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II. DISCURSO POLÍTICO E A(S) VERDADE(S)

2.2 A(s) verdade(s)

Ao tratar da fala pública neste capítulo, trouxemos de Courtine e Piovezani (2015) a questão de que a fala pública era vista, desde a Antiguidade Clássica, como um falar verdadeiro, um dizer francamente, nomeado de parrésia. Vimos, também, em capítulo anterior, que quando em confronto com as teorias da enunciação, a ideia de fala verdadeira pode ser retrabalhada, no que diz respeito à irrupção do inconsciente (com a verdade sempre semidita). Agora, em relação ao histórico-ideológico, o que se entende como verdade? Para tentarmos responder a esta questão trazemos alguns estudos que nos permitirão refletir sobre o conceito de verdade e sua história, de forma a nos auxiliar em nosso estudo, em que analisamos os processos de produção de sentidos nos dizeres dos presidenciáveis, que trazem a impressão de que o que dizem é da ordem uma verdade, como já mencionamos.

Primeiramente, trazemos o trabalho desenvolvido por Foucault (2013 [1973]), A verdade e as formas jurídicas, resultado de conferências realizadas pelo autor no Brasil em maio de 1973. Nesta obra, o autor questiona fortemente o conceito de verdade, analisando sua construção nas relações de poder que se apresentam na sociedade, mostrando-se, de certa forma, reverente com a Psicanálise (JARDIM, 2013). Foucault (2013 [1973]), ao início da primeira conferência, afirma que seu objetivo seria apresentar como as práticas sociais podem agregar saberes que fazem surgir novas formas de sujeito e sujeitos do conhecimento. Assim, acrescenta-nos que o “próprio sujeito de conhecimento tem uma história, a relação do sujeito com o objeto, ou, mais claramente, a própria verdade tem uma história” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 18).

Desta maneira, a partir do século XIX, um certo saber do homem é produzido a partir das práticas sociais que o autor chama de “práticas sociais de controle ou vigilância”. Foucault, então, se propõe a mostrar como esse saber fez surgir um novo modo de sujeito na sociedade: o sujeito de conhecimento.

Foucault (2013 [1973]) propõe uma reelaboração da teoria do sujeito, pensando neste sujeito do conhecimento que surge e também a partir uma análise do discurso, que considera o discurso como um conjunto de fatos linguísticos regulares em um mesmo nível, e por outro lado que se colocam como polêmicos e estratégicos. Assim, o autor afirma que a Psicanálise é responsável pela mudança na maneira como o sujeito é entendido por diferentes teorias naquele momento.

De acordo com o autor, há cerca de dois ou três séculos, a filosofia concebia o sujeito como fundamento, como centro do conhecimento, “como aquilo em que e a partir de que a liberdade se revelava e a verdade podia explodir”. Assim, Foucault (2013 [1973]) reconhece que a Psicanálise retira a evidência deste sujeito em sua posição absoluta, ou seja, coloca em questão esta forma de conceber o sujeito como fundante. Todavia, o autor destaca que, mesmo com essa intervenção da teoria psicanalítica, o campo da teoria do conhecimento, da epistemologia, ou no campo da história das ideias, a teoria do sujeito ainda paira no ar da filosofia. (FOUCAULT, 2013 [1973]).

Faz-se necessário, então, pensar no sujeito que se constitui no interior da história, sendo sempre refundado, dependendo do momento histórico em que vive. Deve-se, portanto, investigar a “constituição histórica de um sujeito de conhecimento através de um discurso tomado como um conjunto de estratégias que fazem parte das práticas sociais” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 20). Então, o autor propõe que a verdade possui duas histórias:

A hipótese que gostaria de propor é que, no fundo, há duas histórias da verdade. A primeira é uma espécie de história interna da verdade, a história de uma verdade que se corrige a partir de seus próprios princípios de regulação: é a história da verdade tal como se faz na ou a partir da história das ciências. Por outro lado, parece-me que existem, na sociedade, ou pelo menos, em nossas sociedades, vários outros lugares onde a verdade se forma, onde um certo número de regras de jogo são definidas- regras de jogo a partir das quais vemos nascer certas formas de subjetividade, certos domínios de objeto, certos tipos de saber- e por conseguinte podemos, a partir daí fazer uma história externa, exterior, da verdade (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 20-21).

