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A Vila Torres no contexto curitibano atual

Atualmente vivem na Vila Torres aproximadamente 9 mil pessoas, apenas 10% da população – 850 moradores – estão em situação irregular.

Uma “linha” divide fisicamente e simbolicamente a Comunidade: a rua Guabirotuba, essa via é um dos principais acessos à PUC-PR, ao Jardim Botânico além de facilitar o acesso ao Aeroporto Internacional Affonso Pena pela Av. das Torres.

O cruzamento da Rua Guabirotuba com a Avenida das Torres, também seu trecho que cruza a Vila, a Rua Imaculada Conceição no trajeto que passa em frente à Pontifícia Universidade Católica do Paraná constituem-se num dos pontos mais violentos da cidade devido aos assaltos, roubos e furtos aos veículos que param nos semáforos.

Essa rua representou até poucos meses atrás, a “linha proibida”, entre a parte de cima da Vila e a parte de baixo; comandadas por facções rivais do tráfego de drogas.

O campo de futebol da comunidade fica “no lado de baixo”, menor, menos habitado – com aproximadamente 3 mil habitantes – onde estão também a Unidade de Saúde, a creche, o Centro de Referência de Assistência Social - CRAS, as duas escolas da região e o posto policial. O “lado de cima” é maior e onde está concentrado pelo menos metade dos 50 estabelecimentos comerciais da Vila.

Quando o clima está tenso entre os dois territórios da Vila, os jogos de futebol ficam suspensos no único campo dividido pelos vários times. Os moradores já sabem que quando o campo está vazio não é bom sinal. A comunidade possui seis times de futebol: Palmeirinha, Vasquinho, Grêminho, Flamenguinho, Fluminense e Boca Juniors.

No início de 2011, não se sabe ainda os motivos, mas os grupos rivais desses territórios decidiram por fim (ou dar uma trégua) à violência. O fato é que, depois disso, as pessoas da comunidade circulam de um lado para outro sem problemas.

Atualmente 1.500 dos moradores da Vila vivem da coleta de lixo reciclável.

Conforme relatos de alguns moradores, nos anos 90, estes carrinheiros perderam o único depósito que tinham para depositar o lixo que coletavam ao longo de um dia

de trabalho. Segundo eles, o barracão estava em área pertencente ao Paraná Clube.

A partir daí a única alternativa foi guardar o lixo coletado no quintal de suas casas (Foto 5 A/B) , o que acentuou problemas como aumento do número de roedores, acúmulo de lixo nas ruas e nos quintais, além de mau cheiro.

Foto 5 (A e B) - Residências de carrinheiros - Vila Torres

Foto A: Elenir A. Santos Foto B: Eva dos Santos

Outro problema enfrentado pelos catadores de lixo reciclável refere-se aos donos dos depósitos (Foto 6). Estes depósitos, em número superior a 80, ficam na própria comunidade, aonde montanhas de lixo vão se acumulando até os caminhões das indústrias de reciclagem aparecer, geralmente ao final da manhã, para levar todo o material (Fotos 7 e 8).

Os carrinheiros são obrigados a se submeter às condições de trabalho impostas pelos donos dos depósitos, que são também proprietários dos barracos e carrinhos alugados aos catadores. Esses “atravessadores” determinam cotas diárias de material que precisa ser coletado (aproximadamente 200 kg), o carrinheiro que não cumprir essa cota, precisa deixar o local.

Foto 6- Depósito de lixo reciclável Vila Torres

Foto: Rosalvo B. da Silva

As condições precárias de trabalho e moradia no meio do lixo são comuns na Vila Torres e essa relação com os proprietários dos depósitos gera um regime que mais parece um “cativeiro” imposto pelos donos dos meios de produção, pouco sobrando para a sobrevivência do catador e de sua família.

Foto 7 – Vila Torres: acúmulo de material reciclável

Fonte: Gazeta do Povo

Foto 8- Vila Torres: área interna de depósito de lixo reciclável

Foto: Elenir A. Santos

Mesmo as famílias que não precisam viver nos depósitos, acabam se submetendo ao preço pago por eles pelo material separado. Muitas famílias trabalham em esquema de revezamento, assim quando a esposa chega a casa, o marido pega o carrinho e sai para sua jornada; ganham em média, R$ 200,00 por mês.

A população da comunidade que não vive da reciclagem do lixo queixa-se bastante dessa situação, embora compreenda a necessidade dos carrinheiros.

Uma das reivindicações mais latentes entre os catadores é a construção de creches para suas crianças, poupando-as do desconforto vivido nas viagens dentro dos carrinhos de lixo.

