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2.2 Teoria, Modelo e Realidade

2.2.3 A visão modelomediadora

Atualmente, discute-se uma interpretação modelomediadora (MORRISON, 2015; MORGAN; ADÚRIZ-BRAVO et al, 2014; ADÚRIZ-BRAVO, 2012; MORRISON, 1999; SUÁREZ, 1999), que considera a realidade, a teoria e os modelos como distintos entre si. Nesta interpretação, os modelos consistiriam em objetos semiautônomos, não sendo necessariamente dependentes, portanto, nem inteiramente da teoria e nem inteiramente dos dados acerca da realidade, definindo-se, portanto, uma relação triádica teoria ⇄ modelo ⇄ realidade.

Tal interpretação é distinta das visões sintática e semântica das teorias científicas. A visão sintática considera o próprio mundo como um possível modelo para a teoria, na medida em que esta teoria é um conjunto de axiomas e, implicitamente, define os modelos possíveis para os quais esta teoria é verdadeira. Assim, se o mundo faz parte destes modelos possíveis, então a teoria é verdadeira, se não faz parte, é falsa. Desta forma, o próprio mundo torna-se modelo para a teoria e definir-se-ia apenas a relação diádica teoria ⇄ mundo. A construção dos modelos, neste caso, reduz-se à determinação de quais especificidades do mundo tornam a teoria verdadeira, reforçando a ideia já concebida de que a totalidade do conhecimento científico sobre o mundo está codificada nas teorias.

A visão semântica, por sua vez, ao considerar que as teorias e os modelos são indistinguíveis (teorias são coleções de modelos), permite apenas a relação diádica modelo ⇄ mundo.

Conforme já dito, a noção modelomediadora compreende uma relação triádica teoria ⇄ modelo ⇄ mundo (SUÁREZ, 1999), essencialmente diferente das noções sintática e semântica. Esta relação triádica da interpretação modelomediadora ampara-se na noção de que os modelos não são totalmente derivados nem das teorias, nem dos dados do fenômeno, senão apenas parcialmente derivados, o que lhes confere certa autonomia para atuar como ferramentas epistêmicas para diversas tarefas – entre elas a mediação, a representação e a aprendizagem.

Embora seja comum o pensamento de que os modelos são construídos inteiramente a partir da teoria, ou dos dados empíricos, só poderemos conceber a suas funções epistêmicas se

concebermos, também, que a sua construção pode se dar de modo parcialmente independente das teorias, ou dos dados empíricos, além de agregar elementos externos3 a ambos (analogias, metáforas, visões políticas, adequação contextual etc.). Além disso, quando usamos ou manipulamos um modelo, seu poder como ferramenta epistêmica torna-se aparente: fazemos uso das características de independência parcial, autonomia funcional e poder representacional para aprender alguma coisa com a manipulação. Desta forma, os modelos são considerados tanto um meio quanto uma fonte de conhecimento, o que explica sua grande aplicação e uso extensivo na ciência moderna (MORGAN; MORRISON, 1999).

A autonomia parcial que Morgan e Morrison atribuem pode ser identificada quando se examina a construção e o uso dos modelos pela comunidade científica a partir de alguns aspectos relevantes: os modelos podem auxiliar na própria elaboração das teorias, o que se contrapõe à ideia de que os modelos estariam hierarquicamente abaixo das teorias ou que seriam meros acessórios ilustrativos; os modelos podem ser utilizados para analisar as consequências das teorias em situações concretas, uma vez que na construção e no uso dos modelos os cientistas podem recorrer a elementos externos à própria teoria; os modelos podem ser utilizados como meios de experimentação e/ou como instrumentos de medição, uma vez que os modelos têm a capacidade de simular uma situação concreta; os modelos podem ser utilizados como instrumentos de projeto e produção de tecnologias, uma vez que os modelos contêm informação relevante sobre o mundo e, para além disso, também conhecimentos que não estão nas teorias (DUTRA, 2013).

Acerca da atuação dos modelos como mediadores entre a teoria e os fenômenos, Morrison (2015, p. 119) faz a seguinte consideração:

(...) dois diferentes sensos de mediação. No primeiro caso, nós modelamos um sistema físico de uma forma particular a fim de perceber como as leis e conceitos de uma teoria podem ser aplicadas com fins de explicação e predição. Neste caso, o ponto de partida é algum sistema físico acerca do qual há insuficiente conhecimento. Então, constroem-se modelos na tentativa de aprender mais acerca de suas características hipotéticas. No segundo caso, o modelo também funciona como uma forma de aplicar a teoria, mas o ponto de partida seria a própria teoria. A fim de aplicar leis altamente idealizadas e abstratas ao fenômeno, primeiro deve-se construir modelos que representem características específicas do sistema em que a teoria será aplicada.

3 Estes elementos externos não são, necessariamente, externos à ciência, como se estivéssemos dizendo que os

cientistas buscam informações em pseudociências, mas externos à própria construção teórica, ou aos próprios dados. Por exemplo, modelos construídos para elucidação de uma teoria para a comunidade científica não conterão os mesmos elementos dos modelos construídos para a elucidação da mesma teoria com fins de ensino de Ciências. E mesmo no caso específico da comunidade científica, a visão política dos grupos dominantes certamente estará presente, de alguma forma, na construção do modelo (Boumans, 1999).

A princípio, a citação acima pode parecer confusa, já que Morrison fala de dois sensos de mediação, mas o modelo, nos dois casos, tem um funcionamento idêntico: aplicação da teoria ao fenômeno. No entanto, percebe-se que a autora faz questão de mostrar onde está a diferença: na construção do modelo. O primeiro caso indica que tal construção tem como referência o próprio fenômeno, ou sistema físico, sobre o qual ainda se conhece pouco. A construção do modelo levará em conta as abstrações e idealizações que serão feitas acerca do sistema físico a fim de explica-lo à luz da teoria.

Já o segundo caso se aplica muito bem na Química Teórica e detecção de novos Elementos Químicos. Na Química teórica, por exemplo, recorre-se frequentemente aos gráficos das simulações computadorizadas para testar a teoria, bem como para aplica-la a diversos contextos. O próprio uso das fórmulas químicas para representar as substâncias, ou das equações químicas para representar os processos de transformação também são exemplos de usos de modelos para antecipação de experimentos, uma vez que os cálculos teóricos possíveis a partir das fórmulas e equações químicas substituem as medidas concretas das substâncias envolvidas nas transformações. A construção do modelo, neste caso, tem como referência a própria teoria e o modelo funciona como substituto do próprio sistema físico a que o modelo se refere.

Nos dois casos apresentados, o modelo serve como uma fonte de conhecimento mediado ou porque conhecemos pouco acerca do sistema físico, ou porque as teorias são altamente idealizadas. Se este é o caso, então o que sabemos, de fato, é como o modelo se comporta em certas circunstâncias (MORRISON, 2015) e não, necessariamente, como o fenômeno ocorre. Tal verificação implica na consideração de que, então, coexistem dois mundos epistemologicamente distintos: o mundo real, exterior à nossa mente, e o mundo da ciência, fruto das representações científicas acerca daquele mundo real.