• Nenhum resultado encontrado

Vimos que a vergonha foi o principal elemento indicado pelos/as entrevistados/as como razão para que os/as estudantes não perguntassem quando tinham dúvidas. A manifestação de vergonha expressa a necessidade que os/as jovens têm de serem aceitos/as pelo grupo. Nesta fase da vida esta é uma necessidade muito presente. Eles/as buscam usar roupas, acessórios e equipamentos eletrônicos compatíveis com o que o grupo utiliza. Comumente se ouve os/as adolescentes argumentarem junto a seus pais e mães com o intuito de conseguir um celular, uma roupa ou um calçado novo o fato de que todos/as os/as seus/suas amigos/as têm aquele objeto e ele/a não quer e não pode ser diferente. Neste caso, ser diferentes, na concepção dos jovens, os diminui e os transforma em alvos de piadas e brincadeiras diante do seu grupo de amigos/as.

Para assegurar a aceitação pelo grupo os/as jovens se submetem a diversas situações que nem sempre são desejadas por eles/as. Dentre essas

situações encontra-se o início da vida sexualmente ativa, a participação em atos de bullying, a ocultação de suas dúvidas escolares e pessoais e muitas vezes a negação do prazer e desejo de estudar. Nesta pesquisa, a necessidade de aceitação ficou evidente na fala dos/as estudantes quando eles/as afirmavam que não perguntavam por receio da reação dos/as colegas. Era a busca pela aceitação, pelo pertencimento, a busca por uma identidade.

Silva (2011, p. 75) argumenta que ao afirmar uma identidade significa negar todas as outras, por exemplo, “ser brasileiro” significa “não ser argentino”, “não ser italiano”, etc. Ser ou pertencer a um grupo significa não ser e nem pertencer ao outro. Dizer que “ela não é brasileira” significa dizer “que ela não é o que eu sou” (SILVA, 2011, p.75). Identidade e diferença se autodefinem. De forma análoga, ao dizer “sou homem” significa dizer que “não sou mulher”, “não sou gay”, etc. Silva (2011, p. 82) argumenta que a identidade e a diferença servem também para dividir e classificar “se traduzem, assim, em declarações sobre quem pertence e sobre quem não pertence, sobre quem está incluído e quem está excluído”. Torres (2003) argumenta que a identidade é uma construção social e que tudo o que está a sua volta influencia nesta construção, ou seja, o contexto tem papel fundamental nesta construção.

Como a escola faz parte do contexto, as relações estabelecidas ali contribuem para esta construção. Silva (2004, p. 79) argumenta que o currículo formal e oculto contribuem para que as identidades se constituam. O autor afirma que quando “consideram também as dimensões do gênero, da sexualidade ou da raça, aprende-se, no currículo oculto, como ser homem ou mulher, como ser heterossexual ou homossexual, bem como a identificação com uma determinada raça ou etnia”. A convivência com os/as colegas contribui para esta forma de se perceber diante da sociedade.

Os/as estudantes afirmaram que em alguns casos os/as colegas, zombavam e riam das perguntas feitas pelos/as colegas. Eles/as entendiam que isso era um componente importante na vergonha que os/as discentes sentiam em se expor. A maioria dos/as entrevistados/as disse que esta era uma prática recorrente no cotidiano da sala de aula. Porém uma parcela significativa afirmou que isso nunca ocorreu com eles/as. Afirmar que os colegas nunca “tiraram sarro” das perguntas feitas por eles/as seria uma forma de dizer que não faziam perguntas

inoportunas. Seria uma tentativa de manter sua imagem intocada uma vez que os/as colegas não viram em seu comportamento motivo para zombaria e chacota.

O diálogo abaixo evidencia este tipo de reação dos/as estudantes.

A: E como você acha que as pessoas que perguntaram se sentem quando alguém tira sarro delas?

B: Elas se sentem magoadas.

A: Já tiraram sarro de alguma pergunta que você fez?

B: Eu não faço pergunta então não tem... eu não faço pergunta. (Bianca, 5ª série)

O comportamento dos/as estudantes, associado às afirmações nas entrevistas, permite concluir que eles/as não perguntam e, por isso, não dão motivos para que os/as colegas zombem deles/as. Esta possibilidade fica evidente no relato de Bianca, aluna da 5ª série. Ela percebe que as brincadeiras dos colegas magoam e ela ainda não foi afetada por essas brincadeiras devido à postura que toma no cotidiano da sala de aula. Durante todo o período que fiz observação na 5ª série não me lembro de ter ouvido a voz de Bianca. Ela se limitava a conversar com algumas colegas em voz baixa, fato que impedia que eu ouvisse o que elas falavam e conhecesse os assuntos por elas abordados durante as aulas.

É possível pensar a postura de Bianca como uma estratégia de defesa, de autoproteção. Por estar ciente de como os/as colegas reagiam diante dos questionamentos dos/as discentes e por pensar que estas atitudes magoavam, ela se calava para não ser atingida, para não se expor a situações desconfortáveis e a sentimentos desagradáveis. A autoproteção pode impedir as pessoas de viverem experiências importantes para suas vidas. O medo de errar e a necessidade de aceitação, quando exagerados se transformam em impeditivos para se viver momentos de crescimento e de prazer. O erro faz parte do processo de formação do ser humano. Beaudoin e Taylor (2006, p. 53) argumentam que “as crianças, assim como os adultos, precisam de apoio, tempo, preparação e espaço para cometer erros em sua jornada rumo à transformação.” Ao que tudo indica esta preparação não esta ocorrendo de forma satisfatória. Bianca, em sua fala, evidencia o medo do julgamento dos outros sobre seus possíveis erros. O medo de errar a impede de fazer, limita suas ações.

