3. O PRECEDENTE JUDICIAL COMO NORMA JURÍDICA
3.3. A vinculação formal dos precedentes no Código de Processo Civil
Antes de adentrar à força vinculativa do sistema de precedentes no Brasil, importante estabelecer os motivos de sua regulamentação.
149 No ponto, esclarece Luiz Guilherme Marinoni que não são apenas os recursos repetitivos que são aptos a gerarem precedentes obrigatórios, mas sim que “todo e qualquer recurso extraordinário”, já que “as rationes decidendi dos julgados proferidos pelo STF têm claro e inocultável efeito vinculante”.
Da mesma forma em relação ao STJ, uma vez que, já que possui a função de atribuir sentido ao direito infraconstitucional, “as suas decisões, ainda que proferidas em sede de recurso especial ‘não repetitivo’, devem ser respeitadas pelos juízes e tribunais”. (MARINONI, Luiz Guilherme. Julgamento nas Cortes Supremas: precedente e decisão do recurso diante do novo CPC. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017, p. 21-22).
150 THEODORO JÚNIOR, Humberto; et al. Novo CPC – fundamentos e sistematização. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015. p. 333.
Como bem aponta Teresa Arruda Alvim, que foi Relatora-Geral da Comissão de Juristas que elaboraram o anteprojeto que deu origem ao Código de Processo Civil de 2015, três foram as razões/preocupações que resultaram na regulamentação desse sistema.
A primeira razão é porque as decisões conflitantes, principalmente as dos tribunais superiores, passaram a ser um fenômeno “excessivamente frequente”, com muitas mudanças bruscas de entendimento pelos próprios tribunais. A segunda, porque muitas das decisões conflitantes eram proferidas para resolver casos que envolviam questões de massa, o que gerava uma gritante e intolerável ofensa à isonomia. E a última, porque era necessário estabelecer técnicas para concretizar o princípio da legalidade e da isonomia e para assegurar a segurança jurídica e a previsibilidade no plano empírico151.
Tem-se, portanto, que o sistema de precedentes brasileiro fora instituído por uma necessidade de reduzir a excessiva dispersão jurisprudencial e, consequentemente, de assegurar maior previsibilidade ao direito, ao passo que passou a vincular decisões posteriores àquelas precedentes.
Nessa linha, o Código de Processo Civil de 2015, como dito anteriormente, estabelece em seu art. 927 um rol de pronunciamentos judiciais que são denominados de precedentes para fins de aplicação do direito brasileiro.
Neste contexto, importante registrar que, segundo Ronaldo Cramer152, há, ao menos, cinco interpretações diferentes no que tange ao artigo 927 do Código de Processo Civil.
A primeira corrente sustenta que o artigo em comento estabelece um rol de precedentes vinculantes, valendo-se, principalmente, do argumento semântico, posto que o dispositivo prevê que “os juízes e os tribunais observarão”.
Fredie Didier Jr, Paula Sarno e Rafael Alexandria153, defensores dessa corrente, assim afirmam: “no Brasil, há precedente com força vinculante – é dizer,
151 ARRUDA ALVIM WAMBIER, Teresa. Precedentes. In: WAMBIER, Luiz Rodrigues (Coord.).
Temas essenciais do novo CPC. São Paulo: Revista dos Tribunais 2016. p. 483-484.
152 CRAMER, Ronaldo. Precedentes judiciais: teoria e dinâmica. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p.
183.
153 DIDIER Jr., Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria. Curso de direito processual civil. Vol. 2. 11ª ed. Salvador: Juspodvm, 2016, p.455
em que a ratio decidendi contida na fundamentação de um julgado tem força vinculante. Estão eles enumerados no art. 927, CPC”.
A segunda, por sua vez, sustenta que tal dispositivo não estabelece nenhum precedente vinculante. Afirma que
Para esse entendimento, são vinculantes apenas os precedentes que contam com reclamação para forçar o seu cumprimento. Encontra-se no art. 988 do NCPC, que prevê as hipóteses de cabimento da reclamação, e não no art. 927, a lista de precedentes vinculantes.