Da forma como Foucault compreende, a verdade pode ser entendida de duas diferentes maneiras. Primeiro por sua história interna, que autorregula os saberes e, por outro lado, a verdade se dá a partir de diversos lugares na sociedade, ou seja, são vários os fatores que a constituem.

Foucault critica a forma como a ideologia é entendida por uma certa leitura do marxismo. O autor afirma que, nas análises marxistas tradicionais, a ideologia é entendida como um elemento negativo, pelo qual se mostra que a relação do sujeito com a verdade, ou com o conhecimento, é obscura, não acessível ao sujeito. Essa relação é “velada pelas condições de existência, por relações sociais ou por formas políticas que se impõem do exterior ao sujeito do conhecimento” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 34). Para Foucault, essas condições políticas e econômicas não recobrem a verdade para o sujeito, mas produz os sujeitos de conhecimento, e, como consequência, produz as relações de verdade na sociedade.

É importante lembrar, neste momento, que este é um ponto de discordância entre o nosso trabalho e o que propõe Foucault, uma vez que nos apoiamos na Análise do Discurso que, com a mudança de terreno proposta por Pêcheux (2014a [1969]), funda sua base teórica a partir do Materialismo Histórico de Marx. Desta forma, entendemos a ideologia como uma estrutura que apaga seus efeitos de assujeitamento para o sujeito, que está sempre dentro desse funcionamento de interpelação ideológica, sendo afetado sem que se dê conta disso. O que nos importa no trabalho de Foucault é a maneira como observa as relações de verdade na sociedade.

Houve, no início de nossa civilização, um rompimento da forma de unidade de poder político que também se apresentava como um saber. Este processo vai ocorrer na Grécia antiga ao longo de cinco ou seis séculos. Já na Grécia clássica, o homem do poder será aquele que não detém o saber, ou seja, o homem da ignorância.

Assim, o mito de que a verdade não pertence ao poder político irá se inscrever na sociedade ocidental. O poder político será tratado como cegueira, de que o saber de verdade é aquele que se tem quando existe contato com os deuses. Deste modo, com Platão, há o mito de que “onde se encontra saber e ciência em sua verdade pura, não pode mais haver poder político” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 56). Para Foucault é necessário acabar com este mito. Nietzsche começou por fazê-lo, ao mostrar que “por trás de todo

saber, de todo conhecimento, o que está em jogo é uma luta de poder. O poder político não está ausente do saber, ele é tramado com o saber” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 56).

Ao tratar da sociedade contemporânea, que designa de “sociedade disciplinar” o autor afirma que a formação desta sociedade pode ser caracterizada pelo surgimento de dois fatos que se opõem: “a reforma, a reorganização do sistema judiciário e penal nos diferentes países da Europa e do mundo” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 81).

Esta é a era que o autor chama de “ortopedia social”, por se tratar de uma forma de poder, de uma organização de sociedade caracterizada pelo controle social, uma sociedade da vigilância, da disciplinarização. Essa forma de esquema vigilante da sociedade apresentada por Foucault já foi prevista, segundo ele, pelo teórico Bentham (1785), de quem ele retoma o termo Panopticon para designar este modelo de organização social de controle. O Panopticon é considerado uma “forma de arquitetura que permite um tipo de poder do espírito sobre o espírito; uma espécie de instituição que deve valer para escolas, hospitais, prisões, casas de correção, hospícios, fábricas etc” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 88).

O Panopticon era um edifício que tinha formato de anel, em seu centro havia um pátio com uma torre. Este anel era divido em diversas celas pequenas, em que as pessoas realizavam tarefas como, no caso das crianças, aprender a escrever, um trabalhador executava seu trabalho ou havia até um prisioneiro tentando rever seus erros ou um louco revendo suas loucuras. Tudo o que se fazia nestas celas, dependia do objetivo institucional pelo qual o indivíduo se encontrava ali. Na torre central do pátio, ficava um vigilante, que podia ver de um lado ao outro da cela, já que esta dava tanto para o interior quanto para o exterior. O vigilante podia observar tudo que acontecia nas celas, sem que fosse visto por ninguém. “O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é, no fundo, a sociedade que atualmente conhecemos” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 88).

