CAPÍTULO 5 A PRODUÇÃO CARTOGRÁFICA DE UM MUNDO DIVIDIDO
5.3. A Universalis Cosmographia (1507) de Martin Waldseemüller
O planisfério de Martin Waldseemüller que acompanha a Cosmographiae
introductio publicada por Waldseemüller em parceria com Matthias Ringman (1482-
1511) constitui um exemplo sintomático da combinação entre as questões associadas ao controle da informação e aquelas relativas à reprodução de erros de projecção a que nos referimos no ponto anterior.
Ringman fazia parte de um grupo de eruditos humanistas que se concentrou em torno do Gymnasium Vosagense, uma firma de impressão localizada em Saint- Dié – hoje Saint-Dié-des-Vosges (LESTER, 2012). Nesse âmbito, em 1505, padre Vautrin Lud, cónego da igreja de Saint-Dié, decide fazer uma nova edição da
Geografia de Ptolomeu e convida Ringman para o trabalho. As razões repousam no
fato de já a esta altura ser um conhecido humanista, escritor versado em latim, grego, matemática e cosmografia, além de ter publicado uma obra de geografia em 1505, com o título: De ora antarctica (LESTER, 2012).
A entrada de Martin Waldseemüller no empreendimento é menos evidente. Em primeiro lugar por não ser conhecido nenhum de seus mapas anteriores a 1507, apesar de ter sido apresentado por Lud ao duque de Lorena, René II – mecenas do Gymnasyum Vosagense – como mestre cartógrafo. Em segundo lugar, não é claro como Waldseemüller e Lud se teriam conhecido13. Porém, o fato é que Rigman e Waldseemüller viriam a trabalhar juntos (LESTER, 2012).
O empreendimento enfrentava uma das questões mais prementes entre os eruditos e impressores. Popularizavam-se versões híbridas de mapas antigos, com atualizações modernas e uma série de cartas que compunham reedições confusas da Geografia de Ptolomeu, da qual nunca se conheceram os mapas originais. A solução encontrada pelos autores foi compor dois conjuntos de mapas: um inteiramente dedicado à versão com base em fontes originais da obra e outra inteiramente dedicada à representação moderna do planeta, utilizando-se os métodos ptolomaicos para elaborar as cartas.
O demorado projeto de uma nova Geografia acabou por dar lugar a uma obra mais objetiva. Gravado em 12 placas de madeira, totaliza uma superfície de 3m².
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Para explicar esse problema, Lester (2012, p.379) recorre a hipótese de que Ringmann tenha apresentado Waldseemüller a Walter Lud e justifica: “ambos eram jovens humanistas alemães; ambos haviam sido educados em Freiburg e partilhavam alguns dos mesmos mentores; ambos tinham ligações com impressores e eruditos da região e tinham interesse especial em Ptolomeu”.
Dos mil exemplares impressos à época, apenas um sobreviveu aos nossos dias e hoje está na Library of Congress, nos Estados Unidos. Construído a partir do modelo ptolomaico, o planisfério acompanhava uma série de gomos que formavam um globo – uma das primeiras possibilidades de massificar a produção de globos terrestres –, e um texto escrito, explicativo: a Cosmographiae introductio. O mapa está projetado em forma de coração e apresenta, por isso, distorções nas áreas próximas das margens. No entanto, além do simbolismo implícito na projeção, ela se tornaria bastante comum no século XVI, o que explica em parte o sucesso do mapa (BRIESEMEISTER, 2009).
Parecem centrais como fontes da Cosmographiae Introductio e do mapa de Martin Waldseemüller a Lettera delle isole novamente trovalee de Américo Vespúcio, editada em 1506, assim como o planisfério de Nicolau Cavério, datado entre 1502- 1506 (Figura 3). Esse planisfério parece ter chegado a Saint-Dié pelas mãos do duque René II e servira de protótipo ao mapa de Waldseemüller (Figura 4). Apesar de guardar semelhanças ao planisfério de Cantino, sobretudo na iconografia ilustrativa – aves e arvoredo – a carta de Caverio conserva uma série de distinções e equívocos no traçado do litoral do Brasil (LEITE, 1923), sendo, todavia, mais completa em topónimos.