Logo, seriam vinculantes as decisões do STF em controle concentrado de constitucionalidade, as súmulas vinculantes e as decisões de assunção de competência e de resolução de demandas repetitivas154.
O terceiro entendimento declara que o art. 927 do Código de Processo Civil não atribui eficácia vinculante aos precedentes ali elencados, estabelecendo apenas um dever jurídico de os magistrados levarem em conta tais precedentes ao proferirem suas decisões.
Para essa corrente, segundo Alexandre Câmara, para que tenha efeito vinculante é necessário que essa vinculação decorra de outra norma ou de seu próprio regime jurídico, como são (i) as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; (ii) os enunciados de súmula vinculante; e (iii) os acórdãos em incidente de assunção de competência e de recursos repetitivos, porque existem enunciados, em seu regime jurídico, prevendo eficácia vinculante a eles155.
Já a quarta corrente defende que somente a Constituição Federal poderia atribuir eficácia vinculante a determinadas decisões judiciais, de modo que, se interpretado o artigo 927 do Código de 2015 como rol de precedentes vinculantes, este será inconstitucional.
Por fim, a quinta corrente, de autoria de Marinoni, Sérgio Arenhart e Daniel Mitidiero, define que apenas os tribunais superiores têm a missão de emitir
154CRAMER, Ronaldo. Precedentes judiciais: teoria e dinâmica. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p.
184.
155 CÂMARA, Alexandre Freitas. O novo processo civil brasileiro. São Paulo: Atlas, 2015. p. 434; SÁ, Renato Montans de. Manual de direito processual civil. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 937.
precedentes, sendo que todos os seus precedentes, não limitados àqueles dispostos no artigo 927, são vinculantes.
Com o devido respeito, refutadas as teses contrárias, permite-se a conclusão de que o art. 927 do Código de Processo Civil de 2015 instituiu, sim, um rol de precedentes vinculantes156.
Aliás, essa foi, como tratado no início desse tópico, a intenção do legislador ao editar referido enunciado normativo com, entre outras, a finalidade de concretizar os princípios da igualdade e da segurança jurídica, em sua vertente da previsibilidade da atuação estatal.
Como leciona Humberto Ávila157: “[...] a vinculação aos precedentes judiciais é uma decorrência do próprio princípio da igualdade: onde existirem as mesmas razões, devem ser proferidas as mesmas decisões”.
Analisar de que modo um precedente vincula decisões posteriores é essencial, na medida em que confere parâmetros para controle da correta utilização deste instrumento processual. Para tanto, faz-se necessária a diferenciação de dois importantes institutos jurídicos: a ratio decidendi (fundamentos determinantes) e a tese jurídica.
Em que pese o complexo debate doutrinário quanto à delimitação do que seria a ratio decidendi (ou holding) e da sua identificação em casos concretos, pode-se, a partir de uma abstração, compreendê-la como os fundamentos determinantes – de fato e de direito – utilizados por uma decisão para se chegar à conclusão adotada. É, assim, o núcleo da decisão judicial, do qual se pode extrair a regra jurídica generalizável a ser utilizada em casos futuros. Pela identificação da ratio decidendi, extrai-se a norma do precedente158.
Já a tese jurídica não se identifica com a ratio decidendi. Ela descreve, normalmente de modo sucinto, a situação fática e a regra jurídica correspondente.
156 Nesse sentido, inclusive, é o Enunciado 170 do Fórum Permanente de Processualistas Civis: “As decisões e precedentes previstos nos incisos do caput do art. 927 são vinculantes aos órgãos jurisdicionais a eles submetidos”.
157 ÁVILA, Humberto. Teoria da segurança jurídica. 3 ed. São Paulo: Malheiros, 2014, p. 478.
158 DIDIER JR., Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, decisão, precedente, coisa julgada, processo estrutural e tutela provisória, 15. ed., Salvador: Juspodivm, 2020, p. 558-559.
Como bem explicam Teresa Arruda Alvim e Rodrigo Barioni159, ao mesmo tempo em que não tem a pretensão de abranger toda a ratio decidendi, a tese formulada pelo tribunal procura “definir a hipótese de incidência do precedente”. A tese jurídica é um mecanismo de facilitação para a técnica dos repetitivos, que permite a rápida verificação do que é seguramente abrangido pelo precedente.