Este tipo de sociedade não mais se organiza sobre um inquérito, como antes, mas agora gira em torno do que Foucault denomina de exame. No inquérito se buscava descobrir a verdade dos acontecimentos, enquanto no Panopticon o que está em jogo é a vigilância, o exame. Agora, não se tem o objetivo de reconstruir um dado acontecimento, mas trata-se de haver algo ou alguém que deve ser todo o tempo controlado ou vigiado. Essa vigilância é executada por alguém que exerce um certo poder sobre o indivíduo, podendo, além de vigiá-lo, também construir determinado saber sobre aquele que é

vigiado. Este saber não visa mais estabelecer o que se passou ou não, mas sim determinar se um indivíduo segue ou não as regras estabelecidas. Passa-se, agora, a observar a não obediência à norma estabelecida pela instituição. Caso o indivíduo não seguisse as regras, sofria medidas corretivas. Assim, o Panopticon, sobre o qual se organiza nossa sociedade, possui um triplo aspecto: vigilância-controle-correção. Este tríplice aspecto do sistema, “parece ser uma dimensão fundamental e característica das relações de poder que existem em nossa sociedade” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 103). Vivemos em uma sociedade programada para seguir regras, normas que regulam o que pode ou não ser feito pelos indivíduos, uma sociedade controlada e vigiada, em que reina o Panopticon.

Isto nos faz pensar em nosso objeto de estudo: os debates eleitorais televisionados. Podemos dizer, seguindo o pensamento de Foucault, que os debates eleitorais estão inseridos nesta sociedade do Panopticon, uma vez que, ao circularem na televisão, estabelece-se uma vigilância constante. Neste caso, é possível verificar que a vigilância se dá de duas maneiras distintas. Primeiramente, temos o controle midiático, que, como veremos no capítulo a seguir, é regido pelas questões mercadológicas e capitalistas de nossa sociedade contemporânea, que controlam o que pode e deve ser dito nestas condições. Em segundo lugar, há uma vigilância dos eleitores que assistem aos debates. São os eleitores que vão, a todo o tempo, vigiar os atos, os dizeres, e também construir sobre o candidato, um conhecimento, conforme aponta Foucault (2013 [1973]), o que chamamos de imaginário, consoante Pêcheux (2014a [1969]). Isso vai permitir que haja, ou não, a identificação deste sujeito na posição de eleitor com o sujeito inscrito na posição de candidato à Presidência, conforme observamos no primeiro capítulo deste trabalho. O que se busca, então, não é uma verdade, mas o controle, a vigilância.

Sendo assim, no panoptismo, “a vigilância sobre o indivíduo não se exerce sobre o que se faz, mas sobre o que se é; não sobre o que se faz, mas sobre o que se pode fazer” (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 104.) A tendência é individualizar, cada vez mais, o indivíduo que cometeu o ato, deixando de levar em conta a ordem jurídica, a qualificação penal da ação.

Verifica-se, portanto, que a verdade, da forma como Foucault trabalha nesta obra, está sempre relacionada às questões sociais, políticas, econômicas da sociedade. O autor faz um estudo sobre como a verdade se constitui em diferentes momentos, trazendo novas formas de compreendê-la com o passar do tempo, o que nos permite compreender a

história da verdade. Podemos concluir, de acordo com este estudo, que a verdade é regional, localizada. Isto significa dizer que a verdade é concebida de acordo com o momento social e histórico de determinada época e que, portanto, não existe uma verdade, mas as verdades. Podemos afirmar que os candidatos, em uma campanha eleitoral, mais especificamente em um debate, inscritos em nosso momento social e histórico, enunciam considerando que a fala pública é um falar verdadeiro, como vimos com Courtine e Piovezani (2015). O que importa, para eles, não é, de fato, dizer a verdade, mas fazer parecer uma verdade, trazer a impressão de uma verdade, já que vivemos em um tempo de controle e vigilância, isto é, os candidatos estão a todo tempo sendo vigiados e controlados pela mídia e pelo olhar do eleitor. No entanto, devemos recordar aqui que os sujeitos são interpelados por uma ideologia, que Foucault (2013 [1973]) desconsidera, e, ao mesmo tempo, subjetivados por um inconsciente e que, portanto, não podem controlar o que dizem e muito menos os efeitos de seu dizer, já que cada um é afetado diferentemente.