Alguns/as estudantes afirmaram que a zombaria é mais comum entre os meninos. É o que se evidencia na fala de Willian, aluno da 8ª série. Ele afirma que não faz piada com ninguém, mas percebe que os/as colegas fazem e que estas atitudes fazem mal às vítimas de chacotas. A última frase do trecho da entrevista com Willian, mencionado a seguir, denota outro ponto importante a se ressaltar em sua fala. Esta frase mostra que algumas vezes os/as estudantes dissimulam sua insatisfação com as brincadeiras dos/as colegas. Esta atitude pode significar uma violência contra si próprio, pois os/as estudantes negam ter se magoado, provavelmente com receio de não serem aceitos/as pelo grupo caso protestem e manifestem sua insatisfação.

A: Os colegas fazem piada com as perguntas? B: Fazem... dependendo da pergunta fazem. A: Quem mais faz isso?

B: Os meninos.

A: Por que você acha que eles fazem isso?

B: Bom eu não faço piada com ninguém ...porque eu também posso ter dúvida... tipo eles fazem piada de alguma pergunta que seja fácil entendeu... porque pra eles é tudo normal mas agora pra você que não entendeu ...eles acham que é fácil... fácil demais e daí eles ficam tirando sarro.

A: Como será que a vítima se sente?

B; Ah... tipo na hora ela leva na brincadeira mas depois ela não se sente bem. (Willian, 8ª série)

Outro ponto que vale ressaltar é o fato dos/as estudantes perceberem as atitudes desagradáveis nos/as colegas, mas se isentarem de participação nas brincadeiras e zombarias. Na fala do Braulin, aluno da 5ª série, esta negação fica evidenciada. O aluno começa a falar que “tira sarro” dos/as colegas, mas ao perceber muda o rumo da conversa e põe a culpa exclusivamente nos/as colegas, se excluindo da ação.

A: Em algum momento você percebeu que alguém fez um pergunta e o outro tirou sarro ... acontece isso?

B: Acontece...também ontem... o Ivo as veis ele fais pergunta... ele ::: a professora... todo mundo já tá sabendo... coisa facinha... coisa nada a vê assim ele pega e pergunta... mas professora esse daqui é diferente desse número que igual a esse daqui... bem nada a vê as perguntas daí eu tira... daí os piá tira sarro daí. (Braulin, 5ª série)

Na concepção dos/as estudantes este tipo de atitude dos/as colegas interfere no comportamento de alunos e alunas. Eles/as consideram que as

brincadeiras dos/as colegas magoam e podem fazer com que alguns/mas estudantes se sintam intimidados/as e tenham vergonha de expor suas fraquezas e limitações em sala de aula.

A: Será que isso colabora pra deixar os colegas tímidos pra deixar de perguntar?

B: Eu acho que sim porque, por exemplo, se alguém faz uma pergunta e eles acham que é boba eles começam a tirá sarro e o outro que tá pensando naquela pergunta ... ele não vai fazê aquela pergunta porque ele sabe que aquela pergunta que ele vai fazê não é muito batente com o assunto...ele sabe que os colegas vão começá a tirá sarro... por isso ele não vai fazê aquela pergunta ... por isso o que os colegas fazem pode fazê ele ficá tímido. (Stephanie, 5ª série)

A relação com o grupo é fundamental para que os/as jovens se sintam integrados/as ao ambiente escolar. Na concepção dos/as estudantes, a reação dos/as colegas interfere na postura de alunos e alunas em sala de aula. Tábata, aluna da 6ª série, reforça o fato dos meninos serem os principais autores das brincadeiras com os/as colegas. Pela fala dela, percebe-se que as brincadeiras atingem meninos e meninas, porém são feitas principalmente por meninos.

A: Você pergunta as dúvidas?

B: Não... eu tenho vergonha porque quando a gente pergunta os piá tiram sarro.

A: A professora costuma falar alguma coisa?

B: Ah ela fala pra eles pararem que... a gente não nasceu sabendo. (Tábata, 6ª série)

A: como a vítima das piadinhas se sente?

B: pro meu lado ... eu me sentia ruim porque eu falava ... tipo... sei lá as pessoas não:::botam tanta fé em você... até pra fazer um trabalho ... oh::: você fica com a parte de escrever ... deixa que eu falo ... ou então você segura o holofote pra eu bater ... é tipo... você é o ajudante de palco... você nunca tá... tá no meio lá... e isso é muito chato porque::: parece que joga a tua autoestima lá embaixo né ... acho que tudo isso pode ser... tudo pode ser mudado se a pessoa decidir a não ficar tirando com a cara dos outros. (Bob, 8ª série)

A fala de Bob evidencia o quanto um/a estudante que se sente isolado/a, preterido/a pode se sentir magoado/a, diminuído/a. Este aluno relatou ter sido vítima de bullying quando era menor e por este motivo, tenta não repetir com os/as colegas o que fizeram com ele. Outros/as estudantes também demonstraram perceber que as vítimas das supostas brincadeiras sentiam-se reprimidas e magoadas. Porém, raramente assumiam terem sido vítimas de ações vexatórias.

Os parágrafos acima evidenciam que a vergonha, as brincadeiras dos/as colegas e a necessidade de pertencer, de serem aceitos/as e respeitados/as pelo grupo atuam como agentes definidores do comportamento de meninos e meninas. Os/as discentes percebem que estes fatores interferem na postura sua e dos/as colegas durante as aulas. Quando perguntados/as eles/as falavam que os/as professores/as coibiam as brincadeiras. Entretanto este fato só ocorria quando perguntados/as.