Dito isso, importante registrar que, como bem leciona Teresa Arruda Alvim, a ratio decidendi é a parte da decisão que, de fato, vincular, ou seja, é a proposição de direito extraída do julgamento, o core da decisão160, o núcleo que emana a força vinculante do precedente, do qual se extrai “a regra jurídica generalizável para outros casos que tratem dos mesmos fatos essenciais”161.
Pois bem. Estar vinculado a um precedente é estar obrigado, enquanto julgador, a adotar determinados raciocínios tomados no precedente, quando verificado que são aplicáveis ao caso presente. Um julgamento que não respeita um precedente formalmente vinculante não pode ser considerado juridicamente correto162.
E essa vinculação pode se voltar tanto contra os juízes hierarquicamente ligados ao tribunal, quanto ao próprio tribunal prolator do precedente. Quando se fala na vinculação dos juízos hierarquicamente inferiores, fala-se em eficácia vertical do precedente. No mesmo sentido, quando se está diante da vinculação do órgão prolator do precedente aos seus próprios julgados, fala-se em eficácia horizontal163.
Dito isso, importante compreender o que o Código de Processo Civil de 2015 buscou quando afirma pela “observância” dos provimentos elencados no artigo 927.
159 ARRUDA ALVIM, Teresa; BARIONI, Rodrigo. Recursos Repetitivos: tese jurídica e ratio decidendi.
In: BIANCHI, José Flávio; PINHEIRO, Rodrigo Gomes de Mendonça; ARRUDA ALVIM, Teresa (Coord.). Jurisdição e Direito Privado: estudos em homenagem aos 20 anos da Ministra Nancy Andrighi. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2020, p. 616.
160 ARRUDA ALVIM, Teresa; DANTAS, Bruno. Recurso extraordinário e recurso especial e a nova função dos Tribunais Superiores no direito brasileiro. 4. ed. São Paulo: RT, 2017. p. 189.
161 ARRUDA ALVIM, Teresa; BARIONI, Rodrigo. Recursos Repetitivos: tese jurídica e ratio decidendi.
In: BIANCHI, José Flávio; PINHEIRO, Rodrigo Gomes de Mendonça; ARRUDA ALVIM, Teresa (Coord.). Jurisdição e Direito Privado: estudos em homenagem aos 20 anos da Ministra Nancy Andrighi. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2020, p. 615.
162 ZANETI JR., Hermes. O valor vinculante dos precedentes. Juspodivm: Salvador, 2015. p. 341-342
163 MARINONI, Luiz Guilherme. Precedentes obrigatórios. 2. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011p. 118-120
A primeira consideração quanto a isso refere-se ao §1º do artigo 927, que impõe que “os juízes e os tribunais observarão o disposto no art. 10 e no art. 489,
§1°, quando decidirem com fundamento neste artigo”. Dessa forma, a interpretação do caput e incisos do art. 927 deve necessariamente levar em conta esses dispositivos.
Como é sabido, o artigo 10164 é o dispositivo que coíbe a chamada decisão surpresa, aquela que é fundamentada em algo que as partes não tiveram a oportunidade de discutir no decorrer do processo, fixando a necessidade de respeito ao contraditório substancial.
Já o artigo 489, §1º, do Código de Processo Civil é aquele que especifica, em nível infraconstitucional, o que não pode ser considerada uma decisão fundamentada. Nos incisos I a IV estão hipóteses de mera remissão ao texto legal, desvio de conceitos jurídicos indeterminados, utilização de “decisões modelo” e não enfrentamento de todos os argumentos que em tese poderiam implicar decisão diversa.
No entanto, é nos incisos V e VI que está a chave para a compreensão do sentido do dever de observância do precedente, inscrito no caput e incisos do art.
927.
O inciso V refere-se à fundamentação para aplicar o precedente à resolução do caso concreto. Já o inciso VI refere-se à fundamentação para afastar o precedente da resolução da demanda.
