3 PUNIÇÃO OBJETIVA: O CRIME
3.2 A VERDADE PELO COMPLEXO CIENTÍFICO-JURÍDICO: ATINGIR A ALMA
Como visto, uma grande mudança na economia punitiva se deu a partir da segunda metade do século XVIII. Neste século, segundo Foucault (2002, p. 107-108): foi inventado toda uma série de tecno- logias científicas e industriais; foi esquematizado e teorizado certo número de formas políticas de governo; implantou-se, desenvolveu-se e aperfeiçoou-se aparelhos de Estado e todas as instituições que são ligadas a tais aparelhos, por fim, foi elaborado uma nova economia dos mecanismos de poder, um conjunto de procedimentos e, ao mesmo tempo, de análises, que permitem majorar os efeitos do poder, diminuir o custo do exercício do poder e integrar o exercício do poder aos mecanismos da produção.
Lynn Hunt também identifica no século XVIII mudanças profundas nas sociedades, resumindo os elementos essenciais que caracterizaram as sociedades e as ideias nos finais do Antigo Regime europeu. Segundo o autor, autonomia e a empatia não se materializaram a partir do “ar rarefeito” do século XVIII. Elas tinham raízes profundas. Durante séculos, os indivíduos tinham começado a se afastar das teias da comunidade, tornando-se agentes cada vez mais independentes tanto legal como psicologicamente, processo com um avanço acentuado na segunda metade do século XVIII. Neste período, a autoridade absoluta dos pais sobre os filhos foi questionada. O público começou a assistir os espetáculos teatrais ou a escutar a música em silêncio. Os retratos e as pinturas de gênero desafiaram o predomínio das grandes telas mitológicas e históricas da pintura acadêmica. Os romances e os jornais proliferaram, tornando as histórias das vidas comuns, e mesmo os bastidores da Corte, acessíveis a um amplo público. A tortura legalmente autorizada para obter confissões de culpa ou nomes de cúmplices, tornou-se uma questão a ser discutida, sobretudo, depois que Montesquieu atacou a prática no seu “Espírito das Leis”, de 1748. Essas mudanças nas reações aos corpos e individualidades das outras pessoas forneceram um suporte crítico para o novo fundamento secular da autoridade política. Diz o autor que, embora Jefferson escrevesse que o “seu Criador” tinha dotado os homens de direitos, o papel do Criador havia aí. O governo já não dependia de Deus, muito menos da
interpretação da vontade de Deus apresentada por uma igreja. “Governos são instituídos entre os homens para assegurar esses Direitos”, e eles derivam o seu poder “do Consentimento dos Governados”, disse Jefferson (apud HUNT, 2009, p. 28-30).
Soma-se a estes elementos a ampliação da cultura escrita, o desenvolvimento das cidades e o crescimento da população urbana. E este século também teria encontrado certo número de meios, segundo os quais o poder teria tornado-se contínuo, se exercendo através dos mecanismos permanentes de vigilância e controle. Majorar os efeitos do poder quer dizer que esses mecanismos de poder podiam se exercer sem lacunas e penetrar o corpo social em sua totalidade. Soube torná-los, em princípio, inevitáveis, ou seja, fazer deles uma espécie de lei absolutamente fatal e necessária, pesando da mesma maneira sobre todo mundo. Portanto, majoração dos efeitos de poder é também redução do custo do poder: o século XVIII aperfeiçoou toda uma série de mecanismos graças aos quais o poder ia se exercer com despesas financeiras e econômicas menores do que na monarquia absoluta. Diminuíram seu custo, reduziram as possibilidades de resistência, de descontentamento, de revolta, que o poder monárquico podia suscitar.
Segundo Foucault, neste século diminuiu-se a amplitude, o nível, a superfície coberta por todas as condutas de desobediência e de ilegalismo que o poder monárquico e feudal antes era obrigado a tolerar. Para essa majoração dos efeitos de poder, essa redução do custo econômico e político do poder, o século XVIII inventou mecanismos de poder que podiam se tramar diretamente com base nos processos de produção, acompanhá-los ao longo de todo o seu desenvolvimento e se efetuar como uma espécie de controle e de majoração permanente dessa produção (FOUCAULT, 2002, p. 109).
Dessa forma, nesse novo conjunto tecnológico do poder, a penalidade e a organização do poder de punir, seguiu três características. Primeiro, no fim do século XVIII, o poder de punir se apoiou numa rede de vigilância, desaparecendo a justiça lacunar em favor de um aparelho de justiça, de polícia, de vigilância e de punição, que procurou não deixar mais nenhuma descontinuidade no exercício do poder de punir. Segundo, a nova tecnologia do poder de punir tentou ligar o crime e sua punição, de uma forma necessária e evidente, através de procedimentos, como a publicidade dos debates e a regra da convicção íntima. Terceiro, a punição deveria ser exercida de tal modo que se tentaria punir exatamente tanto quanto fosse necessário para que o crime não recomeçasse, e nada mais que isso (FOUCAULT, 2002, p. 110). Cria-se
uma espécie de sistemas de registro, que abrange das fábricas as prisões, sobretudo, ligando-as:
Trata-se de qualquer maneira de fazer da prisão um local de constituição de um saber que deve servir de princípio regulador para o exercício da prática penitenciária. A prisão não tem só que conhecer a decisão dos juízes e aplicá-la em função dos regulamentos estabelecidos: ela tem que coletar permanentemente do detento um saber que permitirá transformar a medida penal em uma operação penitenciária; que fará da pena tornada necessária pela infração uma modificação do detento, útil para a sociedade (FOUCAULT, 1987, p. 210).
