4.1. Cena 1 – Diferença de idade entre jovens e adultos
4.1.1. A vida pessoal introjetada na vida profissional
Essa forma pedagógica de trabalhar, principalmente com os educandos
mais adultos, segundo a professora, é explicável, pois seu relacionamento,
desde a infância até a fase adulta, sempre foi com sua mãe adotiva, que era
uma pessoa idosa. Para entender a construção dos saberes da professora, é
preciso dar importância à sua vida pessoal. Não era intencional enveredar
por esse caminho, porém, as observações de sala de aula, as conversas
informais, que Bogdan & Biklen (1994) sabiamente denominam de
“reconstruções de diálogo”, e a entrevista gravada conduziram-me a essa
abordagem.
A professora, em sua entrevista, confirmou o que ela já havia contado
em sala de aula sobre sua educação. “Ela me pegou para criar, eu tinha
quatro anos. Ela dizia: ‘não fui eu que pedi, foi a sua mãe quem me deu
você’. Então, ela dizia que não era minha mãe. Ela me educava de um modo
bem rígido. Ela me ensinou a ser uma boa dona de casa”.
A professora era grata por ter sido educada por essa “senhora”, mas
percebia-se, durante a entrevista, muita tristeza em seu olhar quando falava
que não podia chamá-la de mãe porque era rica e não permitia ser tratada
assim. Outro momento em que revelou melancolia foi quando confirmou,
na entrevista, o que já havia dito na escola, durante seus “casos” para
animar a turma, que ela começou a estudar também na fase adulta. Que ela
também tinha sido excluída do mundo das letras na idade em que todas as
crianças deveriam ir para a escola.
“...mas era contra meu estudo. Estudei um pouquinho até os oito
anos, depois fui retomar os estudos já com quase quinze anos. Ela achava
que eu não precisava estudar. Os filhos dela, todos já eram formados. Ela
ficou sozinha e aí nós ficamos morando na fazenda, então eu não pude
estudar”.
Com esse depoimento, a professora revela sua dor pelo abandono, pela
revolta por essa negação aos estudos. Mesmo com essa mágoa, a professora
enfatiza, em vários trechos da sua entrevista, o quanto foi importante a
educação que teve com a senhora que a adotou. Se ela não teve a educação
escolar, teve a educação moral amparada pela religiosidade e era devota,
cumprindo com todas as obrigações que a religião pregava.
São vários os momentos da sua fala em que se percebe essa educação
fazendo parte do seu cotidiano.
Para essa compreensão, Geertz (1989) acredita que a religião dá certa
garantia cósmica, que faz a pessoa enxergar o mundo com mais sentimento,
com maior capacidade de compreendê-lo, dá mais precisão às emoções,
fazendo com que se suporte as pressões do mundo como ele é.
A religiosidade na vida da professora foi muito presente e ela revelou
isso, várias vezes, durante as aulas em que observamos. Tal prática ela
trouxe da educação de infância. Em um trecho da entrevista ela afirma
que sua mãe adotiva“era religiosa e exigente e gostava muito de respeito.
Principalmente com os mais velhos. Ela me criou naquilo. Os mais velhos
têm que ser respeitados”.
Ainda a respeito do assunto, em um dos momentos de histórias que
sempre surgiam durante as aulas, Lurdes contou um fato que revelava a
importância da religiosidade para essa senhora. Elas iam à missa todas as
manhãs, tinham que sair às quatro ou cinco horas para ir à igreja. Esta ficava
longe e elas tinham que sair com certa antecedência, mas eram as primeiras
a chegar. Lurdes contou que para sua mãe alguns comportamentos eram
negativos: conversar e rir alto; xingar e falar coisas negativas; desrespeitar
os mais velhos; ser preguiçosa e fazer as coisas mal feitas. Tudo o que a
senhora lhe ensinou ela carrega como filosofia de vida, como aparece nesse
trecho da entrevista:
“A dona que me criou tinha sempre um ditado muito certo: “o meu
direito termina onde o do outro começa”. Eu peguei isso como regra na
minha vida. Nunca briguei com o meu vizinho, nunca briguei com minha
sogra, nem com a minha cunhada. Porque se você respeita os direitos do
outro, não tem jeito, não tem briga, a mesma coisa é a sala de aula e com
o adulto”.
