CAPÍTULO 2 – FORMAS CONTEMPORÂNEAS DE ESCRAVIDÃO
2.2 O RECONHECIMENTO DO PROBLEMA
2.3.2 A utilidade de um consenso conceitual
Longe de desmerecer a ideia de um consenso, ele aparenta ser pouco útil a um combate efetivo. A discussão que deveria ser sobre políticas de combate fica enraizada no âmbito jurídico e político convenientemente para quem não deseja uma punição severa por crime contra os direitos humanos. Como afirma Costa (2015, p. 125), "um conceito estabelecido conduziria automaticamente a uma avaliação do comportamento das empresas. O inverso produz uma nuvem que não permite que isso aconteça." Assim sendo, é importante definir e alcançar um consenso para que todos possam falar a mesma linguagem, contudo, essa pode ser também uma maneira de procrastinar com intenções quaisquer que sejam.
Ressalte-se que explorar as nomenclaturas existentes como trabalho análogo escravo, escravidão moderna, trabalho forçado entre tantas formas do que se denomina genericamente de formas contemporâneas de escravidão através dos seus sentidos percebidos ou apropriados, legítimos ou não, do trabalho escravo enquanto categoria, é um caminho importante a ser percorrido que aqui não será contemplado. O foco aqui é perceber como a ausência de um consenso sobre o que é o trabalho
análogo ao escravo, equivocadamente chamado de trabalho escravo, levou o debate a uma dimensão que em nada contribuiu para a erradicar o problema.
Percebe-se que esta não é uma tarefa fácil porque envolve visões de mundo, por vezes, antagônicas e fragmentadas dispostas em um continuum sobre o tema. A literatura irá expressar uma variação do conceito que será o reflexo dos grupos sociais envolvidos. Neste caso, deve-se perceber a variação de sentido através das ideologias envolvidas. Observe que “o que é trabalho escravo” pode se perder no espaço infinito da filosofia, especialmente quando consideradas as variações culturais inerentes à humanidade. Se forem observadas as acepções que a pergunta assume para diferentes grupos ou períodos da história é possível analisar como variam ou como são percebidas e a partir daí elaborar análises sobre o seu uso ou o seu impacto, por exemplo.
Se existe um consenso sobre o tema, este está assentado sobre a dificuldade em ter estatísticas confiáveis (GOMES, 2012; ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 2010). Esta é uma atividade invisível, ilegal e com aspectos metodológicos complexos de serem resolvidos. Séries estatísticas sofrem com alterações para corrigir distorções, ter mais precisão nas aproximações e dados arbitrados. Fora outras ilegalidades trabalhistas naturalizadas, como alerta Antero (2008), que dificultam a percepção do que é considerado como escravidão contemporânea do que é a precarização pura e simplesmente do trabalho.
Naturalmente que a precarização tem uma perspectiva de redução ou retirada de condições estabelecidas. É um processo de desconstrução de direitos e condições que se tornam um obstáculo à maximização de lucros. Pode-se perceber isso "com terceirizados, subcontratados, part-time, entre tantas outras formas assemelhadas, que se expandem em escala global" (ANTUNES, 2003, p. 231). Criam-se formas de contratação e formas do trabalhador desempenhar o trabalho que são oferecidas a quem estiver disposto a aceitar as condições.
Contudo, a degradação dessas condições não podem colocar em risco a segurança do trabalhador, a sua saúde ou mesmo a vida. Segundo o artigo 149 do Código Penal Brasileiro, é crime
[…] reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto […] (BRASIL, 2003).
O uso da expressão trabalho análogo ao escravo ocorre porque são formas recentes de exploração laboral em que não há a posse do indivíduo, abolida por lei no Brasil em 1888, mas as condições em que ocorrem são tão violentas quanto. Não é a ausência de liberdade que caracteriza a escravidão contemporânea, mas a maneira como o ser humano é transformado em objeto descartável, excluído de direitos e dignidade.
Observe ainda que esta é uma atividade ilegal, portanto, não ocorre a olhos vistos, sendo difícil de ser medida, o que torna os dados poucos precisos a respeito do tema no mundo e no Brasil.
Sobre variações estatísticas, Gomes (2012) destaca um aspecto importante sobre a quantidade de libertados pela fiscalização ter aumentado ou diminuído. Levanta a hipótese de que o processo de recrutamento e mesmo o transporte e alojamento tenham evoluído na medida em que a fiscalização avançou, o que poderia explicar também as variações numéricas. Claro que se deve considerar as variações orçamentárias do Estado ou uma alteração conceitual que inclua ou não entradas nos dados estatísticos.
Carstensen (2013, p.4) caminha nesse sentido ao ponderar que houve uma "alteração da abordagem discursiva" e que as variações estatísticas poderiam indicar mudanças no “conteúdo do conceito”. Como consequência lógica, poderiam afetar a criação de políticas públicas para disciplinar, prevenir e combater.
Esterci e Figueira (2007) consideram, contudo, que o conceito foi estabelecido e que teve desdobramentos importantes que se cristalizaram no combate pelo Estado e em temas pelo mundo acadêmico. Em um levantamento histórico apontam que foi difícil construir um consenso em torno do tema, mas a “categoria aos poucos se impôs e acabou sendo adotada em documentos” (ESTERCI; FIGUEIRA, 2007, p. 94).
Existe ainda um outro ponto importante. A diversidade de termos que definiriam a exploração tem as suas variações regionais em que "as mesmas relações eram identificadas por termos regionais que as particularizavam e ocultavam sua natureza violenta e repressiva" (ESTERCI; FIGUEIRA, 2007, p. 86). Por isso, a ideia de trabalho
análogo ao escravo é carregada de múltiplos sentidos que nem sempre se apresentam claramente.
É difícil e, porque não dizer, impossível encontrar alguém que apoie, que seja explicitamente favorável à escravidão, independente da forma em que se apresente. No entanto, esta não deixa de ser uma opção recorrente no campo e recentemente em grandes cidades no Brasil. O porquê do trabalho análogo escravo ocorrer atualmente é uma questão difícil de ser respondida com precisão. Contudo, sob a ótica do trabalhador, sabe-se que a pobreza e a falta de opções são pré-condições de acesso à exploração.
Pela ótica do empresário é um mistério. Como é uma ilegalidade, é difícil crer na ignorância a respeito disso. Contudo, pode-se especular que a lei não alcança plenamente todas as classes sociais e a violência é naturalizada de tal forma que as pessoas simplesmente não se importam. Ao desenvolver seus relacionamentos nas diversas sociedades, o homem produz relações de coerção através de leis, regras, normas e obrigações diversas não escritas, mas que estão instituídas. Elas irão pautar a relação do homem com o universo que o rodeia e, evidentemente, outros homens.