E para se entender o sentido do dever de observância prescrito no artigo 927, o inciso VI acaba por tornar-se mais importante.
Primeiro, o artigo antevê uma específica sanção associada ao provimento jurisdicional que “deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente”, sem que se demonstre “distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento”. E a sanção é considerar a decisão como não fundamentada (§1º), que, por sua vez, desemboca na sua nulidade, como demanda o art. 93, IX, da CF.
164 Código de Processo Civil, Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
Portanto, repita-se, faz-se necessária a leitura em conjunto do artigo 927, caput e este inciso do §1º do artigo 489, de modo que conclui-se que as decisões devem ser seguidas – se não verificadas as duas exceções (distinguishing ou overruling) – sob pena de nulidade, o que caracteriza claramente um dever jurídico do órgão judicante, acompanhado de uma sanção (nulidade) correspondente ao seu descumprimento.
De forma contrária, percebe-se que este artigo apenas autoriza o afastamento e/ou não aplicação do precedente invocados, se for demonstrada a existência de distinção no caso sob julgamento (distinguishing) ou a superação do entendimento (overrruling).
Sobre esse ponto, Ronaldo Cramer165 escreve que: “a força vinculante não tem relevância se o magistrado concorda com o precedente, pois, nesse caso, a aplicação do precedente ocorre, antes de tudo, pela vontade do juiz. Essa força se justifica na hipótese de o magistrado discordar do precedente”.
Desta feita, o mero discordar do julgador com as razões abordadas no precedente não mais autoriza o magistrado a deixar de aplicá-lo.
Por outras palavras, uma leitura ou interpretação alternativa das razões jurídicas do precedente não autoriza, por si só, o magistrado a adotar entendimento diverso. O afastamento/não seguimento do precedente, apenas por conta da discordância, implica, por isso, falta de fundamentação da decisão (art. 489, §1º, VI, do CPC), o que impõe a decretação de sua nulidade (art. 93, IX, da CF). Não é mais legítima a adoção de uma solução diversa daquela alcançada no precedente e, sobretudo, não cabe ignorar o precedente trazido pela parte.
De forma direta, afirma-se que o conteúdo do precedente, enquanto pertinente ao julgamento do caso concreto, já não se encontra no âmbito de cognição do magistrado, a quem não cabe conhecer legitimamente dessas questões jurídicas.
Agora, a existência de um precedente com força vinculante implica uma redução da extensão do âmbito de cognição judicial. O dever de observância das decisões e enunciados de súmula do artigo 927 é aplicável mediante a necessidade
165 CRAMER, Ronaldo. Precedentes judiciais: teoria e dinâmica. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p.
139.
de o julgador contrastar o caso precedente com o caso presente e, se não encontrar razão para diferenciá-lo ou superá-lo, aplicar a mesma solução jurídica.
Por conseguinte, afirma-se que a vinculação formal de precedentes é instituída pelas regras expressas do artigo 927 e pelo inciso VI do §1º do artigo 489.
Ao passo que aquelas são as normas imperativas que estabelecem a observância obrigatória de certas decisões judiciais (incisos I a V), o inciso VI do artigo 489, §1º fixa o dever atribuído ao julgado de confrontar o precedente invocado pela parte e justificar a sua não aplicação – demonstrando a diferenciação (distinguishing) do caso presente ou a superação (overruling) do caso precedente, sob pena da decisão ser considerada nula por falta de fundamentação.
Por fim, vale registrar que as razões aqui expostas não tornam o precedente automaticamente aplicável e nem transformam o julgador num autômato, um mero “boca-da- súmula”166.
Como dito, o precedente retorna à condição de texto, para sempre ser interpretado pelo magistrado do caso presente. O detalhe é que essa interpretação encontra limite nas razões discutidas e derrotadas no precedente, e que já não podem ser utilizadas de maneira juridicamente válida.
166 STRECK, Lenio Luiz; ABBOUD, Georges. O que é isto - o sistema (sic) de precedentes no CPC?
Disponível em: <http://www.conjur.com.br/2016-ago-18/senso-incomum-isto-sistema-sic- precedentes-cpc>. Acesso em: 31 de julho de 2022.