Suas ações em sala de aula demonstravam esse respeito pelos jovens
e adultos. Antes de iniciar qualquer atividade, era costume perguntar a eles
o que achavam de fazer aquela atividade. Isso, às vezes, era bom, em outras
era ruim. Em uma aula realizada no dia 30 de outubro, a professora estava
trabalhando com um livro do Projeto ALFA e tinha como tema: “Projeto
Pantanal”. De acordo com o registro das notas de campo ela passou no
quadro de giz o texto sobre o Pantanal:.
“A professora pede aos alunos que leiam no quadro. Os primeiros
lêem com muita dificuldade, uns ajudando aos outros, os últimos lêem
com mais facilidade (decoraram muitas das palavras ao ouvi-las várias
vezes. Quando eles terminam de copiar e ler o que estava no quadro, a
prof. passa a tarefa de casa. Ela escreve no quadro e lê para os alunos o que
eles devem fazer: IMAGINEM O PANTANAL E O DESENHE. Os alunos
param de copiar e ficam olhando silenciosamente para o quadro. No rosto,
a expressão de quem não gostou da tarefa. A profª. percebe o desgosto, ela
é muito sensível e fala da importância da elaboração do desenho para a
produção de texto. Um dos alunos [mais ou menos 30 a 40 anos] olha para a
profª., e diz: ‘nós precisa de texto. É assim que aprende ler. Desenho não é
para nós’. Alguns alunos olham surpresos pela coragem dele de responder
a professora. Mais uma vez ela insiste na tarefa justificando que desenho
pode ser considerado um texto. Em troca recebe o mais completo silêncio.
Eles gostam muito dela e, para não contrariá-la, se calam”(Trecho retirado
das notas de campo 30/10/2002).
Acontecimentos como esses deixavam a professora sem ação. Ela
perguntava o que poderia fazer numa situação daquela? Ficava angustiada.
Ela gostou da sugestão do livro, que pedia, logo depois de um texto
informativo acerca dos aspectos geográficos, fauna e flora, para que cada
um imaginasse o Pantanal e fizesse um desenho.
No dia seguinte, a professora entra na sala risonha e pergunta quem
fez a tarefa. Dois alunos fizeram a tarefa. Os outros disseram que o trabalho
não deixou que eles a realizassem. Ela pegou o desenho de uma das alunas
e pediu que cada um construísse uma frase sobre o que via. Uma das alunas
[que trabalhava no hospital] disse: “Essa professora é danada. Ela quer fazer
a gente escrever de todo jeito” (Notas de campo do dia 31/10/2002). Eles
construíram várias frases. Em seguida, a professora começou com outra tarefa
do tipo que eles gostavam: várias contas para que copiassem e resolvessem.
Era interessante observar que, para determinada atividade, ela tentava
uma alternativa; se os alunos não gostassem, ela passava uma outra que
satisfazia aos mais velhos. Ela tinha muito respeito por eles. O aprendizado
da infância, de acordo com os valores e costumes da senhora que a adotou,
ficou arraigado em suas ações da docência.
Esse saber construído ao longo dos anos faz parte de sua vida
cotidiana, está integrado ao sistema cultural do seu viver. Heller (2000)
argumenta que a vida cotidiana é a vida do homem por inteiro. O saber
cultural faz parte da formação dos sujeitos e a vida cotidiana, de acordo
com a autora, também forma a individualidade, a personalidade, enfim,
está dentro do acontecer histórico do ser humano. Diante desse pensamento
e analisando a cena apresentada, não se pode separar os saberes religiosos
que estão intrínsecos nos saberes culturais, dos outros saberes adquiridos
com as ciências, com a intelectualidade.
Assim, a vida cotidiana faz parte do viver e nesse viver se constrói
saberes de acordo com os costumes e valores de cada grupo social, de
cada povo. Então, tudo isso faz parte da particularidade de cada cidadão e
cidadã.
Os registros das notas de campo apontavam para a ênfase que a
professora dava aos seus saberes construídos na vida cotidiana e aos
saberes construídos em sua experiência profissional, para aqueles saberes
que ela foi construindo com seu trabalho de dois anos de sala de aula com
a EJA. Aquilo que ela havia experimentado e eles não tinham gostado, ela
não repetia.
Sendo assim, considero que a professora utilizava, fortemente, os
saberes adquiridos na vida cotidiana e também os saberes adquiridos com
a experiência, para dar conta de resolver os conflitos que iam surgindo em
sua prática docente, contemplando a primeira cena.
4.2. Cena 2 – as “meninas” não conseguem ler e nem decifrar a escrita
No documento
OS SABERES DOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: o percurso de uma professora
(páginas 110-113)