Ainda para tratarmos do conceito de verdade, consideramos relevante trazer à discussão o trabalho desenvolvido por Badiou (1994) em Para uma nova teoria do sujeito. O autor propõe, nesta obra, uma nova forma de subjetividade, ao mesmo tempo em que traz reflexões sobre o conceito de verdade (BADIOU, 1994). Importa-nos destacar deste trabalho, a forma como o autor propõe o conceito de verdade e suas reflexões acerca do assunto, de modo a trazer contribuições para nossa pesquisa.

Badiou (1994) define sujeito como sendo tão raro quanto as verdades. Sendo assim, para que seja possível falar de sujeito, é necessário partir de uma teoria da verdade, uma vez que “um sujeito não é outra coisa senão um ponto de verdade; ou a dimensão puramente local do processo de uma verdade” (BADIOU, 1994, p. 44).

Se Foucault relaciona verdade e poder, Badiou relaciona e distingue verdade e saber. Sendo assim, é fundamental destacar esta distinção feita pelo autor. Para ele, a verdade é, antes de tudo, uma novidade, enquanto o saber é o que é transmitido, o que é repetido. Já que a verdade é uma novidade, é preciso pensá-la não como um juízo, mas sim como sendo um processo real.

Badiou (1994) afirma que um sujeito de uma verdade supõe o que é indiscernível, ou seja, termo que não pode ser diferenciado de outro por nenhum efeito de linguagem. Um sujeito é o que some no meio de dois indiscerníveis, não abolindo o acaso, mas sim o faz como verificação do axioma que dá origem a ele. “Fragmento de acaso, o sujeito abole

a diferença nula entre dois termos que nada distingue. O sujeito de uma verdade é propriamente in-diferente” (BADIOU, 1994, p. 46). Podemos dizer, que este sujeito de que fala Badiou, é o sujeito do inconsciente.

Este sujeito in-diferente produz um ato, que é o ato local de uma verdade, ou seja, é uma escolha entre dois indiscerníveis, sendo, portanto, finito. Há que se destacar, que a verdade é infinita. No entanto, o ato local da verdade, o sujeito desta verdade é considerado finito. Assim, pode-se compreender, em Badiou, uma proposta de leitura filosófica do funcionamento do inconsciente. E o que nos interessa neste trabalho, como analistas do discurso, é a observação da verdade em relação à irrupção do inconsciente.

O processo de uma verdade começa com um evento indecidível, encontrando seu ato em um sujeito finito em confronto ao indiscernível. Este ato, que Badiou traz como o lugar onde surge a verdade, podemos dizer que tem relação com o ato falho, de acordo com o Psicanálise lacaniana (LACAN, 1998 [1966]). Este percurso segue, circunscrevendo seu caso por sucessivas escolhas. Assim, se uma verdade é suposta como finita, acabada, ela é considerada genérica. “Indiscernível em seu ato, ou como sujeito, uma verdade é genérica em seu resultado, ou em seu ser.” (BADIOU, 1994, p. 47).

É preciso ressaltar que não há a possibilidade de uma total antecipação, isto é, sempre existe um ponto real que resiste a essa força. Este real é o que será chamado de inominável, por Badiou. “É aquilo que, na situação, nunca tem nome aos olhos da verdade” (BADIOU, 1994, p. 49), que permanece impossível de ser forçado, fixando seu limite na potência da verdade. “O inominável é alguma coisa como o real indizível de tudo o que uma verdade autoriza a dizer” (BADIOU, 1994, p. 49).

Badiou (1994) mostra como a Filosofia e a Psicanálise possuem aproximações e conflitos em relação à verdade, pensando em como a verdade toca o real. Assim, declara que o ponto em comum entre a Filosofia contemporânea e a Psicanálise é o fato de que elas não entendem a verdade como uma correspondência entre o pensamento e a coisa. “Para Heidegger, a verdade é desvelamento. Para Althusser, ela é uma produção regrada.” Para Badiou, a verdade consiste em “um processo, aberto por um evento, que constrói um conjunto infinito genérico. Para Lacan, ela é a deposição de uma palavra no Outro”. Nesta medida, “a verdade é outra coisa que não uma relação entre pensamento e objeto” (BADIOU, 1994, p. 59).