Outra reclamação refere-se ao caminhão do Lixo que não é Lixo, querem o fim dessa coleta na cidade, por considerarem concorrente deles.

Alguns depoimentos espontâneos dos carrinheiros revelaram problemas de saúde como dores nas costas e nas pernas, dores musculares, dores de estômago e de cabeça, entre outras; é o corpo reclamando das condições de trabalho dessas pessoas.

Durante a visita à comunidade, foi possível observar algumas iniciativas da comunidade, entre elas: um museu com fotos antigas da Vila das Torres, objetos

antigos e quadros, muito dessas peças encontradas no lixo da cidade. José Francisco Sanches - o Baleia foi o criador deste espaço.

Há também na Vila, uma biblioteca inaugurada em 2009 (Foto 9), criada por Baleia e idealizada por Carlos Roberto Teles, o palhaço Chameguinho.

Essa biblioteca surgiu a partir de livros retirados do lixo. A sensibilidade de Chameguinho que viu nas centenas de livros encontrados pelos catadores de recicláveis e a iniciativa de Baleia em recuperar e organizar esse material trouxe um espaço de leitura surpreendente para aquela comunidade.

No começo, os catadores vendiam os livros que encontravam para Baleia por um preço irrisório. Segundo Baleia, às vezes, chegavam com coleções inteiras, resgatadas do lixo.

Mas depois, Baleia decidiu que tudo teria de ser feito na base da doação. E a maioria dos catadores passou a entregar os livros de graça quando os achava.

Atualmente, a biblioteca conta com 6.780 livros, e também recebe obras doadas por várias entidades. Além disso, possui um computador recebido de doação, para administrar o acervo. Estudantes das universidades mais próximas da comunidade desenvolveram um programa para “empréstimo” e “devolução” dos livros que já haviam sido catalogados por estudantes de biblioteconomia das universidades PUC e UFPR.

Livros de Literatura Brasileira, História, Direito; além de literatura infantil podem ser emprestados da biblioteca pelas pessoas da comunidade, basta fazer a ficha.

Foto 9 – Biblioteca comunitária Sinval Zaidane Lobato Machado – Vila Torres

Foto: Elenir A. Santos

Também existe bem próximo à biblioteca, uma praça de leitura construída por Baleia. Neste espaço, ele pintou pneus velhos e pedras transformando-os em mesas e cadeiras. A praça toda pintada de verde e amarelo possui uma placa onde está escrito “Vila das Torres: você consegue” e outra com os dizeres “minha rua, cuido eu” (Foto 10).

Foto 10 - Praça na Comunidade da Vila Torres - Manifestações através de faixas

Foto: Molina

A Vila Torres possui uma Agenda 21 Local há cerca de dois anos, coordenada por Marcos E. Santos que é também presidente da Associação de Moradores. Dentre as atividades da Agenda Local destacam-se plantios de árvores, o que ainda não foi incorporado de fato, como valor para a comunidade, pois em poucos dias as mudas são destruídas; também a busca de cursos técnicos e profissionalizantes junto ao poder público para os jovens da comunidade.

Atualmente, observam-se na Vila Torres habitações com vários pavimentos, um em cima do outro, construídos pelo próprio morador ao longo dos anos, à medida que consegue recursos financeiros para comprar o material de construção, sem ter o momento certo da construção finalizada (Foto 11).

Encontram-se também na comunidade, moradias de madeiras e outros materiais, construídas sem condições de ventilação adequada e muito adensadas.

Foto 11- Vila Torres: aspecto geral das casas

Foto: Elenir A. Santos

Conforme vamos adentrando ao interior da Vila, a precariedade se mostra mais presente: muito lixo e material reciclável nas ruas (Foto 12), além montanhas de lixo que se destacam na paisagem de algumas ruas (Foto 13). Esses materiais atraem muitos ratos e insetos, essa queixa foi recorrente durante as conversas com os moradores.

Segundo a diretora da Unidade de Saúde que atende a comunidade, existe muita preocupação com dengue, leptospirose, além do tétano.

Foto 12- Lixo espalhado na rua – Vila Torres

Foto: Eva Santos

Foto 13 – Montanhas de lixo reciclável na Comunidade

Foto: Eva Santos

O comércio local é administrado por famílias inteiras, destacam-se bares, mercearias e minimercados. Os comerciantes, de modo geral, relatam a fidelidade de sua freguesia, dizem que o sucesso do negócio dentro da Vila, está ligado aos laços de amizade que existem na comunidade.

Nos locais grandes, ninguém te conhece, ninguém te olha. Aqui, a procura é por semelhança, por gente como a gente. (Siqueira, motorista e dono de bar).

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

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