2.1 UNIVERSIDADE: CRISES E OPORTUNIDADES
2.1.2 A universidade como uma instituição social complexa
Ter a visão de que uma instituição universitária é um sistema complexo, e como tal ser assim tratada ao se elaborar diretrizes para políticas institucionais, pode contribuir para a construção de novos padrões de comportamento e de soluções apropriadas à gestão do espaço público.
A universidade é uma instituição com dimensões organizacionais altamente complexas, com consequente finalidade e responsabilidade final difusas, uma vez que possui uma estrutura de
poder formada pela reitoria e seus assessores diretos, por representantes das categorias docentes, técnicos administrativos, estudantes, e por entidades representativas da sociedade e do Governo (SOUZA, 2009).
Tal configuração aliada à estrutura de funcionamento estabelecida na autonomia dos departamentos acadêmicos, requer um grande esforço na direção do pensar e do fazer. Para Santos (2011), no interior das universidades não tem sido possível criar redes. Tal configuração, assemelha-se à descrição dada em Santos (2009) quanto à forma de organização das sociedades modernas, que, ao invés de serem estruturadas a partir de um centro,
[...] são constituídas por uma série de subsistemas, todos eles fechados, autônomos, autocontidos, auto-referenciais e automutantes, cada qual com um modo de funcionamento e um código próprios. A correspondência estrutural entre os subsistemas é essencialmente o resultado aleatório de uma coevolução cega, enquanto as interligações funcionais resultantes da coexistência desses subsistemas na mesma sociedade ficam reduzidas a formas de “acoplamento estrutural” (SANTOS, 2009, p. 159).
Na conceituação de sistemas complexos, indivíduos integrantes de uma instituição com esta estruturação poderiam ser considerados, por Bertalanffy (1976), como parte de um sistema com uma ordenação dinâmica, e poderiam ser vistos como peças e processos que subsistem interagindo mutuamente. Assim, ao olhar de quem de fora está, a estrutura universitária poderia ser vista como Bertalanffy (1976, p.1) enxerga um sistema complexo: “[...] um todo constituído por
componentes em interação [...]”. E parece que há possibilidades que a
universidade, mesmo configurada numa estrutura departamentalizada e burocrática, que exprime a estrutura e o modo de funcionamento da sociedade, como já visto em Chauí (2003), poderia ser considerada, oportunamente, um laboratório para o exercício da capacidade de percepção das características e consequências da abordagem conceitual de um ambiente sistêmico.
A abordagem da teoria dos sistemas leva em consideração as partes, a totalidade, o funcionamento das subdivisões, e faz uma análise das finalidades para as quais o todo funciona, colocando a perspectiva de sistemas abertos, que se movem além dos estreitos limites e definições tradicionais, com capacidade para lidar com relações dinâmicas, respondendo por elas (WOODWORTH,1976). A estrutura da
universidade tal qual se apresenta, parece já possuir em seu âmago tal potencialidade, pronta para ser usufruída. Entretanto, para Morin (2006, p. 22), há duas consequências capitais decorrentes da ideia de sistemas abertos:
A primeira é que as leis de organização da vida não são de equilíbrio, mas de desequilíbrio, recuperado ou compensado, de dinamismo estabilizado. [...]. A segunda consequência, talvez ainda maior, é que a inteligibilidade do sistema deve ser encontrada não apenas no próprio sistema, mas também na sua relação com o meio ambiente, e que esta relação não é simples dependência, ela é constitutiva do sistema. A aparente estabilidade que apenas esconde certa turbulência e a dependência do meio externo, são intrínsecas e facilmente perceptíveis. É necessário o desenvolvimento de uma capacidade que dê conta, não apenas de lidar com diferentes opiniões, pontos de vista, relações de poder inerentes ao meio intelectual e político da universidade, mas, além, perceber as oportunidades que se abrem com a interatividade e reconhecimento de interfaces que compõe o seu ambiente sistêmico.
Deve-se, contudo, considerar as limitações impostas por uma estrutura hierárquica e impessoal fortalecida ao longo de toda a sua história de funcionamento e organização. A universidade como tantas outras, enquadra-se como uma organização pública burocrática, onde a capacidade treinada para uma devoção estrita a regulamentos, conduz à transformação em absolutos e em símbolos enclausurados (ETZIONI, 1967).
O entendimento de que, sem a relação com o meio não haveria sistema, e por isso, o que há é a unidade, talvez esteja ainda aquém das possibilidades de percepção da maioria das pessoas. Ao contrário, há um padrão comportamental com critérios de segregação e classificação em classes, raças, gênero, hierarquias, que reforça e configura um círculo vicioso de separação ou dissociação homem/natureza, abordada por Gonçalves (1989) e Miklós (2001), e dos homens entre si, razão primordial do desequilíbrio da sociedade contemporânea. Esse desequilíbrio não seria o mesmo a que Morin (2006) se refere, uma vez que não esconde nem dinamismo, nem interação, nem intercâmbio, muito menos cooperação.
