CAPÍTULO 1 – A PROPAGANDA POLÍTICA INTEGRALISTA POR MEIO
1.4. O nascimento da Ação Integralista Brasileira e o cinema como parte do
1.4.2. A utilização do cinema pela AIB e a busca pelo poder
Durante todo o período de existência da AIB (1932-1937), a imprensa integralista discutiu, por meio de vários artigos, a respeito da situação do cinema nacional e sobre quais eram os planos do movimento para o cinema. Essa mesma imprensa também informou acerca das primeiras filmagens feitas pela AIB, bem como informou em relação aos outros filmes integralistas produzidos durante o período. O Monitor Integralista indica que as primeiras filmagens sobre as atividades do movimento começaram ainda em 1933:
No dia 19 de novembro de 1933, em Niterói, em homenagem à bandeira nacional, foram e desfilam 1.500 “Camisas-Verdes”, organizados tecnicamente por Jayme Ferreira da Silva, sob o comando de Lacerda Nogueira e aos quais o Chefe Nacional passa em revista. Nesse desfile tomou parte um contingente do Rio, comandado pelo “Centurião” Everaldo Leite que tinha como ajudantes Helvio Fernandes e Arthur Thompson. Dá-se por essa ocasião o primeiro choque entre Integralistas e
comunistas. Cerca de 100 indivíduos tentam perturbar as homenagens que os Integralistas prestavam a bandeira brasileira e dão motivos a um conflito que é filmado por duas empresas cinematográficas. (Monitor Integralista, nº. 22, 7/10/1937, p. 14).
O desfile integralista organizado em homenagem ao dia da bandeira foi filmado por duas empresas cinematográficas; provavelmente o integralista Américo Matrangola filmou essa atividade. O cinegrafista acompanhou Plínio Salgado e sua comitiva por todo Brasil, onde além de filmar os eventos também exibia filmes integralistas. Durante o Primeiro Congresso Integralista realizado em Vitória – ES, Matrangola exibiu cenas de seus filmes no encerramento do evento. A partir de 1936, entrou em atividade o “Departamento Nacional Cinematográfico”, chefiado por Frederico Rummert Junior.
O departamento era controlado pelas Secretarias Nacionais de Finanças e de Propaganda, que mantinham em atividade a “Sigma Film”. Esse órgão era “encarregado da filmagem e da projeção de tudo quanto possa interessar o Movimento e sua propaganda” (Monitor Integralista, nº.22, 7/10/1937, p.7). Fritz Rummert Jr. filmou diversas atividades integralistas pelo país e produziu com essas imagens pelo menos vinte cinejornais. A AIB se utilizou de documentários e cinejornais para divulgar sua propaganda, pois de acordo com Simis (2008), esses dois gêneros não sofriam com a concorrência dos filmes estrangeiros, pois abordavam apenas assuntos locais. (SIMIS, 2008, p.80). Além do mais, tinham espaço no horário destinado aos complementos nacionais e um custo menor de produção do que filmes de longa-metragem e ficcionais.
Os filmes produzidos pelo Departamento Nacional Cinematográfico comandado por Fritz Rummert Jr e os filmes de Matrangola também estavam a serviço de outras Secretarias e Departamentos do movimento. A Secretaria Nacional de Arregimentação Feminina e dos Plinianos, por exemplo, possuía a “Divisão de Divertimento”, a qual o cinema fazia parte. Os filmes deveriam educar e divertir os jovens integralistas, informando-os sobre os valores do movimento. O cinema também seria controlado pela Secretaria Nacional de Cultura Artística, que tinha como finalidade incentivar, difundir, criar e controlar a parte artística e cultural do movimento integralista. A secretaria era dividida em quatro departamentos: Música, Bellas Letras, Artes Cênicas e Artes Plásticas. O Departamento Nacional de Artes Cênicas compreendia as divisões de teatro e cinema e deveria apoiar essas instâncias, além de orientar e controlar os filmes e peças organizadas pela AIB.
Os filmes, além de divertir e educar, seriam ótimos instrumentos de propaganda política. Assim, a partir de 1936, com o acirramento político entre os candidatos ao cargo de Presidente da República23, a Secretaria Nacional de Propaganda criou um manual intitulado
“Meios de Propaganda para a Campanha Eleitoral” (1937). O manual continha orientações sobre propaganda para os “camisas-verdes” que ocupavam cargos nas Secretarias de Propaganda, bem como para integralistas de uma forma geral. Uma das preocupações expressas no manual era com o custo da propaganda política, por isso dividiu os meios de propaganda em dois tipos: meios de propaganda de custeio barato e de custeio dispendioso.
Os meios de propaganda de custeio barato eram as já conhecidas demonstrações coletivas como as bandeiras24, os comícios, comemorações, concentrações, desfiles, festivais
de caridade, parada de automóveis, motocicletas e bicicletas, passeatas, provas desportivas e reuniões doutrinárias. O manual informa também sobre formas de propaganda a serem feitas por grupos organizados ou individualmente. Sobre as organizadas por grupos, fariam chamadas por telefone, colagem de pequenos impressos, distribuição de boletins e impressos, distribuição de cédulas eleitorais, paradas de cartazes ambulantes, pinturas de sigmas ou frases de propaganda.
