3 A NEGRA PROFESSORA
3.1 Ditos de uma negra professora
3.1.10 A vida pessoal
Sobre minha vida pessoal, eu não gosto muito de festa de São João, mas era louca por carnaval. Quando solteira, saía de noite e chegava no dia seguinte. Ia para o arrastão da folia. Com um grupo de moças, dançava, namorava e por lá mesmo ficava. Sempre fui muito arredia com namoro devido ao contexto que já relatei. Depois de casada, meu marido ia para todos os lugares comigo, nunca foi de “embirrar” para não sair. Quando estava disposta,
saía de casa, mas o meu envolvimento com o trabalho foi diminuindo minha vontade por festa.
Fui provedora da casa. Meu marido assumiu algumas responsabilidades. Depois de um tempo, se descomprometeu com elas. Nossa relação se desmantelou porque ele foi infiel.
Era mais novo que eu, só tinha o curso primário. Na época que o conheci era jogador de futebol, porém não era de dizer palavrão. Era uma criatura bastante sociável e ultimamente trabalhava como pescador, tendo já atuado como autônomo. Antes de casar comigo, foi vendedor de gás, depois conseguiu comprar um táxi. Mas largou tudo aqui, pois colocou outra pessoa entre nós. Queria manter outra relação e também se relacionar comigo. Eu não concordei com isso, e assim ficamos estremecidos. Nunca chegamos a oficializar a separação. Vontade minha não faltou, mas ele não quis. No entanto, foi uma relação boa, enquanto durou. A diferença cultural não atrapalhou. Então, ele assumiu a outra relação, talvez porque a namorada tenha pressionado. Ela é de Cabedelo. Ele assim resolveu ser pescador e ficou morando por lá.
Com relação às minhas filhas, a mais velha é tão negra quanto eu, se não for um pouco mais. Ela foi estudar numa escola particular aqui em Campina Grande. Um dia, eu cheguei para buscá-la e ela estava “acuadinha” num canto da parede muito triste. Eu perguntei: -“por que você está chorando?” E ela: -“porque as meninas me expulsaram do recreio”. -“Expulsaram por quê?”, eu quis saber. Ela respondeu: -“não querem brincar comigo, porque sou negra”. Então, me dirigi à direção da escola e relatei o fato. Na ocasião, pedi que tomassem providências, mas infelizmente não acompanhei como a questão foi trabalhada. Não houve mais nenhum aborrecimento com relação a esse episódio.
Conversei com ela em casa e esclareci: -“realmente, você é negra, mas tem o seu valor. Você é negra porque tem mamãe negra e papai negro. Se acontecer novamente, vai responder como quiser”. E ela mencionou: -“é porque as meninas disseram que eu era negra de cabelo ruim”. Eu não disse o que ela deveria responder, mas não fiz como minha mãe, que me mandava ficar calada. Ela então se preocupou: “e se baterem em mim?” Eu respondi:
“você bate também”. Depois de alguns dias perguntei como estava na escola e ela respondeu que não a chamaram mais de negra, nem a expulsaram do recreio. Às vezes, quando não estava brincando, as colegas a chamavam para brincar. Construiu boas relações de amizades e alguns dos seus amigos são do tempo da infância.
A segunda filha é mais clara. Quando criança, era brava: qualquer aborrecimento reagia com tapas, murros e pontapés. Tinha problemas por ser gorda e não por causa de ser negra. Eu me lembro de um incidente no colégio particular. Certo dia, a galera da escola,
todos meninos, combinaram para colocar o pé para ela cair. Veio uma pessoa e avisou.
Então, ela já reagiu de mão fechada. Quando o primeiro menino apareceu, ela o acertou. Foi uma confusão! Meu marido queria brigar com ela, pelo seu comportamento, mas eu não deixei. E ainda tomei partido: -“deixa ela responder o que ela quiser, como quiser”. Não agi como minha mãe e mais uma vez avisei a coordenadora da escola.
Quando acontecem situações de rejeição entre as crianças, penso que há alguma influência da família, não adianta negar. São os pais em casa que ensinam os filhos a serem preconceituosos. O que facilitou o convívio foi a minha ascensão social e econômica. Diziam sobre minhas filhas: -“é filha da professora Severina das Neves, professora da universidade”. Parece que quando se muda de ‘status’, deixa-se de ser negro, passa-se a ser
‘inteligente’. Eu sou estudiosa, leio muito. Entretanto, a minha inteligência não é vista como resultado disso, mas por causa da minha ascensão. Por isso eu rebato que sou muito estudiosa e inteligente também. Será que antes eu era burra? Como a outra gritou: -“nota de negro não vale”. Vale agora porque eu ascendi? -“É negro, é burro”. Eu escuto muito isso, preconceito até entre os próprios negros.
Eu só tive duas filhas e a nossa relação não foi igual a minha relação materna.
Sempre foi bem amena. Porém, elas conviveram muito com a avó, pessoa que as criou a maior parte do tempo. Assim, minha mãe conseguiu transmitir para elas o que foi comigo.
Então, quando eram crianças, tínhamos uma relação distante, havia certo respeito e receio.
Melhorou quando cresceram, a partir dos quinze anos, quando se aproximaram mais e se abriram um pouco. A que morreu foi sempre mais aberta, mas a que está viva, não. Nenhuma das minhas filhas se relacionou com homem totalmente branco. Mas nunca conversei com elas sobre isso. Eu não sei como é o pensamento da que está aí, nós não conversamos muito até hoje. Até porque nossa relação, depois de algumas atitudes, estremeceu um pouco. Por isso, não temos esse tipo de conversa sobre homens. Não há muita abertura. A outra, assim que engravidou, me disse. A mais velha não disse, é mais esquisita. Ela tem um filho e cria o sobrinho, e a diferença entre eles é de mais ou menos um ano. É formada em Educação Física, trabalha numa escola privada e está fazendo mestrado em Portugal.
A minha segunda filha morreu por conta da obesidade. Sempre foi muito diferente da primeira: não gostava de estudar, gostava era de cozinhar, igual à avó. Que, inclusive, era sua madrinha. Após alguns problemas com o pai, se decepcionou muito com o comportamento dele e começou a engordar cada vez mais. Quando se relacionou com um rapaz, ele tinha envolvimento com drogas. Ela engravidou e foi uma gravidez de risco.
Devido à obesidade, teve pressão alta, ficou de repouso, mas não resistiu ao problema de
embolia pulmonar. Após o nascimento da criança, ela morreu vinte e quatro horas depois.
Isso ocorreu em 2007. Foi uma perda muito grande, pois é muito difícil enfrentar a morte e quando se trata de uma filha, principalmente. Ainda hoje sinto muito. Minha primeira grande perda foi a minha mãe, em 2002. Ela estava com oitenta e seis anos e sofria de insuficiência cardiorespiratória. Em 2009, faleceu meu marido por conta da diabetes.