CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO
As percepções da violência sentida pelos moradores não foi dada de prontidão. Inicialmente, houve uma negação. O relato mais comum quando essa temática era tocada em conversas com moradores, é que há um exagero, ou melhor, um equívoco por parte das agências de notícias no que se refere à violência no bairro. Eles dizem que as agências informam que as mortes que ocorrem na região foram no Curuzu, quando na realidade foram em outra localidade (Pero Vaz, Guarani, etc.).
Um dos moradores, a partir de suas reflexões, ainda explica o porquê desse equivoco: “Os jornais falam que aconteceu no Curuzu porque é uma localidade
famosa. Mas que não era aqui não [que ocorreram]” (Diário de campo, 2011). Por
outro lado, outra pessoa comentou ser importante um estudo dentro da grande temática da prevenção da violência: “Muito bom esse seu estudo, os meninos
precisam ouvir essas coisas” (Valdemar, 32 anos, Diário de campo, 2011) 50.
50
Note-se que foi a primeira pessoa que abordou a temática da violência sem reatividade num primeiro contato; todas as demais reagiram dizendo que ali não tinha violência. O máximo que ocorria de aceitação era quando achavam interessante o estudo, mas sugeriam que o recorte fosse outro, como contar a historia do bairro segundo a ótica dos moradores.
41 Ao olhar os jornais impressos de maior veiculação no Curuzu51, as notícias que mais predominam tendo o nome do bairro citado envolvem situações de violência: sejam ocorrências no local, sejam citando moradores envolvidos em situações de violência em outro bairro 52. As demais notícias informam atividades da organização carnavalesca e educacional mais famosa na localidade.
Nota-se que essas notícias expressam um olhar dúbio acerca da localidade. Ao mesmo tempo em que reforçam o imaginário de ser uma localidade violenta (forma comum com que se veem os bairros populares), também informam a beleza da estética afro e do valor cultural do bairro representado em músicas famosas 53.
Todavia, é bom lembrar que a mídia (os jornais impressos estão inclusos) costuma noticiar o que foge à regra, o que é incomum, o que pode servir como “espetáculo”. Ericson (1987) sinaliza que as agencias de noticias “sobre- apresentavam” os fatos de crime quando comparados a dados oficiais. Afinal, a mídia busca, para além de informar o leitor, entretê-lo com assuntos que mobilizam o consumo do assunto e, por consequência, do produto da mídia.
Desse modo, parece que, tanto nos discursos dos moradores quanto no que é noticiado, há certa ambiguidade acerca dos elementos significativos (características
51
O jornal mais lido pela população do Curuzu é o Massa justamente pela acessibilidade ofertada pelo preço (o mais barato de todos: R$ 0,50), seguido pelo Correio da Bahia, e não ouvi ninguém comentar leitura do Jornal A Tarde (jornal preferido pela camada considerada de opinião e mais crítica na cidade), a não ser o relato de um rapaz que é assessor de vereador.
52
Ao analisar os títulos das notícias entre os jornais de circulação mais lidos na localidade (Massa e Correio da Bahia, eventualmente, A Tarde) no período de fev./2010 a fev./2012, foi possível identificar três grandes grupos de notícias quando referem o Curuzu. Segundo a ordem de maior peso global de todos os jornais, foram as seguintes as categorias encontradas: a) violência, com 50% das notícias; b) Cultura e Educação, com 34% dos artigos, sendo que, no Jornal A Tarde, essa categoria tem maior peso, e c) Informações úteis e utilidade pública, com 16% dos títulos. O grande grupo denominado violência concentrou, em sua maioria, notícias de mortes e/ou crimes (assaltos, brigas domésticas, brigas de vizinhos e agressões no trânsito) que ocorreram no Curuzu ou que envolviam pessoas residentes do bairro. No que se refere a Cultura e Educação, os artigos veiculados referem- se, em sua maioria, a eventos ligados ao Ilê Aiyê (Shows, parcerias, clipes, carnaval, eventos, abertura de cursos, visita da entidade a outro local ou parceria com outro artista, etc.), mas ocorreram também noticias sobre o Dia da Consciência Negra sobre a participação do Ilê nas comemorações do dia. E, por fim, o grupo de notícias Informações úteis e utilidade pública concentra informações sobre aviso de falta de abastecimento de água e/ou energia, assim como algumas informações sobre trânsito e poucas notícias sobre ‘desastres’ com as chuvas na localidade e/ou arredores como Queimadinho e Pero Vaz (ver Apêndice I).