A propaganda individual poderia ser feita por catequeses individuais, reuniões em casas particulares, visitas e conversas, colagem de rótulos comandos, carta-propaganda, propaganda em automóveis, uso da camisa verde e distintivos, caminhões com cartazes, faixas de pano, impressos, painéis e tabuletas. Enfim, era grande o “arsenal” que o integralista dispunha para realizar a propaganda do partido. Havia também os meios de propaganda de custeio mais dispendioso como amplificadores, aviões, cartazes, discos, distribuição de livros de doutrina, imprensa, lanchas e flutuantes, letreiros luminosos, rádio, remessas de propaganda pelo correio e cinema. Sobre o cinema, o manual informa:
A exibição de films integralistas para pessoas não pertencentes ao nosso Movimento é uma ótima propaganda, pois mostra-lhes realmente o que representamos. O Departamento Nacional Cinematográfico tem um grande número de films das nossas principais solenidades. Os núcleos integralistas poderão dirigir-se a esta S.N.P. que dará as informações necessárias. É uma propaganda um pouco dispendiosa, pois é, preciso arrecadar o suficiente para a passagem do exibidor, transporte de material
23 Os candidatos eram Armando de Sales Oliveira, José Américo de Almeida e Plínio Salgado.
24As bandeiras eram excursões do Chefes Provinciais por outros núcleos e percorreram grandes extensões do
território nacional. As bandeiras possuíam uma dupla finalidade, congregar os integralistas dos vários núcleos e realizar a propaganda do movimento para os não integralistas, realizando comícios, passeatas, sessões, na qual a organização da AIB era apresentada à população. (Meios de Propaganda para a Campanha Eleitoral, 1936, p.6- 7).
cinematográfico, etc. (Secretaria Nacional de Propaganda. “Meios de Propaganda para a Campanha Eleitoral”, 1936. Arquivo Histórico José Ferreira da Silva, grifos nossos).
Uma das dificuldades com o uso do cinema eram os custos. Tanto a produção quanto a distribuição e exibição dos filmes era algo custoso. O movimento não possuía recursos financeiros volumosos e contava com a participação dos militantes para financiar suas atividades (ver capítulo 4). Apesar das dificuldades, a Sigma filmes, ligada ao Departamento Nacional Cinematográfico comandada por Frederico Rummert Junior, bem como Américo Matrangola, acompanharam de perto Plínio Salgado e sua comitiva integralista por todo Brasil. Além de produzirem os filmes, os dois cineastas também exibiam suas produções em núcleos integralistas e em cinema comercias, uma vez que a exibição de filmes para não integralistas era considerada uma forma eficiente de propaganda.
No entendimento dos integralistas, os filmes mostravam realmente o que eles representavam; captavam a organização e grandeza do movimento, elementos que o Integralismo buscava demonstrar em suas manifestações públicas, explorando a ideia de unanimidade, já apontada por Domenach. Nesses eventos estavam presentes outras técnicas de propaganda apontadas por Domenach como o uso de símbolos e slogans para sintetizar a ideia integralista, a repetição exacerbada dessas ideias, já simplificadas, por meio de diversos meios de propagação, além da ideia de unanimidade já apontada anteriormente. Dessa forma, esses eventos eram vistos pelo movimento como uma forma de propaganda sobre si mesmos.
Os regimes fascistas e também os movimentos fascistas25 compartilhavam de uma
“maquinaria simbólica” em que todos os ritos, cultos e símbolos deveriam demonstrar a união e grandiosidade do movimento. Todos esses elementos possuíam uma dupla função: manter a coesão interna dos membros e conquistar novos adeptos. (BERTONHA, 2008, p. 245-259). O integralismo soube muito bem organizar verdadeiros “espetáculos políticos”, segundo Bertonha (2008), por meio de desfiles, paradas e concentrações buscava-se uma:
glorificação da força e do poder do movimento, celebrando reiteradamente um ideal de sociedade e de estética. Elas atestavam a impressão de unanimidade dos militantes em torno do ideias e diretrizes integralistas e fabricavam a dramatizações políticas que assumiam papel relevante ao endossarem a representação integralista de sociedade (BERTONHA, 2008, p.246).
25 Entendemos por regimes fascistas os governos que se instituíram (como o nazismo na Alemanha e o Fascismo
Essa “cenografia” montada pela AIB permitia “ao integralista viver o movimento, praticá-lo e, então, mesmo que de forma restrita, construí-lo enquanto movimento de massa”. (AMADO, 2012, p. 63-64). Os filmes integralistas buscavam mostrar justamente essas manifestações. Tanto os filmes de Matrangola, Rummert Jr. e de outros cineastas focalizaram desfiles, paradas e rituais nos quais os integralistas eram convocados a participar. De acordo com os “Protocolos e Rituais” da AIB:
Art.131º. – Todos os integralistas convocados são obrigados comparecer ás concentrações de “Camisas-Verdes”, apresentando-se nos lugares que lhes foram designados, de acordo com os planos organizados pelo Conselho Técnico ou o seu correspondente, conforme o âmbito, e aprovado pela autoridade competente. (Monitor Integralista, nº.18, 10/04/1937, p. 6.)
