Capítulo 3 – Apresentação e Análise dos Retratos
3.1. Ana Sofia
3.1.4. A Universidade como uma oportunidade
Antes de conhecer com algum detalhe a experiência da Ana Sofia na Universidade, procurámos perceber o seu percurso desde que entrou para a escola até ao momento. Neste sentido, optámos por propor à nossa participante falar-nos um pouco da sua experiência quando entrou para o ensino básico e as suas vivências nos anos seguintes, de maneira a compreender um pouco as conceções e visões da Ana Sofia no presente.
Por diversas vezes, a Ana Sofia fez referência à altura em que os professores do ensino básico a sinalizaram como uma criança com um défice cognitivo. Esta foi uma situação muito marcante para si, porque os professores não sabiam lidar com as limitações da Ana Sofia.
“Assim mais marcante foi mesmo a primária, que os meus professores não sabiam como lidar comigo…” (Anexo I: Transcrição I)
A nossa participante confessa que sentia dificuldades em acompanhar a turma e sentia que os professores não estavam preparados
para lidar com a deficiência visual. Essa falta de preparação e acompanhamento insuficiente levaram a que a Ana Sofia fosse ficando atrasada por não conseguir acompanhar o ritmo de aprendizagem dos outros.
“Mas os professores também não tinham muita preparação, os meus primeiros professores não tinham mesmo preparação basicamente nenhuma para me ajudar.” (Anexo I:Transcrição I)
Tendo por base a ideia de que a Ana Sofia tinha um défice cognitivo, os professores colocaram-na num apoio individualizado, em que ela própria afirma que fazia tarefas muito básicas que não alimentavam o desenvolvimento das suas capacidades.
Só mais tarde os professores reconhecem as capacidades da Ana Sofia, isso deveu-se à mudança no tipo de acompanhamento que tinha, que passou a ser mais adaptado as suas especificidades. Desde logo, a Ana começou a mostrar alguma evolução e melhoria nas suas notas e é graças a isso que consegue afastar a ideia de que tinha um défice cognitivo. Nas aulas conseguia captar tudo através da audição e respondia às questões dos professores.
“Captava tudo pela audição.”(Anexo I: Transcrição I)
“ Eu respondia a tudo.” (Anexo I:Transcrição I)
Ao ser sinalizada com défice cognitivo, isso também teve influência na relação com os colegas, na medida em que passava muito tempo no apoio e frequentava muitas atividades que eram realizadas fora da turma, ou seja, a Ana Sofia não se sentia muito integrada.
“Era um bocadinho frustrante eu estar, por exemplo, ali numa sala de aula e não conseguia aprender as coisas porque não acreditavam nas minhas
capacidades ou pura e simplesmente pelo facto de não ver.” (Anexo I: Transcrição I)
Apesar destes obstáculos iniciais, a Ana Sofia mostrou que era capaz e que a sua deficiência visual não implicava qualquer problema ao nível da cognição. Com base nesta experiência podemos perceber a dificuldade que a sociedade tem em lidar com a questão de deficiência e acaba por rotular os sujeitos como menos capazes, sem procurar perceber as suas necessidades ou as suas capacidades. A Ana Sofia lutou por mudar a situação e mostrou que era capaz de ser bem sucedida tal como os outros, apenas com algum acompanhamento ou adaptações necessárias.
Aquando da entrada no 2º Ciclo, na escola já tinham conhecimento do seu processo e dos ajustamentos necessários às suas necessidades. A Ana Sofia já sentiu outro género de acompanhamento e sentia-se capaz de acompanhar o ritmo da turma. Apesar de manter uma boa relação com os colegas, sentia que existia ainda algum preconceito.
“É claro que há sempre aqueles colegas assim mais mauzinhos que gozam e isso.” (Anexo I: Transcrição I)
À medida que avançou nos níveis de ensino, a Ana Sofia teve um acompanhamento mais ajustado às suas necessidades, ela própria conversava com os professores quando sentia alguma dificuldade e frequentemente eram realizadas reuniões entre professores, encarregados de educação e diretor de turma para discutir a sua situação. Tendo em conta a sua limitação, ao longo do seu percurso tinha mais tempo para fazer os testes e era ainda acompanhada por uma professora que lhe lia a prova.
Em busca da Autonomia
Desde cedo, a Ana Sofia teve o desejo de ingressar no ensino superior, objetivo pelo qual sempre lutou.
