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A década de 1980 foi marcada pelo aumento dos quadros inflacionários e aumento do desemprego, fazendo com que houvesse uma desaceleração da expansão do ensino superior. Martins (2009) salienta ainda que as críticas sobre a qualidade do ensino privado se intensificaram por parte de várias associações profissionais e de outros segmentos da sociedade civil, devido à filosofia empresarial adotada pelas instituições privadas de ensino superior, inculcando intensa vigilância ideológica no interior de suas instituições e evitando a produção de conhecimento crítico em seus estabelecimentos. Emerge dessa relação, a decisão governamental de suspender a criação de novos cursos nos estabelecimentos de ensino privados existentes e de implantar instituições públicas em áreas geográficas de menor interesse econômico para a rede privada.

Até 1980, a participação da rede privada no ensino superior e sua disponibilidade de cursos e matrículas pelo país, assumiu posição substancial para a minimização do déficit de vagas, reduzindo assim a negativa relação oferta e demanda.

De 1990 a 2002, a demanda por educação superior, expressa através do número de inscrições no vestibular, cresceu aproximadamente em 160% e a oferta de vagas aumentou para 252%. Devido à retração das vagas na rede federal, a absorção dessa demanda foi realizada em larga medida pelas instituições privadas. A expansão da oferta contribuiu para a redução do número de candidatos por vagas, de 3,8 para 2,8 nesse período (MARTINS, 2009, p. 26).

Nesse período, de 1990 a 2002, o crescimento do número de instituições privadas de ensino superior no Brasil deu-se de forma acelerada, quando comparado com a estagnação expansionista de universidades públicas federais pelo Brasil. As parcerias e apoios firmados entre governos e empresários do segmento de mercado voltado à comercialização da educação superior pelo país, estendeu-se e foi a

responsável pela absorção de grande parte dos novos estudantes e criação de novas vagas em cursos de ensino superior.

Entre 1995 e 2002 as matrículas saltaram de 1,7 milhões para 3,5 milhões de estudantes, um crescimento da ordem de 209%. Se o ensino público experimentou um aumento em termos de matrículas, foi o setor privado que comandou essa expansão, uma vez que suas matrículas de graduação cresceram de 60% para 70%. O número de universidades públicas ficou praticamente estagnado, ao contrário das universidades privadas, que passaram de 63 para 84 estabelecimentos (MARTINS, 2009, p. 25).

Mancebo; Do Vale; Martins (2015), a partir da Figura 2, esclarecem que em 1995, registrava-se a oferta de 39,8% das matrículas de educação superior em instituições públicas e 60,2% nas instituições privadas. Já em 2002, afirmam que a tendência privatizante intensifica-se, com 30,8% das matrículas em instituições públicas para 69,2% nas privadas.

Figura 2 - Evolução das matrículas dos cursos de graduação presenciais e à distância no Brasil, por organização acadêmica (1995-2010)

Fonte: Mancebo; Do Vale; Martins, (2015).

A política de expansão da educação pública superior instaurada pelo governo federal a partir de 2003, ao identificar, mediante prévio diagnóstico, a arritimia existente entre a taxa de escolaridade líquida da educação superior brasileira e a meta de 30%

proposta pelo Plano Nacional de Educação (PNE 2001-2010), centrou-se em elaborar um conjunto de medidas que possibilitassem a evolução e adequação deste indicador educacional à meta estabelecida. Tal política expressava o duplo intuito de manter o

crescimento do sistema público educacional de nível superior, cujo predomínio concentrava-se no segmento particular, e, simultaneamente, redirecionar parcialmente os diversos recursos governamentais em prol do segmento federal (CARVALHO, 2014a).

Para isso, nessa conjuntura de mudanças históricas, a universidade, regida por regras e normas, somente se apresenta como instituição autônoma quando está inserida em um Estado democrático. Assim, as decisões estatais refletem diretamente nas ações e na sistematização das atividades atinentes ao meio universitário.

Dito dessa forma, as definições estatais, realizadas via reformas de Estado, as quais visaram definir os setores que compõem o Estado, atribuíram à educação, saúde e à cultura o caráter de setores não exclusivos do Estado. Chauí (2003) destaca que a reclassificação da educação como atividade não exclusiva do Estado, significou que a educação ante a substantivação de um direito, passa a ser vista como um serviço que pode ser privado ou privatizado.

Diante das impetuosas reformas intentadas, Saviani (2004, p. 38), explica que

“[...] embora todo o arcabouço da educação tenha sido afetado, prevalecia, ainda, o mecanismo de se recorrer a reformas parciais, fazendo falta um plano de conjunto que permitisse uma ordenação unificada da educação nacional em seu todo”. O enxugamento da máquina do Estado, a partir do compartilhamento de áreas com a esfera privada, ao definir setores estatais não exclusivos, reduziu a capacidade protagonista e investidora do governo em aspectos basilares nas políticas sociais, conduzindo as regulamentações de ensino às urgências determinadas pelos grupos de interesses que detinham o poder Executivo do país.

Pimenta & Alves (2010) esclarecem que uma tendência desse aparato político e econômico de reforma estatal, foi impulsionada pelos efeitos de processos globais que acarretaram na minimização dos espaços de atuação do Estado. Essa redução de exclusivas atribuições coloca em evidência, a “eficiência” exclusiva do setor privado, tendo em vista sua dinâmica e agilidade na “gestão” de seus interesses. E, no caminho oposto, atribui-se ao Estado o estereótipo da lentidão, da ineficiência e do atraso no direcionamento das atividades que lhe competem.

A partir do momento em que o ensino privado superior desenvolvia-se buscava, mediante parcerias com importantes instituições, delinear o perfil e a identidade institucional desse segmento, traçando medidas de organização dos interesses perante o poder público e a diante da sociedade.

Em 2003, buscando suprir históricas lacunas educacionais em diversas regiões do país e ampliar as oportunidades de acesso ao ensino superior, o governo federal promoveu um redirecionamento das políticas de educação superior no Brasil, destinando maior dotação orçamentária para a área da educação e o fortalecimento do ensino público superior federal, com a criação de novas unidades e contratação de novos servidores públicos para as Instituições Federais de Educação Superior – IFES.