CAPÍTULO II – SUJEITO VOLITIVO
3.1 Ética
3.1.2 A vida boa é vivida sub specie aeternitatis
A questão da eternidade distinta da idéia de infinito pode ser localizada no séc. XVI através da análise de Spinoza em uma de suas correspondências intitulada Carta
sobre o infinito52. Duas concepções de infinito podem ser extraídas da explicação
spinoziana: a primeira refere-se ao infinito que pode ser dividido em partes sem contradição, e a segunda que diz respeito àquele que, ao contrário do primeiro, não pode ser dividido em partes, posto que não tem partes. Assim, a Carta Sobre o Infinito propõe duas concepções de infinito: uma como sucessão temporal e a outra como atemporalidade.
Evocando o Tractatus teologico-politicus de Spinoza, Moore propõe como título
da primeira obra de Wittgenstein Tractatus logico-philosophicus53. A herança spinoziana para a primeira obra de Wittgenstein também pode ser observada na diferenciação entre duração temporal infinita e atemporalidade. Os argumentos tractarianos a respeito da visão de mundo sob o modo da eternidade serão desenvolvidos a partir da perspectiva atemporal.
Schopenhauer é a principal fonte para a visão de mundo sub specie aeterni desenvolvida no Tractatus. O autor de O Mundo Como Vontade e Representação identifica a forma da vida com o tempo presente possibilitando a visão da existência alheia à duração temporal infinita e a visão da essência de toda a realidade possível que seria a vontade identificada à coisa em si mesma. Ver o mundo sob o modo da
eternidade, no Tractatus, consistirá, então, em ver o mundo fora da temporalidade e da
contingência. Assim, a eternidade é concebida como atemporalidade. Aqui, em uma perspectiva schopenhauriana, Wittgenstein concebe a realidade em sua essência sob a forma de um presente sem fim.
51 (DF, 1982, p.140)
52 “A questão do infinito sempre pareceu dificílima para todos, até mesmo inextricável, porque não
distinguiram entre aquilo que é infinito por sua natureza, ou pela força de sua definição, e aquilo que não tem fim, não pela força de sua essência, mas pela sua causa. E também porque não distinguiram entre aquilo que é dito infinito porque não tem fim, e aquilo cujas partes, embora conheçamos o máximo e o mínimo, não podem ser explicadas ou representadas apenas por um número.” (SPINOZA, Benedictus de.Pensamentos metafisicos ; Tratado da correção do intelecto ; Etica ; Tratado politico ; Correspondencia. [tradução de Marilena Chauí] São Paulo: Abril Cultural, 1989, p.141)
No Tractatus, a visão atemporal é o sentimento místico de ver o mundo como
totalidade limitada (TLP, 6.45). Como também podemos observar na seguinte passagem, “Toda coisa condiciona o inteiro espaço lógico” (DF, 1982, p.141). Dessa maneira, ver o objeto sob o modo da eternidade significa ver este objeto em todas as suas possibilidades lógicas. Assim, a visão de mundo sub specie aeterni é identificada com o sentimento místico do mundo. No místico, a forma geral da proposição permite ter uma idéia de limite de toda a realidade possível. O sentimento místico vê esta totalidade limitada em cada objeto.
“[...] Que se viva no eterno e não no tempo [...]” (DF, 1982, p.127). No mundo existem apenas fatos, e os fatos, como afirma o filósofo austríaco “(...) fazem todos parte apenas do problema e não da solução” (TLP,6.4321). Viver no eterno faz com que a vida deixe de ser problemática, isto porque, ao viver sob o modo da eternidade, o indivíduo passa a considerar os fatos do mundo de maneira equânime.
A felicidade está relacionada à visão de mundo sub specie aeterni. Essa consiste em fazer com que o mundo, enquanto subsistir de estados de coisas, decresça como um todo. Ao decrescer, o mundo deixa de ser problemático e torna-se indiferente para a ética. Ser feliz parte deste decréscimo do mundo. O indivíduo feliz não teme, independentemente daquilo que seja ou não o caso na realidade. Assim, a felicidade é identificada com a liberdade da vontade em relação ao mundo, que pode ser percebida através da perspectiva atemporal.
A solução do problema da existência consiste no desaparecimento desse problema (TLP, 6.521). Aqui o que deve ser compreendido como “problematização da existência” refere-se a uma preocupação em relação aos acontecimentos do mundo e à tentativa de intervir nessa série de acontecimentos. Não intervir, ou aceitar que não há causalidade entre vontade e mundo, torna feliz o indivíduo que já é livre, isto porque dele estará afastado qualquer tipo de temor com relação ao que possa ou não acontecer na ordem factual.
A vida ética é aquela que é indiferente aos acontecimentos do mundo. Como vemos nos Diários Secretos,“[...] As horas boas da vida devemos desfrutá-las com gratidão, como uma graça, e quanto ao resto, ser indiferentes no que diz respeito à vida [...]” (DS, 1991, p.71). Como vimos, temas como a ataraxia ou o estoicismo podem ser percebidos neste primeiro momento da filosofia de Wittgenstein. De acordo com Glock
(1998, p.143), no Tractatus, essa atitude estóica pode ser percebida, “[...] no resultado ético da capacidade mística de ver o mundo sub specie aeternitatis [...]”. Contudo, é importante destacar que com base nesse argumento não se pretende imputar a idéia de um conformismo no Tractatus, como vemos na seguinte passagem do Diário
Filosófico: “Somente renunciando a influenciar os acontecimentos do mundo, poderei
me tornar independente dele – e, em certo sentido poderei dominá-lo” (DF, 1982, p.126).
Sem temer e nem esperar por nenhuma graça ou infortúnio do destino, a felicidade é alcançada. O Tractatus propõe a dissolução do sofrimento na eternidade. A ética wittgensteiniana possibilita, através da visão de mundo sub specie aeterni, uma desmistificação daquilo que possa ou não ser o caso no mundo. A partir deste ponto, o sofrimento cessa e essa é a perspectiva de uma vida ética ou feliz. Aquela que sem temer nem esperar se coaduna ao destino e aceita os fatos do mundo.
Estar em acordo com o destino não deve levar em consideração um assunto como a morte, isto porque, como já observamos anteriormente, no Tractatus,“A morte não é um evento da vida. A morte não se vive” (TLP,6.43111). Considerando a morte como um não acontecimento, vemos a contraposição wittgensteiniana à possibilidade de viver em acordo com a idéia de uma vida após a morte. Como vimos no capítulo II, temer a morte significa viver em acordo com um não acontecimento, o que resulta na perspectiva de uma vida infeliz. O medo da morte se constitui, então, como uma dupla contradição, posto que, se intervir na ordem dos fatos é impossível ao sujeito volitivo, intervir na morte é ainda mais inviável tendo em vista a sua não inclusão na ordem dos acontecimentos vividos.
Para o filósofo austríaco, a existência temporal infinita não resolve nem diminui o problema da existência. Contudo, vive eternamente quem vive no presente. Assim, a vida vivida atemporalmente permite ao indivíduo não temer. No Tractatus, a perspectiva de uma vida ética, ou de uma vida feliz, é aquela que não pretende nenhum tipo de redenção em uma vida após a morte (infinita), e que, vivida no presente (eterna), realiza a ação boa em si mesma alheia à existência material e pueril.