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2. O CONTEXTO AMPLIADO: NEOLIBERALISMO E TRANSFORMAÇÕES NOS

2.1 Mudança de planos e a imposição de uma mesma ordem

2.2.2 As múltiplas e microrreformas nas políticas públicas de educação superior e a

2.2.2.1 A universidade-empresa: flexibilidade e competitividade como práticas

Catani e Hey (2007) analisando as políticas de educação superior na América Latina, tomando Argentina, Brasil, Chile e México como países de referência concluem que, a partir da década de 1990, as universidades passam a ser vistas por seus gestores como

um organismo que integra o contexto global, sujeita às mesmas análises e imperativos fundamentais de qualquer empresa ou organização num ambiente competitivo – portanto, estaria sujeita a avaliações objetivas e à condução gerencial. Assim, o pragmatismo dá o tom nessa etapa que envolve a mundialização do capitalismo, com a tendência empresarial manifestando-se em quase todas as instituições, inclusive nas mais importantes, tendo como modus operandi o estabelecimento de convênios e acordos de cooperação com grandes conglomerados empresariais, nacionais ou multinacionais, acarretando profundas transformações na organização do trabalho acadêmico como um todo, com alterações nos planos de estudo, nas linhas de pesquisa, na concepção e difusão de cultura etc (p.119)

Atacadas enquanto instituições sociais e reduzidas a organizações prestadoras de serviços, portanto condenadas à competição com as demais modalidades de organizações de ensino superior, as universidades públicas brasileiras assistiram sua autonomia converter-se e estreitar-se ao jargão da gestão empresarial: flexibilidade, sustentabilidade, qualidade, excelência, avaliação, produtividade passaram a ser as palavras de ordem. Processo que encontra continuidade nos anos de 2000 e que acelera as transformações que se operam no interior dessas instituições.

Marilena Chauí (1999, 2001, 2003) aponta três momentos que caracterizam as transformações pelos quais passou a universidade brasileira ao longo de sua existência. O primeiro traz a concepção de universidade clássica, aquela que, enquanto instituição social, retrata a sociedade da qual faz parte e aspira à universalidade do conhecimento. Com as

mudanças na política da educação superior do país, a partir das reformas neoliberais, impõem- se uma nova concepção de universidade, agora na condição de organização social, prestadora de serviços especializados à sociedade, emerge a universidade funcional, orientada a formar mão de obra qualificada para o mercado de trabalho. Essa concepção rapidamente se transmuta noutra, mais ágil, flexível e produtiva, a universidade operacional. “Definida e estruturada por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual, está pulverizada em microorganizações que ocupam seus docentes e curvam seus alunos a exigências exteriores ao trabalho intelectual” (Chauí, 2003, p. 7).

Como nas políticas de saúde, o mercado dita as regras e o Estado as faz cumprir. Nesse cenário, proliferam também as exigências aos trabalhadores, que passam a ter que, na mesma velocidade, ajustarem-se à nova ordem como forma de garantir a sobrevivência nessas verdadeiras selvas que se tem tornado as universidades públicas do Brasil.

o aumento insano de horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade das publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e relatórios etc. virada para seu próprio umbigo, mas sem saber onde este se encontra, a universidade operacional opera e por isso mesmo não age. Não surpreende, então, que esse operar co-opere para sua contínua desmoralização pública e degradação interna (Chauí, 1999, p. 5)

A flexibilidade (dos contratos, das funções, das atividades) e a competitividade (entre as organizações, para obterem financiamento, e entre os trabalhadores, para manterem seus postos de trabalho) passam, então, a determinar as relações que se estabelecem no cotidiano de trabalho nas universidades brasileiras.

É o modelo da gestão privada, cujos critérios do mercado vão invadindo e se infiltrando nas políticas públicas não só de educação, mas também nelas - processo que tem sido denominado por alguns autores de capitalismo acadêmico (Slaughter & Larry (1997) citado por Blanch & Cantera, 2011). Nessa concepção

a universidade mercantilizada vai sendo transformada de um espaço livre e autorregulado de reflexão, autonomia, diálogo e discussão em um grande balcão de vendas comerciais de produtos acadêmicos, especialmente concebidos para soluções imediatas de problemas específicos que afetam os potenciais consumidores (estudantes-clientes).... A antiga universidade pública vai adotando o formato de supermercado de mercadorias cognitivas, de empresa que compete com centros de educação superior declaradamente voltados para o lucro e com universidades corporativas (Blanch & Cantera, 2011, p. 7 tradução livre)

A condição necessária para a efetiva atuação do capitalismo acadêmico não é outra, se não a desregulamentação das relações de trabalho e a flexibilização do emprego. Só assim os trabalhadores (docentes e técnicos), coagidos a produzir e a vender o produto dos seus trabalhos, incorporam e se engajam no sistema imposto, uma vez que disso dependem para manterem seus empregos. Todos que de alguma maneira, conseguem minimamente escapar, ou ao menos transitar por essa nova ordem sem necessariamente se curvar a ela, são vistos como inimigos, presunçosos e até preguiçosos, devendo, portanto, ser combatidos. É o caso de algumas universidades públicas brasileiras, ou de alguns departamentos no interior dessas universidades ou ainda de alguns trabalhadores que resistem, porque amparados legalmente, embora cada vez mais sejam atacados e hostilizados, a fazer de sua prática um balcão de vendas.

Situados numa espécie de zona de convergência, os hospitais universitários carregam todas as questões problemáticas surgidas a partir dessa involução provocada pelas contínuas transformações promovidas pelo Estado neoliberal e que conformaram a condição atual das políticas públicas, tanto de saúde, como de educação. Nos hospitais universitários, as características do capitalismo sanitário se fundem às do capitalismo acadêmico e o que disso resulta é, entre outras coisas, a babel dos vínculos da qual este estudo se ocupa. Os trabalhadores que nesses espaços desenvolvem suas atividades padecem cotidianamente dos males comuns aos dois contextos, além dos que são específicos a cada um.