CAPÍTULO III – Imagens da cidade moderna: 1980 a 2008
3.5 A vida privatizada
Moreira (1991), em estudo sobre a Formação e desenvolvimento dos bairros
periféricos em Uberlândia, de certo modo, concorda com Rolnik (1997) e Kowarick (2000)
sobre a realidade atravessada pelo país e o processo de marginalização de uma parcela da população que não usufrui dos benefícios sociais gerados com o crescimento econômico entre os anos que vão de 1970 a 1990. Citando Kowarick, o autor defende que “essa deterioração não se refere apenas às populações marginalizadas (desempregados, subempregados, etc.), mas o próprio trabalhador assalariado tem visto seu padrão de vida despencar assustadoramente a cada ano”. (KOWARICK, 1983 apud MOREIRA, 1991, p. 129).
Moreira define a periferia uberlandense a partir da “expansão horizontalizada desnecessária”, nos termos da geografia153 – composta pelo espaço “que está na parte mais externa de um corpo” ou “nas franjas da cidade”, e na qual ocorreria uma proletarização do espaço, que tende a uniformizar as populações em termos de baixo status socioeconômico e baixo nível de urbanização – e da sociologia – “locais onde as classes trabalhadoras se reproduzem em péssimas condições habitacionais” ou locais em que a população apresenta “baixa renda diferencial” –, e conclui que “não existe uma periferia uniforme, um ‘cinturão
152 Análise que não pudemos empreender devido ao tempo curto e à profundidade desta questão, que poderia
envolver, inclusive, o assistencialismo e o clientelismo existente entre a prefeitura e seus funcionários, além de funcionários de outras empresas. Soares (1988) aborda esse clientelismo na formação dos bairros Luizote de Freitas e Segismundo Pereira.
periférico’ em torno da cidade, mas várias periferias com características e localizações diferenciadas no espaço urbano”. (MOREIRA, 1991, p. 13)154.
Na atualidade, a paisagem urbana periférica sofre alterações com a chegada de outras formas de ocupação, especialmente os condomínios horizontais que, instalados visando a classes sociais abastadas, assumem características de verdadeiros monumentos arquitetônicos, que celebram o consumo notável e socialmente distinto de moradia. Eles provocam um rearranjo na estrutura dos espaços periféricos e a conseqüente necessidade de redefinição de periferia. Em Condomínios horizontais/loteamentos fechados e a vizinhança (in)desejada, Moura (2008) aborda a especificidade e as transformações por que vem passando essa paisagem. São transformações que, de acordo com a autora, exigem que a periferia seja redefinida teoricamente, pois
não pode ser mais caracterizada só pela falta de infra-estrutura, por casas inacabadas em função do processo de autoconstrução, pelos conjuntos habitacionais, pela população pobre e marginalizada. A periferia, atualmente, é também o local de moradia dos grupos elitizados, que impõem à paisagem periférica os seus “enclaves fortificados” [...] representados pelos condomínios horizontais. Eles são considerados como novas formas de habitat urbano, que exigem a (re)definição da forma e dos conteúdos da periferia urbana (MOURA, 2008, p. 2).
154 Outro autor consultado, Octávio Rodrigues (1981), em Teorias do subdesenvolvimento da Cepal, parte da
economia como mediadora para diferenciar periferia e centro, e países de economia periférica e de economia central.
Figura 33 - Foto: Paulo Augusto, trabalho de campo: Condomínio horizontal de um lado e pousios de outro, nas proximidades do Bairro Lagoinha.155
Para serem comercializados, esses produtos imobiliários exploram o imaginário da violência e o medo, são embalados sob a publicidade da segurança, de melhor padrão de vida, com valorização das áreas naturais e da distinção de seus moradores com relação aos demais habitantes da cidade. Os condomínios horizontais são determinantes do novo modo de vida no espaço urbano, já que produzem novas relações entre o espaço público e o privado e a deterioração das relações sociais no primeiro. Não são um produto acessível somente às classes abastadas, mas acentuam a segmentação do espaço e a separação dos moradores de acordo com as possibilidades econômicas e hábitos de consumo. Ademais, esses condomínios têm seu entorno “amplamente reestruturado” e “(re)valorizado em função de sua instalação” (MOURA, 2008, p. 24). Com a sua chegada, não é apenas a periferia que é ressignificada.
Ocorre uma inversão no modo de ocupação dos espaços da cidade pelas diferentes classes: os condomínios horizontais156 acentuam o “crescimento horizontal desnecessário”
155 O condomínio horizontal fica ao lado do bairro Lagoinha. Este bairro era estigmatizado no passado por
abrigar portadores de hanseníase; hoje, é objeto de desejo das classes médias. Fica situado a aproximadamente 1 km do Campus Santa Mônica e do Centro Administrativo da Prefeitura Municipal.
156 O surgimento e a multiplicação dos condomínios fechados são assuntos abordados mais detalhadamente por
Moura (2008) e Caldeira (2003). De acordo com Moura (2008, p. 53), os primeiros condomínios horizontais construídos na periferia de Uberlândia eram compostos por casas de campo ou segunda residência, utilizadas
(MOREIRA, 1991) e acirram a “segregação sócio-espacial, resultado do crescimento acelerado e desordenado do espaço urbano” (MOURA, 2008, p. 55). A periferia passa a ser um local dividido entre fora e dentro dos muros, sendo que grande parte da área externa é ainda carente de serviços sociais e de infra-estrutura adequada. E a área central – deteriorada pela poluição visual e sonora, pelo trânsito congestionado e pelo comércio intenso – deixa de abrigar boa parte das elites, refugiadas agora nos condomínios. A área central deixa de ser espaço exclusivo dos mais abastados, sendo ocupada também por pessoas de menor poder aquisitivo.