Existe, entre o pensamento e o real, um espaço vazio. Portanto, a verdade surge como um efeito de um esvaziamento, como efeito de uma perda que ocorre nesse processo de separação. Para Badiou, a verdade tem início em um evento, que é sempre abolido, em que nunca terá um conhecimento, isto é, o evento é que causa a verdade. Já para Lacan, o Outro é que faz surgir a verdade, como uma brecha no saber (BADIOU, 1994).

“A verdade é o véu lançado sobre a impossibilidade de dizê-la toda. Ela é ao mesmo tempo o que só se pode semidizer e o que dissimula essa dura impotência quanto ao acesso ao dizer.” Desta forma, “a verdade é o esconderijo de sua própria fraqueza” (BADIOU, 1994, p. 65). Badiou destaca que se não se diz toda uma verdade, é porque todos os seus elementos não se deixam dizer. Não se pode estabelecer uma estratégia para reconhecer todos os componentes de uma verdade. A verdade é um subconjunto, que não pode ser totalizado, é indistinto, não sendo identificável no saber, pois não há traços comuns aos seus componentes (BADIOU, 1994).

Vale destacar que Badiou aponta que uma verdade não pode dizer quase nada. Contudo, o que ocorre “sob condição que ela terá sido existe um forçamento em que quase tudo se pode enunciar. Assim, uma verdade trabalha na retroação de um quase-nada e na antecipação de um quase-tudo” (BADIOU, 1994, p. 68). Desta forma, uma verdade não pode ser totalmente dita, mas é capaz de forçar saberes (BADIOU, 1994, p. 69). Badiou destaca que sempre há um ponto em que algo tropeça, um real da verdade (BADIOU, 1994).

É importante observar ainda, para nosso trabalho, como a Psicanálise compreende o conceito de verdade. Antes de tudo, é essencial destacar que Lacan (2008 [1968-1969]) entende que o sujeito só existe ao dizer, ao tomar a palavra. Sendo assim, ele é apenas um efeito desse dizer. Lacan (2008 [1968-1969]) afirma que a verdade diz Eu, definindo dois campos-limite. Em primeiro lugar, só é possível localizar o sujeito, porque ele é um efeito do significante, mesmo sem haver uma amarração no discurso sobre o que é dito, ou seja, é o campo do fato. Além disso, existe algo que diz Eu, e é isso que vai interessar a Lacan. O autor ressalta que “a verdade diz Eu, mas a recíproca não é verdadeira: nem tudo que diz Eu é a verdade” (LACAN, 2008 [1968- 1969], p. 69). Esta verdade que diz Eu só emerge entre as brechas no discurso. É nos furos, nos lapsos, nos sonhos que a verdade vai se mostrar.

No texto A coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psicanálise (1998 [1966]), Lacan relaciona a fala à verdade e traz alguns apontamentos relevantes em relação a isso. O autor questiona sobre onde se poderia encontrar a verdade e conta que, de acordo com Freud, a verdade fala. E fala de si mesma: “Sou para vós, portanto, o enigma daquela que se esquiva tão logo aparece (...) vou ensinar-vos por que sinal reconhecer-me. Eu, a verdade, falo” (LACAN, 1998 [1966], p. 410). E continua: “Quer fujais de mim no embuste, quer penseis apanhar-me no erro, junto-me a vós no equívoco contra o qual não tendes refúgio. Ali onde a fala mais cautelosa exibe um ligeiro tropeço, é para sua perfídia que ela falta”, “seus atos falhos são os mais bem sucedidos e que seu fracasso premia seu mais secreto anseio” (LACAN, 1998 [1966], p. 411). Assim, Lacan afirma que a verdade se mostra neste ligeiro tropeço na fala, no equívoco que se manifesta na linguagem. Isto confirma o que vimos anteriormente com Mariani e Magalhães (2013), que no momento em que há a falha e a verdade aparece, existe um sujeito feliz que se manifesta.

Podemos dizer que quando a verdade se mostra nestas falhas, equívocos, chistes,