ponto de bandeiras tricolores de um tipo ou de outro terem-se tornado o emblema de praticamente todas as nações emergentes, e a política européia (ou mesmo mundial) entre 1789 e 1917 foi em grande parte a luta a favor e contra ao princípios de 1789, ou os ainda mais incendiários de 1793 [República Jacobina, onde o tribunal revolucionário e a guilhotina tornaram-se o símbolo da radicalização dos princípios da Revolução Francesa]. A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radical-democrática para a maior parte do mundo”.
As revoluções declararam a igualdade de todos os homens e, CHAUÍ, recorrendo a Aristóteles e Marx, lembra que a sua mera declaração não a torna concreta mas,
“a sociedade pode instituir formas de reivindicação para criá-lo como direito real” Sobre a liberdade ela diz:
“Na modernidade, com a Revolução Inglesa de 1644 e a Revolução Francesa de 1789, o direito à liberdade ampliou-se. Além da liberdade de pensamento e de expressão [significados já consagrados pelos gregos], passou a significar o direto à independência para escolher o ofício, o local de moradia, o tipo de educação, o cônjuge, em suma, a recusa das hierarquias fixas, supostamente divinas ou naturais. Acrescentou-se, em 1789, um direito de enorme importância, qual seja, o de que todo indivíduo é inocente até prova em contrário, que a prova deve ser estabelecida perante um tribunal e que a liberação ou punição devem ser dadas segundo a lei”.
A participação no poder que, na Atenas clássica, significava o direito de todos os cidadãos, e não seus representantes, participar nas decisões da
pólis, pode, na aparência ter diminuído, argumenta CHAUÍ, na realidade ela
se ampliou, embora a participação seja através dos representantes, o número dos assim considerados cidadãos aumentou consideravelmente. Aqui vale ressaltar que o aumento referido de cidadãos ocorreu após a Revolução Francesa e, em relação ao Antigo Regime, significando que a democracia instaurada limitou os direitos políticos aos “proprietários privados dos meios de produção e aos profissionais liberais da classe média” (CHAUÍ, 1997, p.432)29.
29 A esse respeito MARSHALL (1967, p.69), fala sobre os direitos políticos na Inglaterra: “A história
dos direitos políticos difere tanto no tempo quanto no caráter. O período de formação começou, como afirmei, no início do século XIX, quando os direitos civis ligados ao status de liberdade já haviam conquistado substância suficiente para justificar que se fale de um status geral de cidadania. E, quando começou, consistiu não na criação de novos direitos para enriquecer o status já gozado por todos, mas na doação de velhos direitos a novos setores da população. No século XVIII, os direitos políticos eram deficientes não em conteúdo, mas na distribuição – deficientes, isto é, pelos padrões da cidadania democrática”.
Os não-proprietários, os assalariados encontraram nos socialistas30 os seus teóricos e a ampliação dos direitos políticos, e mesmo a ampliação de seu significado e a conquista dos direitos sociais, foram produto de lutas populares e socialistas. Como argumenta CHAUÍ, a declaração de um direito, embora não lhe desse existência real, abria a possibilidade de sua realização e a criação de outros direitos (1997, p.433):
“As lutas por igualdade e liberdade ampliaram os direitos políticos (civis) e, a partir destes criaram os direitos sociais – trabalho, moradia, saúde, transporte, educação, lazer, cultura - , os direitos das chamadas ‘minorias’31 - mulheres, idosos, negros, homossexuais, crianças, índios – e o direito à segurança planetária – as lutas ecológicas e contra as armas nucleares”.