53
Muitas músicas produzidas, seja pelos próprios blocos afros ou por outros artistas, homenageando esses blocos– em especial, o primeiro deles a surgir (Ilê Aiyê) – enaltecem a beleza, a estética e cultura negra, bem como referenciam a Liberdade e o Curuzu. Algumas dessas músicas são: “Beleza Pura” (Caetano Veloso), "Um canto de afoxé para o bloco do Ilê" (Caetano Veloso e Moreno Veloso), “O mais belo dos belos” (Daniela Mercury), “O negrume da noite” (Caiuba e Paulinho do Reco), “Que bloco é esse?” (Paulinho Camafeu), “Ilê! Perola Negra (O canto do negro)” (Daniela Mercury), entre outras.
42 principais) que marcam e configuram o bairro. São atributos e sentimentos negativos e positivos atribuídos ao lugar. Essa apropriação da dimensão afetiva, segundo Corrêa (1998), passa a associar-se à identidade dos grupos e à afetividade espacial
54
, isto é, com o lugar. O espaço, portanto, pode ser entendido como tendo essa afetividade e identidade ambígua: violência e efervescência cultural.
Vale salientar que o Curuzu, anteriormente conhecido como a “temível linha 8” composta por moradores “bagunceiros”, teve sua história “recontada” a partir da influencia do Ilê Aiyê. Essa organização cultural (carnavalesca) e educacional, que nasceu no bairro, influencia de forma marcante a história e a ressignificação positiva desse território, de modo que a localidade, onde atualmente fervilha a cultura afro, é identificada como um local composto por artistas e trabalhadores honestos (MORALES, 1991).
Apesar da ambiguidade identitária do bairro, marcada tanto pela ressignificação da história quanto pelo discurso inicial dos moradores e das noticias de jornais, com o passar do tempo, outras formas de violências passaram a ser contadas e também sentidas com o convívio. Situações cotidianas de violências55 e momentos que beiravam ao sentimento de “terror” 56
, para uns, foram sendo trazidos à tona durante as andanças no bairro.
Ao final do campo, foi possível perceber que as falas dos moradores revelavam um sentimento de insegurança e preocupação com o bairro e com a cidade como um todo. Um dos moradores, via conversa telefônica, comentou que
54
Essa dimensão afetiva tem a ver com fatos que vivenciou no lugar. Situações que trazem lembranças (boas ou ruins) que constituem a história do sujeito (individual ou coletivo), com a construção de sua própria personalidade, de sua própria identidade. Moradores até comentam que esse sentimento de “amor àquilo ali”, “àquele barro vermelho, porque a terra dali é vermelha” só tem quem viveu ali “desde pequeno”. Essas falas dos moradores dão uma sensação de que é um sentimento de pertença misturado com sentimento de constituição de sujeito por meio do lugar. E ainda completam que mesmo quem veio morar ali depois de adulto, constrói laços, “faz amizades”, mas não é a mesma coisa, “não tem o mesmo sentimento”, nem “o mesmo amor”.
55
Foram vivenciadas diversas situações de violência durante o período de convivência no bairro: desde atropelos de moto, mulheres espancadas, agressões verbais até relatos de homicídios.
56
Teve um momento especifico, no final do ano de 2011, em que todas as idosas estavam assustadas com a possível guerra por pontos de vendas entre as “bocas” do Curuzu e da San Martin. Segundo contaram, foi o primeiro fato que marcou a briga entre as “bocas”. Essa situação chegou a tal ponto que o Jornal Massa! noticiou que o Curuzu estava com ‘toque de recolher’: “Ontem, o MASSA! publicou reportagem relatando o temor dos moradores do local, por causa da guerra que envolve os traficantes da região contra os bandidos da localidade do Barro Branco, na avenida San Martin, que ameaçaram invadir o local. Os criminosos do Barro Branco ordenaram os moradores a não saírem de casa, depois das 8h da noite” (Massa!, 27 out. 2011). De fato, algumas pessoas ficaram com receio e evitaram sair, outras deixaram de realizar suas atividades de trabalho e lazer.
43
“aqui tá ficando difícil... ontem mesmo tava conversando com ‘fiinho’ no skype que teve um tiro aqui embaixo no Curuzu [atrás da Rua da Gato] e ele falou que lá [em outro país no norte da Europa] rola nada disso [...]. A gente tem que andar ligado em tudo, [...] a não ser nas festas de rua que dá para andar” (Valdemar, 32 anos)
Todavia, a percepção dos moradores nem sempre foi permeada nem por negação da violência ou por insegurança. Muitos contam como era a vida desde a infância, perpassando, por meio de sua historia, a visão que detêm sobre a violência no bairro e como esta foi mudando ao longo do tempo.