CAPÍTULO 4. DO DISCURSO À PRÁTICA: RESULTADOS E REFLEXÕES
4.3 Categorias de Alfabetização Científica e Tecnológica
4.3.1 Alfabetização Científica Prática
4.3.1.2 A Utilidade Prática do Conhecimento Científico
Outra faceta do processo de alfabetização científica prática consiste em correlacionar os conteúdos abordados em sala com situações vivenciadas pelos estudantes em seu cotidiano.
A Química, assim como as demais disciplinas científicas, possui grande potencial para apresentar explicações para diversos fenômenos naturais e experiências rotineiras, possibilitando a interpretação do mundo a partir da ótica do conhecimento científico. No entanto, muitas vezes, na escola esse mesmo conhecimento se reduz à resolução de exercícios, nos quais o aluno aprende determinado conceito unicamente para aplicá-lo em atividades propostas pelo professor.
Esse tratamento estritamente conceitual, além de resultar em desinteresse pelas disciplinas científicas (PRAIA; GIL-PÉREZ; VILCHES, 2007), também relega aos próprios estudantes a tarefa de estabelecerem a relação entre conceitos disciplinares estanques e a sua vida diária (BOCHECO, 2011). Outras vezes, a aplicação do conhecimento científico se restringe à “realizações” científicas distantes da realidade do estudante, sem sentido para um aluno que, muitas vezes não compreende situações recorrentes em sua própria vivência e é obrigado a compreender questões relacionadas a um mundo que não é seu (RICHETTI; MILARÉ; PINHO ALVES, 2009a).
Na busca por superar esse distanciamento da realidade e extrema abstração conceitual que caracterizam o Ensino de Química, procuramos abordar os conteúdos específicos da disciplina atrelando-os ao seu contexto de aplicação e, ao enfocar sua função prática, aproximar esses mesmos conceitos do cotidiano dos estudantes.
Pretendemos dessa maneira, ao invés de diminuir a importância dos conteúdos conceituais agregar novos significados a estes mesmos conteúdos, para que sua
apropriação possibilite novas compreensões sobre sua importância na vida dos estudantes.
Reproduzimos a seguir alguns trechos das produções textuais dos alunos, nos quais são apresentados relatos que descrevem implicações práticas dos conteúdos abordados em sala:
Uma coisa que achei muito legal foi a última pergunta sobre a Serra do Mar. Nossos ouvidos tampam quando descemos a serra. O ar comprime o ouvido formando um tampão até nos acostumarmos com a pressão do ar exterior (D033).
E no segundo experimento foram usados dois copos com água à temperatura ambiente. Nesses copos foram colocados dois pedações de um comprimido efervescente. A primeira parte foi triturada em um almofariz e a outra foi usada inteira. Foram jogados ao mesmo tempo na água e o mais triturado derreteu rapidamente enquanto o outro demorou para diluir. Então, aqui o que influenciou foi o tamanho. Por isso que cortamos os alimentos em partes para cozinhar mais rápido (D171).
Foi aprendido e tratado através de experimentos nessa aula que as reações químicas (ou ao menos parte delas) podem ser controladas.
E fazemos isso várias vezes no cotidiano sem perceber. Ao usar uma panela de pressão para cozinhar, por exemplo, há uma influência que faz com que o feijão, ou seja, lá o que estiver na panela, cozinhar mais depressa (D176).
Eu, particularmente, gostei da aula e também aprendi muito mais. Por exemplo, eu não sabia que as enzimas das batatas poderiam acelerar uma reação química. Agora com a experiência eu aprendi e gostei muito mesmo (D180).
Esses relatos indicam que alguns alunos conseguiram associar vários conceitos específicos da disciplina, como a influência da temperatura, da pressão, da superfície de contato e dos catalisadores (enzimas) em reações químicas e processos físicos que se apresentam em situações corriqueiras, como o cozimento dos alimentos ou uma viagem para o litoral. Essa associação é fundamental para que os estudantes percebam a importância da Química em suas vidas fora da escola, e ressaltam a necessidade de um ensino que também apresente significado imediato aos alunos e não apenas em um momento posterior. Um ensino que se apresente útil no momento em que se aprende, que enfatize a estreita relação entre o saber e o fazer.
Convém ressaltar que não se trata de advogar em favor de um ensino meramente utilitário e imediatista, preocupado apenas com a simples aplicação dos conhecimentos escolares adquiridos. Ao contrário, trata-se em procurar dar sentido ao que se ensina e de defender um modelo de ensino que também se mostre capaz de lidar com problemas concretos. Como destaca Ricardo (2005), parece que há um abismo entre os saberes formais e a realidade, e os alunos que, frequentemente,
apreendem a estrutura formal do conhecimento científico, têm dificuldades em relacioná-lo com o mundo real.
Esta é uma das características mais relevantes da dimensão prática de um processo de alfabetização científica: seu potencial para agregar significados aos saberes escolares e aproximar o conhecimento científico da realidade dos estudantes, abandonando a falsa noção de que estes saberes são um fim em si mesmo.
Também é recorrente no discurso dos estudantes que a percepção de novas possibilidades para utilização dos conteúdos disciplinares modificou sua maneira de encarar a Química e as demais disciplinas científicas. Vejamos alguns desses relatos:
Vejo diferente agora, vejo que as matérias científicas não são só contas, são coisas que vemos ou fazemos no dia a dia e que não sabemos que é considerado ciência, como as reações químicas (QF01 – grifos nossos).
Em todas as aulas foi possível aprender um pouco mais sobre a Química em diferentes lugares que podemos encontrá-la em nosso dia a dia. Todas as aulas que tive me ajudaram a ver como matérias científicas podem nos ajudar a ter melhores visões do que nos rodeia e saber como funcionam certas coisas que as vezes até parecem sem importância para alguém que não preste atenção, mas que podem fazer toda a diferença em certas ocasiões (QF03 – grifos nossos).
[...] a Química não é só laboratório com jaleco e luvas, fazemos química em nossa casa também, como no ato de cozinhar e cortar os alimentos para um cozimento mais rápido (QF05 – grifos nossos).
[...] agora eu penso que a Química não é só a matéria que se estuda na escola e só precisa dela para fazer a prova, mas é uma coisa que faz parte do nosso dia a dia. Muito do que aprendi eu uso para o meu cotidiano agora (QF10 – grifos nossos).
Constata-se nos relatos destacados que, além de apresentar aplicações cotidianas pontuais dos conhecimentos químicos, a própria disciplina começou a ser designada como algo útil para além dos muros escolares ou dos laboratórios. Ao perceber a utilidade dos conhecimentos científicos estudados em sala, os fragmentos apresentados indicam que os alunos passaram a adotar uma postura diferente em relação à importância desses conhecimentos.
Desse modo, além de contribuir com o desenvolvimento de conhecimentos científicos básicos necessários para a interpretação do mundo em que vivem, a dimensão prática em um processo de alfabetização científica nas aulas de Química também auxilia na mudança da imagem que os estudantes têm da própria disciplina.
Esse aspecto (percepções sobre a ciência e a atividade científica) será discutido durante a análise da categoria relacionada à alfabetização cientifica cultural.
Contudo, achamos pertinente apresentar esses relatos aqui, por estarem diretamente relacionados com as implicações práticas do conhecimento cientifico e também porque desse modo, enfatizamos novamente que nenhuma das categorias de ACT encontra-se desvinculada das outras.