O mapa de Waldseemüller (1507) apresenta elementos bastante inovadores na composição da imagem. A começar pela parte superior, dois retratos de meio- corpo intercalados por dois mapas tomam a posição do onipresente Pantocrator, aparente na cartografia medieval, tal como figuram no Mapa do Salmo e no mapa de Hereford, ambos do século XIII. À esquerda está ilustrada a figura de Cláudio Ptolomeu, sobre a qual lê-se a legenda: “Claudii Ptholomei Alexandrini Cosmographi”. O cosmógrafo alexandrino tem o olhar fixo sobre uma faixa do planeta correspondente a África, Ásia e Europa, ou seja, a feição por ele descrita e conhecido do planeta. À direita, o retrato de “Americi Vespucii” – Américo Vespúcio. O navegador observa, por sua vez, o “novo mundo”. A simbologia presente nessa iconografia é bastante expressiva. Ainda que Waldseemüller fosse uma figura eclesiástica, é significativo que tenha optado por ilustrar duas referências científicas, notadamente quando se percebe que esses têm em mãos instrumentos científicos. Está presente nessa ilustração o aspecto humanista que paira sobre os eruditos da Europa (BRIESEMEISTER, 2009).
As duas feições do globo são igualmente interessantes e, tal como foram dispostas, representam a simbiose de duas concepções cosmográficas: a antiga ou clássica e a moderna. Trata-se, portanto, de uma ilustração dotada de sentido que narra o processo de concepção dessa híbrida cosmografia que se apresenta no planisfério de Waldseemüller, por ele descrito em uma das legendas do mapa, localizada no canto superior esquerdo: “Ao descrever a aparência geral do mundo, pareceu melhor localizar as descobertas dos antigos e acrescentar o que foi descoberto pelos modernos desde então”, conforme tradução em Lester (2012, p. 382).
A marcante presença de Américo Vespúcio não é aleatória. Ringsmann e Waldseemüller tiveram conhecimento de uma carta datada de 4 de setembro de 1504 enviada ao duque René II pelo próprio navegador florentino, constando do relato de quatro viagens que teria feito às terras recém-reveladas aos europeus. A carta escrita em francês demonstra cordialidade entre Vespúcio e o nobre francês. O humanismo se mostra em uma referência ao poeta italiano Francesco Petrarca (LESTER, 2012). Apesar de constituir uma fraude arquitetada para enaltecer Vespúcio e reduzir a importância de Colombo, mencionando mais viagens do que aquelas que, de fato, o navegador genovês havia feito, Ringmann e Waldseemüller tomaram-na como verdadeira. Tratava-se de uma das versões enviadas ao
soberano de Florença, Piero Soderini, conhecida como “Carta a Soderini”. A fraude seria posteriormente revelada e emendada na carta Marina Navigatoria (1516) (LESTER, 2012).
Comparando esta carta com a descrição do Mundus Novus é possível constatar que o conteúdo difere significativamente do relato da primeira viagem feita junto à portugueses em 1501, um aspecto que, a nosso ver, corrobora a tese do sigilo. Na carta ao duque, aos 32ºS Vespúcio anuncia ter tomado o comando da frota e dirigido uma súbita mudança de rumo de sudoeste para sudeste, ocorrência não relatada em nenhuma de suas outras relações de viagem. Teria então, aos 52ºS, sido acometido por uma tempestade e alcançando, dias depois, uma costa inabitada, sem portos. Se o relato é verdadeiro, provavelmente teriam alcançado a ilha da Geórgia, próximo à 54ºS (LESTER, 2012).
No entanto, a súbito mudança não é coerente com o intuito exploratório da viagem, dirigida para descobrir as terras da costa sudoeste da América. O mais provável é que a viagem tenha seguido o curso sudoeste e o relato tenha sido posteriormente modificado, uma vez constatado que a frota havia entrado em território castelhano. Assim, ao entregar o comando a um estrangeiro, os pilotos portugueses se eximiam da responsabilidade pela transgressão e poderiam ainda culpar as condições metereológicas (LESTER, 2012).
Essa é uma das poucas referências espaciais presentes na carta de Vespúcio que, assim como o Mundus Novus, pouco contribuia para a confecção de um planisfério que buscava incluir as terras descobertas (LESTER, 2012). A descrição, no entanto, foi suficiente para atribuir o nome a nova terra. Tal qual a tradição da Antiguidade, resgatada pelos humanistas do Renascimento, era costume nomear um invento ou uma descoberta em associação com o inventor ou descobridor no intuito de o honrar, assim como à sua pátria. É com este pensamento que procede Ringmann ao mencionar a quarta parte do mundo, a qual fora encontrada por certo
Amerigo (Américo Vespúcio), o qual recebe o sufixo ge, que em greco significa terra.
Assim procedendo, essa parte do mundo passa a se chamar Amerige; sendo os outros continentes nomeados no feminino, o mesmo processo passar-se-ia com a terra nova. A nomeação do espaço derivava, assim, de um jogo de palavras em conjunto com uma figura etimológica improvisada, até chegar-se ao nome América (BRIESEMEISTER, 2009, p. 23).