Planta 1 — Planta do loteamento da Vila Leopoldina
2 UMA POSSÍVEL PERIODIZAÇÃO HISTÓRICA DA VILA LEOPOLDINA
2.3 A Vila Leopoldina diante da transição do modelo de acumulação do
Ao longo da década de 70, a metrópole de São Paulo passou por um forte movimento de descentralização dos centros produtivos industriais, e consequentemente, uma desindustrialização em grande escala dentro de seu território, resultante da crise do método acumulativo vigente, diante da influência de modernização dos meios produtivos também chamada de reestruturação produtiva.
Os territórios e grandes construções antes habitadas por estas mesmas indústrias passaram a se destinar ao conjunto de serviços e empreendimentos focados no setor terciário, dentre eles, o mercado imobiliário conforme veremos mais adiante no próximo capítulo. Padua (2007) já destacava esse processo em curso:
No momento em que a indústria diminui a sua produção nestas áreas, desocupa muitos terrenos, revelando a sua localização no contexto da metrópole como fundamental. Estas áreas inicialmente passam por uma inescapável desvalorização, dada a deterioração dos edifícios fabris e do entorno. Podem tornar-se, portanto, áreas 'reserva' para a atuação dos empreendimentos imobiliários. Ou seja, podem vir a ser áreas de valorização. (PADUA, 2007, p. 11).
A Vila Leopoldina não escapou dessa dinâmica, porém, com a presença da CEAGESP, foi atingida por essa tendência de forma mais tardia, conforme retratado por Rodrigues (2013). O processo observado na metrópole, em sua maioria, concentrava-se na saída desses meios produtivos rumo a zonas interioranas, diante de incentivos fiscais, e, ao mesmo tempo, estabelecia a entrada do setor terciário nos novos espaços disponíveis, o distrito se estruturava em termos de possibilidade de locomoção, a partir de viários e outras construções de logística que visavam atender a demanda cada vez mais crescente do fluxo de mercadorias entre a CEAGESP, São Paulo e demais localidades, estabelecendo assim uma grande reestruturação do meio urbano e na forma como o mesmo se realizava.
O mercado imobiliário, a partir de sua forte especulação sobre os espaços, passa a ter protagonismo excessivo, aliado com o setor de construção civil, na forma como os espaços se produzem e reproduzem na metrópole, e não demoram a categorizar os mesmos como potenciais fontes de lucro, sendo eles as grandes construções abandonadas e espaços desvalorizados, vítimas do deslocamento dos setores produtivos industriais. Essa lógica se aplicou diretamente em nosso objeto de estudo, ainda que se considere a ação da CEAGESP na manutenção de diversos setores industriais dispostos ao seu redor. Assim, já se começava a observar os vastos espaços antes vagos e abandonados, consequentemente desvalorizados, serem ocupados por novos empreendimentos verticais residenciais, inicialmente com um padrão mais baixo, bem como construções voltadas ao setor terciário e comércios voltados para um novo público alvo que migraria para o distrito.
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Imagem 3 — Crescimento dos empreendimentos imobiliários verticais de alto padrão 2009/2020
Fonte: Elaboração própria do autor sobre Google Maps
Com base nas imagens de satélite acima e de caráter mais atual, podemos observar os grandes lotes desocupados pelas antigas indústrias sendo ocupados por projetos residenciais verticais de alto padrão das imobiliárias e empreiteiras, marcando mais uma vez, a alteração na dinâmica do distrito e na forma como se vivencia os espaços.
Rodrigues (2013) descreve de forma resumida não só os efeitos dessa troca de modelo de acumulação capitalista observado na metrópole, mas também os efeitos do setor imobiliário no local:
Como parte de uma dinâmica que se repete em outros tecidos industriais da cidade, num primeiro momento a desocupação gera a degradação e rebaixa o valor do solo urbano. O baixo valor do solo e os lotes de grandes dimensões, tais como os encontros em antigas áreas industriais, associadas às alterações da normativa urbanística, geram uma profunda alteração dos usos e ocupações dos antigos lotes industriais. A ação do capital imobiliário na Vila Leopoldina vem se intensificando, principalmente nas duas últimas décadas e pode ser classificada em dois eixos: por um lado, a produção habitacional para os segmentos de alto poder aquisitivo em condomínios verticais, e, por outro, a instalação de diversas atividades terciárias, com destaque a cerca concentração de produtoras de cinema (RODRIGUES, 2013, p. 155).
Hoje, a Vila Leopoldina faz parte do conjunto de distritos que compõe a subprefeitura da Lapa na zona oeste de São Paulo, com um crescente adensamento populacional, contando atualmente com 45.092 pessoas no ano de 2020, e renda per capita bem acima da média frente ao município de São Paulo, segundo dados
do perfil dos municípios paulistas da Fundação Seade1, despontando de vez como nova centralidade e área de plena valorização.
Mapa 7 — Localização Vila Leopoldina
Fonte: Elaboração do autor sobre portal Geosampa -
http://geosampa.prefeitura.sp.gov.br/PaginasPublicas/_SBC.aspx
Assim, encerraremos o levantamento histórico do distrito desde a sua criação até os dias atuais, considerando que as modificações vistas nas últimas décadas e nos tempos atuais, serão abordadas em capítulo posterior junto ao tema e objeto
1Fonte: https://perfil.seade.gov.br/
de estudo desta pesquisa. Porém, antes de abordamos o conceito e as aplicações no modo como se vive os espaços e como o mercado imobiliário mexeu de forma drástica com essa dinâmica na Vila Leopoldina, levantaremos de forma mais analítica, como a troca do modelo de acumulação capitalista, antes industrial, no século XX, para o modelo financeiro, foram propulsores na alteração da vivência e apropriação dos espaços, resultando na privação do direito à cidade e moradia.
3 A VILA LEOPOLDINA E A METRÓPOLE DE SÃO PAULO NA