Os chefes locais organizavam as marchas em suas respectivas províncias, mas seguindo as ordens do Chefe Nacional. Era preciso que tudo estivesse “coreografado” para que todos os elementos que compunham a cena estivessem desempenhando bem a sua função. Dessa forma, havia a preocupação de informar sobre a filmagem desses eventos para que todos participassem. O jornal integralista A Offensiva – RJ, dirigido por Plínio Salgado e por Madeira de Freitas, publicou em agosto de 1936 uma nota intitulada de “Um filme da grande concentração de plinianos”. A nota convoca os integralistas para um evento que seria filmado:
O Chefe da Secção de Cinematografia de Secretaria Provincial de Propaganda, faz ciente ás Chefes Municipais de Arregimentação Feminina e de Juventude, de que a grande concentração de Plinianos, determinada pelo Chefe Provincial, para breve, será filmada com filme de bitola universal, para figurar como parte integrante do Grande Film das atividades Integralistas na Província de Guanabara, em confecção. (A Offensiva, nº.254, 09/08/1936, p.4).
Além da convocação dos militantes, a imprensa integralista informava sobre como os integralistas deveriam se portar durante esses eventos. Os “Protocolos e Rituais” da AIB normatizavam todas as ações dos integralistas durante essas manifestações. Plínio Salgado, ao corporificar a ideia do integralismo, deveria ser elemento central nesses eventos. Tudo era pensado para compor a “cenografia integralista”, desde o número de fileiras até o número de participantes e a distância entre eles, como podemos observar na ilustração 5:
Fonte 3. Monitor Integralista, nº.7, 08/1934, p.6.
A cenografia integralista, tal como a fascista, tinha a pretensão de mobilizar as massas, tanto do ponto de visto individual quanto do coletivo. Nesse sentido, o cinema tinha uma função mobilizadora para o integralismo, visto que por meio dos filmes era possível demonstrar toda a grandiosidade do movimento. O integralismo se tornou um movimento de massas devido (mas não apenas) à propaganda política por ele utilizada. Esta dialogava com alguns elementos da cultura política brasileira, tais como o autoritarismo e o conservadorismo, e por isso foi assimilada. Por meio de sua propaganda, a AIB buscou apresentar os inimigos da nação e se colocar como uma solução aos problemas enfrentados pelo país. Dessa forma, a “satanização” do comunismo, do capitalismo internacional e da frágil democracia representativa do período era constantemente realizada por meio dos meios de comunicação utilizados pela AIB.
Dentro do contexto mundial e nacional dos regimes autoritários da época, o integralismo valorizava a propaganda de massa e o cinema e, a AIB discutia na sua imprensa a importância que esse meio de comunicação possuía para seus atingir seus objetivos políticos e a necessidade de eliminar as barreiras à produção nacional, que por sua vez acabava impactando sobre a própria produção cinematográfica do movimento. Os integralistas ao criarem o “cinema nacional” estariam criando o próprio “cinema integralista”. No entanto, esse “cinema integralista”, não implicava, ainda, em um conjunto de técnicas e uma linguagem específica capaz de difundir valores e uma estética tipicamente integralista, tal como acontecia no cinema soviético. Eles estavam mais preocupados em revelar (da maneira que fosse possível) o integralismo por meio do cinema.
Apesar de pouco poder fazer quanto aos problemas enfrentados pela indústria do cinema nacional, a AIB buscou desde seu início criar os meios necessários para que o movimento pudesse realizar filmes. Desse modo, a AIB pensou e organizou a produção de filmes para objetivos políticos antes mesmo do Estado brasileiro. As produções do INCE só começariam a partir de 1937 e o DIP só faria documentários e cinejornais a partir de 1939. Podemos afirmar que, definitivamente, o cinema ocupou um lugar de destaque para os objetivos integralistas. E caso a AIB chegasse ao poder, o cinema seria um importante pilar da propaganda do chamado Estado Integral.
Apesar do curto período de atuação (1932-1937), muitos filmes foram produzidos por integralistas como Frederico Rummert Junior, Américo Matrangola e Alfredo Baumgarten. A AIB também foi focalizada por outros cinegrafistas que não tinham uma relação direta com o
movimento, como João Baptista Groff e João Gonçalves Carriço. Esses cineastas aproveitavam que o integralismo valorizava o cinema como propaganda política e produziam filmes para o movimento. Além do mais, a própria AIB contratou os serviços cinematográficos de outras empresas para filmarem as atividades integralistas. Os cineastas e empresas que filmaram a AIB, bem como a relação desses com o projeto integralista serão apresentados no próximo capítulo.