Há possibilidades de se decidir por um caminho até o resgate da inata capacidade de discernimento inerente ao ser humano. O que pode acontecer ao se proporcionar um ambiente de liberdade para além do
aspecto cognitivo e do fazer, nos moldes de Steiner (2000). Este autor aborda a importância do pensar, por meio do qual participamos do mundo ou do que está fora de nós, e do sentir, que nos recolhe ao nosso próprio mundo, como as duas dimensões do indivíduo. Para ele “o sentimento é o meio pelo qual o conceito obtém inicialmente vida concreta” (STEINER, 2000, p. 81).
A concepção de Maturana e Varella (1995) sobre o conceito das redes autopoiéticas, que postula a capacidade de autocriação e autorganização de sistemas vivos, pode auxiliar. Capra (1996) esclarece a definição de autopoiese, que enfatiza a organização, comum a todos os sistemas vivos:
[...] Trata-se de uma rede de processos de produção, nos quais a função de cada componente consiste em participar da produção ou da transformação de outros componentes da rede. Desse modo, toda a rede, continuamente, produz a si mesma [...] (CAPRA, p. 89, 1996).
Portanto, isto sinaliza promissores caminhos para a transformação, por exemplo, por meio de processos que estimulem a participação de indivíduos, organizados em equipe, desde o processo decisório, até a implementação de programas ou políticas institucionais no ambiente universitário. Essa possibilidade parece encontrar eco nos pressupostos de Steiner (2011), sobre a ideia do associativo, onde tudo, objetivos e necessidades, pode ser discutido, decidido e planejado em conjunto.
Um movimento dessa natureza, poderá criar um espaço anímico para novas formas de interação entre servidores e a missão - ou papel - da universidade propriamente, e sobretudo, para novas formas de interatividade social. Steiner (2000) coloca que a busca cognitiva consciente do ser humano pode ser iniciada a partir de dois pontos, a observação e o pensar, que, para o autor, são os pilares que sustentam tanto as ocupações do senso comum como as mais complicadas investigações científicas. Apenas a observação de processos, de ações e fatos de nosso entorno, não levará ao entendimento das relações entre eles, sem que se procure o auxílio dos conceitos correspondentes das circunstâncias (STEINER, 2000).
A forma como Demo (2002) caracteriza a complexidade também pode contribuir para estudos e avaliações da direção a ser tomada neste campo, e especialmente ampara possíveis momentos de perplexidade diante de situações aparentemente caóticas. O dinamismo, para este autor, é uma das características “em que eventual estabilidade
é sempre rearranjo provisório. Sua identidade não é aquela da sempre mesma coisa, mas da mesma coisa em processo” (DEMO, 2002, p. 13).
Para caracterizar a complexidade o autor coloca também a
reconstrutividade, o que não significa reprodução ou replicação. Para
ele, no processo de ser, a complexidade permanece a mesma, porém, mudando sempre. E nesta dimensão da reconstrutividade há um direcionamento para a autonomia e aprendizagem (DEMO, 2002).
Considerar estas duas dimensões (autonomia e aprendizagem) de um sistema complexo, que corroboram com a definição de autopoiese (autocriação) de Maturana e Varela (1995) e Capra (1996), apoia a compreensão do quanto se deve estar atento quando o assunto é propor políticas para o desenvolvimento de pessoas. Minayo (2011, p.49) aborda a complexidade como uma multiplicidade de comportamentos dos sistemas vivos que “[...] conduz a uma nova racionalidade que supera os determinismos e a ideia de que o porvir já está ou pode ser definido.”
Acerca de se considerar a complexidade como um meio para novas concepções de planejamento e de atuação, Minayo (2011) alerta para a ausência de procedimento metodológico, ao mesmo tempo em que afirma que pesquisadores devem acreditar em suas capacidades de tomar rumos mais ousados diante de indecisões, crises e obstáculos contemporâneos. “Trata-se de fato de operar uma reversão epistemológica, a partir da noção de sistema aberto” (MORIN, 2006, p.23).
Poder-se-ia falar, quem sabe, em resgate epistemológico, da antiga prática do ser humano de se enxergar como unidade, em prol de uma sociedade naturalmente autossustentável. O que seria natural, pois de acordo com as premissas de um sistema aberto, como elucidado acima, na constituição de indivíduos que compõem a universidade, e na relação entre eles, todo o substrato e componentes em qualidade e quantidade suficientes haveria para tal.