1.7 ENCONTROS E DESENCONTROS: da universidade medieval a instituição
1.7.4 A universidade moderna: crises e desafios
A universidade, desde suas origens, vem cumprindo, de forma muito especial, distintos papeis na sociedade, seja por meio da geração e transferência de conhecimento, por meio do ensino, seja mediante ações de extensão e de pesquisa voltadas à sociedade (SOUSA SANTOS, 2005a). Hoje, esse papel não cabe mais tão somente às universidades, posto que as mesmas, enquanto instituição e organização, passam por um momento de crise e se apresentam, segundo Sousa Santos (2005a; 2005b), “em três formatos: a crise de hegemonia, a crise de legitimidade e a crise institucional”. A crise de hegemonia adveio quando os atores perceberam que a universidade não conseguia mais atingir os seus objetivos, de modo que outros organismos foram criados para suprir as lacunas percebidas.
A crise de legitimidade ocorreu quando houve falência dos objetivos coletivamente assumidos e, por último, a crise institucional, que se apresenta quando são impostos para a universidade modelos organizacionais que objetivam tão somente à racionalidade dos processos administrativos. Ainda que várias transformações substanciais tenham ocorrido no mundo, principalmente as capitaneadas pela revolução na microeletrônica, as universidades, porém, continuam presas ao modelo de gestão proclamado na década de 1960.
A revolução na microeletrônica ensejou mudanças nas práticas de gestão e no comportamento das pessoas, só para citar poucos exemplos. É importante dizer também que as universidades introduziram sofisticados sistemas de informação nas partes acadêmica, administrativa e de planejamento, e, no entanto, percebe-se que pouco se evoluiu quando o assunto é o conceito de universidade (SOUSA SANTOS, 2010c).
As mudanças de natureza operacional foram viabilizadas pelo avanço da tecnologia de informação tão usada nas organizações de pequeno, médio e grande porte em nível mundial, uma vez que “a universalidade da linguagem digital e a pura lógica das redes do sistema de comunicação geraram as condições tecnológicas para a comunicação global horizontal” (CASTELLS, 2005, p. 83). Ao olhar para a universidade, enxerga-se um sofisticado espaço de produção de conhecimento e, ao mesmo tempo, de forma paradoxal, um espaço conservador de gestões acadêmica e operacional.
Em meio a esse dualismo, a universidade tem procurado sobreviver às crises que se configuram sobre o cumprimento do seu papel na sociedade e, principalmente, sobre o financiamento dos seus projetos (SOUSA SANTOS, 2010c). A sobrevivência da universidade, especialmente a pública, está associada à crise do financiamento da educação superior, que teve sua origem há décadas e é consequência de políticas públicas de anos anteriores, ocasiões em que as crises econômicas reduziram a capacidade do Estado em fazer investimento na área da educação (SCHWARTZMAN; SCHWARTZMAN, 2002).
Segundo Amaral (2003), as imperfeições de mercado, como a ausência de mercado de crédito associada à crescente demanda por ensino superior, foram corresponsáveis pela escassez de recursos para fins de financiamento do ensino superior, que é de todo modo relativa, pois que a sociedade passou a exigir não apenas novos cursos e ampliação do número de vagas, mas também a reivindicar das universidades públicas a prestação de serviços médicos, de assistência técnica e social, sem a devida contrapartida financeira que deveria ser franqueada tanto pela sociedade como pelo Estado.
Diante desse cenário, há grandes desafios a serem superados pelo Estado no que importa ao financiamento da educação de nível superior. As instituições federais de ensino superior se deparam com várias crises que estão direta e indiretamente vinculadas ao volume insuficiente de recursos financeiros alocados nos seus orçamentos, como se pode constatar da seguinte citação:
As instituições federais de ensino superior enfrentam uma permanente crise de financiamento: primeiro, pela constante insuficiência dos recursos alocados e, depois, pela falta de definição do volume de recursos financeiros disponíveis para as instituições desenvolverem suas atividades no ano subsequente (AMARAL, 2003, p. 150).
Por outro lado, as instituições de ensino privado esbarram-se com uma situação que merece reflexões relacionadas ao seu financiamento, pois “existe uma grande parcela da população que se encontra fora do ensino superior que pertence às camadas mais pobres da população e que não consegue ingressar nas instituições federais de ensino superior”
(SCHWARTZMAN, 200?). É crível deduzir que esse grupo procura as instituições de ensino privado por diversas razões, e uma delas está relacionada à facilidade de ingresso nos cursos, principalmente naqueles que nas universidades públicas apresentam elevada concorrência. Em decorrência da deficiência do ensino público da rede básica, os alunos oriundos desse sistema de ensino que pertencem às camadas mais pobres não conseguem concorrer em pé de igualdade com aqueles que estudaram em boas escolas no decorrer de sua formação básica.