Relacionando os desdobramentos da abertura política e a chegada da periferia às páginas do Jornal uberlandense, podemos dizer que a década de 1980 marcou também o momento de ruptura na paisagem urbana periférica da cidade, ou seja, o início da implantação dos condomínios horizontais fechados. Os agentes imobiliários estavam sintonizados nas oportunidades da ocasião, como escreve Moura (2008, p. 83):
Foi a partir da década de 1980 que as periferias “explodiram”, em função da atuação dos agentes produtores e modeladores do espaço urbano, que contribuíram significativamente para a expansão do perímetro urbano e as mudanças na paisagem urbana periférica. A periferia era representada por uma paisagem inacabada, que se encontrava sempre em transformação, uma vez que era formada por conjuntos habitacionais, casas auto-construídas e favelas. Vários bairros, como por exemplo o Jardim Ipanema, Granada, Tocantins, Taiaman, Minas Gerais [...], surgiram na área periférica com muitos problemas de infra-estrutura. Contraditoriamente, outros, mais próximos à área central, e ela própria, recebiam toda a infra-estrutura necessária para manter o desenvolvimento da cidade. Essa dinâmica proporcionou uma grande diversificação do uso do solo da cidade e da própria territorialidade da periferia urbana.
Ainda sobre a realidade dos condomínios horizontais, destacamos o estudo de Caldeira (2003), Cidade de muros. Essa autora aborda questões referentes à estruturação urbana de algumas cidades paulistas157, inclusive a capital, que consideramos relevantes na medida em
que nos permitem uma comparação com a realidade de Uberlândia. Por exemplo, as cidades pesquisadas guardam semelhanças no seu processo de desenvolvimento, que indicam como os
apenas nos fins de semana. Ela cita os primeiros: Condomínio Morada do Sol e Mansões Aeroporto, na região Leste da cidade.
157 De acordo com Caldeira (2003, p. 211), ao longo do século XX, a segregação social teve pelo menos três
formas diferentes de expressão no espaço urbano de São Paulo. A primeira estendeu-se do final do século XIX até os anos 1940 e produziu uma cidade concentrada, em que os diferentes grupos se comprimiam numa área urbana pequena e estavam segregados por tipos de moradia. A segunda forma urbana, a centro-periferia, dominou o desenvolvimento da cidade dos anos 40 até os anos 80. Nela, os grupos sociais estão separados mas com boa infra-estrutura, e os pobres vivem nas precárias e distantes periferias. E a terceira, a dos condomínios horizontais.
grupos sociais se inter-relacionam e se apropriam do espaço. Caldeira defende, por exemplo, que a cidade de São Paulo estaria passando por transformações que têm produzido espaços nos quais os diferentes grupos sociais, apesar de em muitos casos estarem próximos, “estão separados por muros e tecnologias de segurança, e tendem a não circular ou interagir em áreas comuns”, ou seja, estariam restritos ao que ela chama de “enclaves fortificados” ou condomínios horizontais (CALDEIRA, 2003, p. 211).
Esse tipo de empreendimento imobiliário começou a se tornar comum na paisagem das periferias de Uberlândia e, assim como em São Paulo, a publicidade para sua venda articula “segurança, isolamento, homogeneidade social, equipamentos e serviços”. (CALDEIRA, 2003, p. 265). Os moradores desses espaços viveriam “longe das interações indesejadas, movimento, heterogeneidade, perigo e imprevisibilidade das ruas e desenvolveriam um sentimento de negação com relação ao espaço público da cidade.” (CALDEIRA, 2003, p. 259).
Caldeira afirma que os condomínios horizontais são responsáveis não só pelas transformações da paisagem urbana, mas principalmente pelas transformações das sociabilidades urbanas. Eles impõem um modo de vida em que as relações públicas – heterogêneas – são substituídas por relações privadas – homogêneas –, relações “entre-muros” e “entre iguais”. A passagem de um modo de vida a outro teria como conseqüência, em seu entendimento, a degradação das relações sociais no espaço público, já que os moradores dos condomínios levariam para o espaço público seus hábitos de propriedade desenvolvidos nos condomínios.
A leitura de Caldeira (2003) possibilitou pensar que, por trás do glamour desses produtos imobiliários, eles despertam no seu consumidor um sentimento de desprezo pelo espaço público e pelas pessoas que nele circulam, ao mesmo tempo que, contraditoriamente, aumentam sua dependência dos moradores de fora para manter seus luxos, seja como empregado particular, seja como serviçal contratado pelas administradoras dos condomínios. Caldeira, de certo modo, corrobora esta idéia ao afirmar que as crianças criadas nos condomínios horizontais paulistas tendem a tratar os empregados do condomínio como se fossem empregados pessoais de seus pais. Essas crianças tendem a transferir seus hábitos de propriedade para o espaço público. Os moradores dos condomínios horizontais trazem seus hábitos privados para o espaço público e vivem nesse espaço uma vida artificial. Privados do contato real com a cidade, desenvolvem medo exacerbado da violência e passam a ser, dentro de seus automóveis, meros observadores do espaço urbano, vivendo um simulacro de realidade.
Membros das classes altas temem o contato e a contaminação pelos pobres, mas continuam a depender de seus empregados pobres. Eles só podem estar angustiados para encontrar a maneira certa de controlar essas pessoas com as quais mantém tais relações ambíguas de dependência e evitação, intimidade e desconfiança. (CALDEIRA, 2003, p.272)
Medo e desconfiança traduzidos em muros altos, cercas elétricas, guardas armados e o vazio das ruas, compondo a “estética do medo”, e permeando e deteriorando as relações sociais.