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2. A vida como objeto de governo

2.2. A vida sacra

De acordo com Agamben (2007), o ponto no qual os dois aspectos do poder – soberano e biopoder - convergem não teria sido esclarecido pelo pensamento foucaultiano, permanecendo como um “ponto oculto” ou “uma zona de indeterminação”. Nesses termos, qualquer

aproximação exigiria uma sobreposição das duas formas de poder descritas anteriormente; uma bricolagem entre o modelo da soberania e o modelo da biopolítica.

Uma das características do biopoder é a importância da norma sobre a lei. A idéia de que é preciso definir e redefinir o normal, em contraposição àquilo que se lhe opõe a figura dos

anormais, incorpora a categoria de degeneração que se inscreve nas margens das verdades

jurídicas. Na definição de Foucault:

[...] A norma é o que pode tanto se aplicar a um corpo que se disciplina quanto a uma população que se quer regulamentar. A sociedade de normalização é, pois, nessas condições, uma espécie de sociedade disciplinar generalizada cujas instituições disciplinares teriam se alastrado e finalmente recoberto todo o espaço [...] A sociedade de normalização é uma sociedade em que se cruzam, conforme uma articulação ortogonal, a norma da disciplina e a norma de regulamentação [...] (1975-76/2002, p. 303).

Para Agamben (2007) os anormais se definem por seu caráter de “exceção”, sendo esta situada em posição simétrica em relação à norma, com a qual forma um sistema. A “exceção” constitui uma das formas pelas quais uma sociedade procura fundamentar e manter a sua própria coerência. Mas ela também tem uma função estratégica; auxilia na conformação da identidade de um grupo, pois a relação de “exceção” é uma relação de bando 8. Aquele que foi banido não é simplesmente posto fora da lei e indiferente a esta, mas é abandonado por ela, ou seja, exposto e colocado em risco no limiar em que a vida e direito, interno e externo, se confundem. Segundo o autor, o estado de exceção é o dispositivo pelo qual o direito integra a vida.

Agamben (2007) tenta compreender qual seria o estatuto da vida presa e abandonada à decisão soberana, tendo como referência a discussão sobre o estado de exceção no âmbito do Direito e a conseqüente teorização sobre o limite da ação humana expressa no exercício da soberania. O autor considera que a prática do estado de exceção tornou possível anular o estatuto jurídico da pessoa, criando um ser juridicamente inominável.

Em sua reflexão, se apropria da noção de sagrado (sacer), a qual, fora dos domínios do Direito Penal e do sacrifício, estaria na origem da política: “soberano é a esfera na qual se pode matar sem cometer homicídio e sem celebrar um sacrifício, e sacra, isto é, matável e

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O autor faz um uso muito particular do termo bando que, significa a força, simultaneamente atrativa e repulsiva, que liga os dois pólos da exceção soberana; a vida nua (sagrada) e o poder, o homo sacer (súdito) e o soberano.

insacrificável, é a vida que foi capturada nesta esfera” (2007, p. 91). A vida sacra ou vida nua seria, nestes termos, aquela que constitui o conteúdo primeiro do poder soberano, exprimindo o caráter originário da sujeição da vida a um poder de morte. Nas palavras do autor:

[...] a sacralidade é, sobretudo, a forma originária da implicação da vida nua na ordem jurídico-política, e o sintagma homo sacer nomeia algo como a relação

política originária, ou seja, a vida enquanto, na exclusão inclusiva, serve como

referente à decisão soberana. Sacra a vida é apenas na medida em que está presa à exceção soberana, e ter tomado um fenômeno jurídico-político (a insacrificável matabilidade do homo sacer) por um fenômeno genuinamente religioso é a raiz dos equívocos que marcaram no nosso tempo tanto os estudos sobre o sacro como aqueles sobre a soberania. Sacer esto é uma fórmula de maldição religiosa, que sanciona o caráter unheimlich, isto é, simultaneamente augusto e abjeto, de algo: ela é, ao contrário, a formulação política original da imposição do vínculo soberano. (AGANBEM, 2007, p.92-93, grifos do autor).

A vida sagrada não é nem bios (forma ou maneira de viver própria de uma pessoa ou de um grupo), nem zoé (simples fato de viver – comum a todos os seres vivos; animais, homens ou deuses). Torna-se assim, uma zona de indistinção.

Ao compreender a política em termos de um contrato social e não de um bando soberano, Aganbem acredita que a democracia moderna tornou-se incapaz de pensar uma política não- estatal. Diferente da representação moderna da política como direito do cidadão, liberdade e contrato social, no poder soberano o espaço político é fundamentalmente o espaço da vida nua ou

sacra. Dessa forma, o que é banido é também separado da vida social. O autor chama esta

operação, que integra a biopolítica contemporânea, de “exclusão inclusiva”.

Agamben elege o campo de concentração como um dos paradigmas biopolíticos possíveis para a modernidade. Nesse espaço, onde a tecnologia da morte foi materialmente realizada de maneira vulgar, burocrática e cotidiana, a morte e a sua fabricação tornam-se indiferentes, pois se transformam num mero produto da sofisticação técnica. Para o autor, essa degradação da morte só pode ser compreendida por meio da sobreposição dos dois modelos de poder descritos por Foucault – poder soberano e biopoder. Frente a tudo isso, Agamben propõe uma terceira fórmula que apreenderia a especificidade da biopolítica na contemporaneidade, que seria não mais fazer morrer, nem fazer viver, mas deixar sobreviver. Ou seja, nem vida, nem morte, apenas produção de sobrevida. Nesse sentido, não se trata apenas da inclusão da zoé na polis; da inclusão total da vida nos dispositivos da política. Considerando que a exceção se torna cada vez mais à regra, a vida passa a coincidir exatamente com o espaço político, onde exclusão e inclusão, bios e zoé,

direito e fato passam a habitar uma zona de inexorável indeterminação. É assim que a vida se torna vida nua.