“Quero ter um curso superior, quero ter um curso superior. Sempre disse isto, desde que me lembro e para mim era muito triste quando eu estava sinalizada como uma criança com défice cognitivo e ter aquela aspiração de vir para o ensino superior…” (Anexo I: Transcrição I)
Decidiu ingressar no curso de Psicologia na Universidade de Aveiro, o qual considera ser a sua vocação.
“Sinto que estou mesmo no curso certo…” (Anexo I: Transcrição I)
A Ana Sofia destaca, desde logo, a forma como foi recebida pelos professores e outros membros da universidade, considera que estes estavam preparados para a receber e acreditavam nas suas capacidades.
“Senti que os professores estavam preparados para lidar com a minha limitação…” (Anexo I: Transcrição I)
“Os professores do ensino superior no geral estão abertos a ter alunos com limitações…” (Anexo I: Transcrição I)
No seu primeiro contacto com o contexto universitário, a Dra. Gracinda deu-lhe a conhecer a universidade e os materiais a que podia ter acesso e que poderiam ser uma mais valia ao longo do seu percurso.
Ao longo do curso, sentiu dificuldades em algumas unidades curriculares, nomeadamente Anatomia e Matemática, porque estas implicavam a análise de imagens, gráficos, conhecimento de fórmulas, o que para a Ana Sofia era muito complicado devido à sua deficiência visual. Ela relatou-nos toda a sua luta por lhe modificarem algumas unidades
curriculares, substituírem por outras que ela pudesse frequentar e que fossem mais acessíveis tendo em conta a sua limitação. Percebemos que este momento foi muito delicado para a Ana Sofia, dado que ela tentou ao máximo ser bem sucedida naquelas unidades curriculares e o esforço intenso levou-a, inclusivamente, a perder mais visão.
“Foi mesmo muito complicado.” (Anexo I: Transcrição I)
Nesta fase, destacamos a relação que a Ana Sofia estabelece com os colegas, em que sente que, por vezes, eles a colocam de parte.
“Eu sinto que eles muitas vezes até pensam que eu tenho menos capacidades que eles…” (Anexo I: Transcrição I)
Ao constituir os grupos, a Ana Sofia sente que é colocada de parte e que os colegas sentem a sua participação no grupo como uma eventual causa para o trabalho ficar prejudicado. Ela refere com alguma indignação que só quando se consegue inserir num grupo é que consegue mostrar aos outros membros aquilo de que é capaz.
“Muitas vezes as pessoas ficam admiradas…” (Anexo I: Transcrição I)
Apesar da Ana Sofia se mostrar sempre capaz e com potencialidades, continua a existir algum preconceito por parte dos seus colegas, que pensam que ela não será capaz de ser tão bem sucedida quanto eles. Podemos notar, nesta situação, que as pessoas com deficiência ainda são conotadas com os estereótipos de menos capazes ou dependentes dos outros. Contudo, a Ana Sofia considera que a universidade é inclusiva e coloca à disposição dos alunos todos os materiais necessários para a realização das suas tarefas.
“Eu acho que a universidade é uma universidade inclusiva…” (Anexo I: Transcrição I)
Durante as conversas que tivemos com a Ana Sofia, notámos alguma ansiedade em relação ao estágio, pelo receio de não ser capaz de aplicar na prática tudo o que tinha aprendido ao longo da licenciatura, contudo a confiança e determinação nunca abandonaram a nossa participante. Ela considera a formação uma mais valia e gosta de estar sempre a aprender, nesse sentido encara o estágio como uma forma de aprender com os erros e com a experiência, de forma, a um dia, já na sua vida profissional ser competente em tudo o que fizer.
“Acho que é uma mais valia apostar na formação”. (Anexo I: Transcrição I) A universidade significa uma grande oportunidade para a Ana Sofia como forma de crescimento pessoal, conquista de autonomia e autorrealização. Gosta bastante da área da psicologia e percebemos que alguns dos seus objetivos profissionais passam por formação e promover hábitos de vida saudáveis ou fazer consultas de acompanhamento psicológico ou psicoterapêutico.
Outro aspeto que considerámos interessante diz respeito ao desejo da Ana Sofia em fazer voluntariado em África, através do grupo do qual faz parte, o Grupo de Voluntários de Teresa de Saldanha. Este desejo só reflete o seu espírito generoso, de entreajuda e participativo.
A Ana Sofia aponta a entrada para a universidade como uma oportunidade de ser bem sucedida e de mostrar aos outros que é capaz.
“O investimento também que é muito da minha parte, eu mostrar a mim mesma que consigo. Eu surpreender os outros pelas minhas vitórias.” (Anexo I: Transcrição IV)