A economia da medida se contrapôs a economia anterior. O excesso, a grande economia da despesa ritual e magnífica do poder de punir, do desequilíbrio, desapareceu. Buscou-se encontrar uma certa unidade de medida entre o crime e o castigo, que permitiu ajustar a punição de tal forma que pareceu justo o suficiente para punir o crime e impedir que ele recomeçasse (FOUCAULT, 2002, p. 110). A unidade de medida que a nova tecnologia do poder de punir foi obrigada a procurar ficou conhecida como “interesse do crime” ou “razão do crime”. Esta razão de ser do crime, o princípio do seu aparecimento, da sua repetição, da sua imitação pelos outros, da sua maior frequência, seria uma espécie de suporte do crime real, tal como foi cometido, e o suporte possível de outros crimes análogos nos outros. (FOUCAULT, 2002, p. 110). O interesse do crime como razão do crime é o que a teoria penal e a nova legislação do fim século XVIII definiram como elemento comum ao crime e à punição. Um sistema calculado, no qual a punição não teria por objeto nem repetiria em si o próprio crime, mas teria por objeto simplesmente o interesse do crime, fazendo valer um interesse semelhante, análogo, um pouco mais forte que o interesse que serviu de suporte ao próprio crime. “É isso, esse elemento interesse-razão do crime, que é o novo princípio de economia do poder de punir e que substitui o princípio da atrocidade “(FOUCAULT, 2002, p. 111).
Com isso uma série de questões foi levantada. Não mais as questões das circunstâncias do crime ou sobre a intenção do criminoso, não é o entorno do crime nem a intenção do sujeito que interessaria, mas sim a questão “da mecânica e do jogo dos interesses, que puderam tornar criminoso aquele que é agora acusado de ter cometido um crime”
(FOUCAULT, 2002, p. 111). Buscavam a racionalidade imanente à conduta criminal, sua inteligibilidade natural. Foucault (2002, p. 111) sintetiza na seguinte questão: “qual é a inteligibilidade natural que suporta o crime e que vai permitir determinar a punição exatamente adequada”? O crime já não seria o que violaria as leis civis, religiosas ou da própria natureza. “O crime é agora o que tem uma natureza (...) e o criminoso é um ser natural caracterizado, no próprio nível da sua natureza, por sua criminalidade” (FOUCAULT, 2002, p. 111-112). A partir daí, esta nova economia do poder, exigiu um saber absolutamente novo, um saber naturalista da criminalidade. Seria preciso fazer a história natural do criminoso como criminoso.
Portanto, o fim do século XVIII foi marcado pelo aparecimento do “monstro moral”. Até então, como visto, a monstruosidade dos sujeitos era entendida como manifestação natural de uma espécie de “contra-natureza”, que trazia em si um indício de criminalidade (FOUCAULT, 2002, p. 101). O indivíduo monstruoso era referido à uma criminalidade possível. A mudança teria se dado pelo surgimento da suspeita sistemática de monstruosidade no fundo de qualquer criminalidade: “todo criminoso poderia muito bem ser, afinal de contas um monstro, do mesmo modo que outrora o monstro tinha uma boa probabilidade de ser criminoso” (FOUCAULT, 2002, p. 101).
A nova economia do poder de punir se formulou numa nova teoria da punição e da criminalidade, assim teria surgido à questão da natureza eventualmente patológica da criminalidade. Há um domínio, ainda confuso, do patológico, da doença, da aberração natural, da desordem, do espírito e do corpo (FOUCAULT, 2002, p. 113). No crime era visto um indicador de anomalias. Havia uma tradição, encontrada desde o século XVI, que afirmava que:
é a frequência da criminalidade que representa uma doença, mas a doença da coletividade, a doença do corpo social. Bem diferente é o tema, no entanto análogo na superfície, que vêem despontar no fim do século XVIII, no qual não é o crime que é a doença do corpo social, mas sim o criminoso que, como criminoso, poderia ser de fato doente (FOUCAULT, 2002, p. 114).
Dessa forma, vai se organizar toda uma “patologia da conduta criminosa”. Em uma “dialética iluminista”, passam assim a ficarem ligadas as questões do ilegal, anormal, criminoso e do patológico.
Daí em diante – em virtude dos princípios de funcionamento do poder penal, em virtude não de uma nova teoria do direito, de uma nova ideologia, mas das regras intrínsecas da economia do poder de punir -, só se punirá, em nome da lei, é claro, em função da evidência do crime manifes- tada a todos, mas se punirão indivíduos que serão julgados como criminosos, porém, avaliados, apreciados, medidos, em termos de normal e de patológico (FOUCAULT, 2002, p. 114).