Para Silva (2001, p. 286), “os alunos de menor renda têm menor probabilidade de acesso à universidade pública gratuita em virtude da diferença de qualidade entre ensino básico público e particular e essa diferença vem se agravando”. Schwartzman (200?) acredita que:
Os estabelecimentos privados têm sua principal e quase exclusiva fonte de receita nas mensalidades de cursos de graduação e secundariamente de cursos de extensão e outras fontes. A pós-graduação stricto sensu é muito limitada e isto se deve a que poucas são as instituições que conseguem manter em tempo integral, professores com elevada titulação.
Segundo Schwartzman e Schwartzman (2002), as instituições de ensino privado enfrentam, portanto, um duplo problema quanto à sua sustentabilidade financeira. O primeiro remete à capacidade de pagamento dos seus clientes, uma vez que boa parte deles advém de uma classe social cujo poder aquisitivo é baixo. O outro faz eco à concorrência que elas enfrentam com as universidades públicas, com as comunitárias, com os centros universitários, com as outras particulares e com as confessionais.
O acirramento da concorrência entre essas instituições se dá por meio de “agressivas campanhas publicitárias, rebaixamento do valor das mensalidades, localização das unidades de ensino perto do trabalho ou da residência dos alunos, facilidades de ingresso e algumas poucas instituições tentando atrair alunos pela qualidade do ensino” (SCHWARTZMAN e SCHWARTZMAN, 2002, p. 20). É notório, assim, que o sistema de ensino superior no Brasil enfrenta dificuldades que, no entanto, poderiam ser minimizadas.
Para isso, acreditamos que a universidade necessita resgatar a sua importância junto à sociedade, mostrando-se como uma instituição comprometida com a criação de novos saberes, com uma formação que não privilegie apenas o tecnicismo, mas, sobretudo, o humanismo, uma vez que:
A função da universidade é uma função única e exclusiva. Não se trata, somente, de difundir conhecimentos. O livro também os difunde. Não se trata, somente, de conservar a experiência humana. O livro também os conserva. Não se trata, somente, de preparar práticos ou profissionais, de ofícios ou artes. A aprendizagem direta os separa, ou, em último caso, escolas muito mais singelas do que as universidades. Trata-se de manter uma atmosfera de saber pelo saber para se preparar o homem que o serve e o desenvolve. Trata-se de conservar o saber vivo e não morto, nos livros ou no empirismo das práticas não intelectualizadas. Trata-se de formular intelectualmente a experiência humana, sempre renovada, para que a mesma se torne consciente e progressiva (TEIXEIRA, 1998, p. 18).
Nosso entendimento é de que a universidade precisa:
ser contemplativa e crítica, manter distância para ver o todo e se aproximar à realidade imediata, formar o jovem e cultuar o passado, preservar tradições e quebrar paradigmas, tratar da técnica e pensar os limites éticos da tecnologia (CHAIMOVICH, p. 2, 200?).
Esses são grandes desafios que se apresentam para este novo século. É importante ter ciência que precisam ser encarados com a maior urgência, porque os problemas que se apresentam necessitam ser (re)interpretados para que a universidade esteja preparada para encontrar formas que busquem compreender esse novo processo civilizatório. Além disso, cremos ser necessário que a universidade supere os modelos de produção do conhecimento que é pautado pelo tratamento linear dos fenômenos sociais, do mundo e da vida, competição e individualismo que caracterizam os modelos de gestão de organizações (MOROSINI, 2009).
Defendemos, portanto, a ideia de que a produção de conhecimento deve ser pautada por outros modelos de gestão e, para além disso, que tenham outros fins que apenas os do mercado.
A geração de conhecimento e de saberes deve transcender a lógica eminentemente capitalista ou economicista e avançar em direção a um projeto que promova a emancipação social e a dignidade dos grupos sociais (SOUSA SANTOS, 2005a; 2009a; 2010c). Assim,
compreendemos que a universidade deve se preocupar em arregimentar os diferentes saberes que constituem a vida humana e colocá-los à disposição da sociedade e que tais sejam capazes de ultrapassar o pensamento hegemônico e que façam parte de um projeto que se traduza em uma Ciência prudente para uma vida decente (SOUSA SANTOS, 2006).
É importante dizer que esse papel deve ser algo novo e que vá de encontro ao movimento global que está em curso e que é capitaneado pelo pensamento hegemônico.
A universidade, por ser um espaço privilegiado para a crítica, pode assumir uma posição de vanguarda e liderar um movimento contra-hegemônico e se estabelecer, de fato, como uma instituição social responsável pela formação de cidadãos comprometidos com a sustentabilidade do planeta e não como uma organização que distribui ou vende credenciais.
2 METODOLOGIA DA PESQUISA
O objetivo geral deste trabalho é analisar como as dignidades dos docentes são representadas nos espaços de gestão em universidades brasileiras. Para atender a este objetivo e ao problema de pesquisa foi usado o método da cartografia simbólica de Boaventura Santos.