Esta economia da medida, identificada no poder de punir, fez parte de um processo social mais amplo, com raízes na Idade Moderna, mas que se intensificou a partir do século XVIII. Zygmunt Bauman assevera que a ordem e o caos são gêmeos de um mesmo proceso moderno, que gerou também a racionalização (entendido como cientificismo21) e o objetivismo, assim como seus opostos. Segundo Bauman, uma vez que a soberania do estado moderno seria o poder de definir e de fazer as definições pegarem, tudo que se autodefinesse ou
21 Segundo WEHLING (1976, p. 44), o cientificismo foi a transformação da ciência de método de abordagem em visão de mundo. Este conjunto cultural assumiu como principal tarefa do conhecimento a descoberta das regularidades e o estabelecimento de leis que interpretem tais regularidades. Fundamentou-se em cinco idéias: 1) a concepção mecanicista do real, afirmando a existência de regularidades na própria natureza humana, nesta concepção a unidade do real está submetida a um plano físico natural ou genético. Existiria um mesmo plano físico, biológico, social e antropológico (étnico, ou na linguagem da época, racial), que abrangeria todas as relações sociais possíveis; 2) a indução, isto é, a possibilidade de através da observação e da experiência podermos retirar alguns indícios da natureza. O objetivo é encontrar as leis que regem a formação da sociedade, um absolutismo epistemológico, “as mesmas leis ou suas variantes, explica de igual modo ou analogamente os diversos conteúdos das diferentes ciências” (WEHLING, 1976, p. 51). O que quer dizer a afirmação de leis deterministas de acordo com a física newtoniana. Decorre disso o reducionismo metodológico, a possibilidade em transpor determinadas leis e conjuntos conceituais de uma ciência para outra; 3) os indícios da natureza que reunidos a outros, numa crescente escala de generalização, nos conduziriam a leis. Assim, quando o cientista chegasse à lei, teria a sintonia cabal entre a sua percepção, o seu método científico, a sua construção intelectual e o real, que busca reconstruir; 4) a crença na existência de conceitos abrangentes, transcientíficos, aplicáveis de maneira semelhante (não idêntica) às ciências físicas, biológicas e sociais. Isto, ao nível da explicação científica. Tal identidade corresponderia à grande unidade do real, cujas múltiplas facetas somente seriam compreensíveis à luz de diferentes abordagens, mas todas possuindo uma base epistemológica comum; 5) a diretividade do processo, “o processo (...) assim descoberto, encontrado através de leis, que por sua vez reproduziriam aquela unidade do real, era uma teleologia (...) uma macroteleologia” (WEHLING, 1991, p. 269). No Brasil essas idéias entraram, não sob a forma difusa de cientificismo, mas sob a formula doutrinária, frequentemente sectária, do positivismo e do evolucionismo (WEHLING, 1991, p. 268). Sobre esta concepção científica ver: WEHLING, 1976 e 1991.
que escapasse à definição assistida pelo poder seria subversivo (BAUMAN, 1999. p. 16). Uma anomalia, um desafio. O horror à mistura e a ambiguidade, refletiria a obsessão de separar. Como estratégias dessa prática moderna estão as normatizações: taxonomia, a classificação, o inventário, o catálogo, a estatística. Uma necessidade incrustada em sua formação, de ordenar, dividir, classificar, localizar. Os refugos a esta ordenação, seriam misturas desautorizadas de categorias que não deveriam ser misturadas, pois desafiariam a classificação e a arrumação.
O iluminismo é o medo mítico tornado radical (...). Absolutamente nada pode ficar de fora porque a mera idéia da exterioridade é a própria fonte do medo, [o que os homens] querem aprender da natureza é como utilizá-la para dominar completamente a ela e aos outros homens. Este é o único objetivo (BAUMAN, 1999. p. 25).
Em suma, com bases concretas nas transformações sócio- estruturais e intelectuais começados no século XVII, a ciência e a tecnologia são frutos desta racionalidade clássica, e esta, duplamente, como projeto cultural e como desenvolvimento da sociedade industrial, se consumou como racionalização e objetivismo. Do horror a mistura e a ambiguidade surge, advindo das ciências naturais, que usavam o método para “compreender” a natureza, a prática de ordenar e classificar. O Estado incumbiu-se de definir e de fazer com que as definições, normatizações, fossem aderidas ao cotidiano, tendo as instituições um grande valor, e à escapar esta ordem surge o subversivo, que precisa ser organizado. O diferente, o desordenado, o não- classificado, o “outro” (TODOROV, 1996 e 1998), deve ser enquadrado na racionalidade científica, que seria objetiva. Segundo Georges Canguilhem (1978, p. 210), “uma norma se propõe como um modo possível de unificar um diverso, de reabsorver uma diferença, de resolver uma desavença (...). A regra só começa a ser regra fazendo regra e essa função de correção surge da própria infração”. O modo de absorção ou dissolução das diferenças e contradições nas sociedades industriais, foi cada vez mais a normalização técnica, pela qual se pretendia racionalizar a produção e ao mesmo tempo racionalizar a vida social e o comportamento dos indivíduos (BAUMAM, 1999. p. 37-39).