CAPÍTULO 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.5 A complexidade do sistema visual
2.5.2 A visão e suas transformações
A experiência cotidiana e a linguagem corrente nos dizem que vemos com os olhos. Acrescentar que são apenas um dos instrumentos e sem dúvida o mais complexo. A visão é, de fato, um processo que emprega diversos órgãos especializados. Segundo Aumont (1993) numa primeira aproximação pode-se dizer que a visão resulta de três operações distintas e sucessivas: ópticas, químicas e nervosas.
2.5.2.1 Transformações ópticas
Os raios luminosos provenientes de uma fonte (o sol por exemplo) vem atingir o objeto (suponhamos um bastão branco), que deles refletem uma parte em todas as direções; entre os raios refletidos, certa quantidade penetra na abertura da câmera obscura e vai formar uma imagem (invertida) do objeto sobre a parede do fundo. Por ser uma luz bastante difusa, apenas uma pequena quantidade alcança essa parede: a imagem é, portanto, extremamente pálida. Para aumentar sua luminosidade é necessário que se intensifique a quantidade de luz que penetra na câmera obscura, alargando a abertura. Para atenuar esse defeito é que a partir do século XVI foram inventadas as lentes convergentes: pedaços de vidro especialmente talhados para coletar a luz em toda a sua superfície e concentrá-la em um único ponto.
Esse é o principio da “captura” de uma grande quantidade de raios sobre uma superfície, e da concentração deles sobre um ponto, que muitos instrumentos de óptica utilizam, embora hoje a maioria tenha objetivos mais complexos, com o uso de combinações de lentes, é esse mesmo princípio que funciona no olho.
O Olho é um globo aproximadamente esférico, de diâmetro em torno de dois centímetros e meio, revestido por uma camada em parte opaca (a esclerótica), e em parte transparente. É esta última parte, a córnea, que garante a maior parte de convergência dos raios luminosos. Atrás da córnea encontra-se a íris, músculo enfíncter comandado de modo reflexo, que delimita em seu centro uma abertura, a pupila, cujo diâmetro vai de 2 a 8 milímetros aproximadamente (Aumont, 1993, p.19). A pupila abre-se para deixar entrar luz, quando esta é pouco intensa, e fecha-se em caso contrário. Quanto mais a pupila se fechar maior será a profundidade de campo. Isso pode ser facilmente verificado, por exemplo, quando se produzem aberturas artificiais da pupila pela atropina (para examinar o fundo de olho ou tratá-lo); não se vê “mais claro”, mas “menos nítido”. O tamanho da pupila varia, espontaneamente, em função de estados emocionais diversos: medo, raiva, estados induzidos por psicotrópicos, etc.
Enfim, a luz que atravessou a pupila deve ainda atravessar o cristalino, que a faz convergir mais ou menos. O cristalino é do ponto de vista óptico, uma lente biconvexa, de convergência variável. É esta variabilidade que se chama acomodação. Acomodar é fazer variar a convergência do cristalino ao torná-lo mais ou menos abaulado, em função da distância da fonte da luz. Para manter a imagem nítida no fundo do olho será tanto mais necessário aumentar a convergência dos raios quanto mais próxima estiver a fonte luminosa. É ainda um processo reflexo, bastante lento, já que é preciso um segundo para passar da acomodação mais próxima à mais distante. É costume comparar o olho a uma máquina fotográfica em miniatura: está certo, desde que se atente que a comparação só se aplica à parte puramente óptica do processo da luz.
2.5.2.2 Transformações químicas
O fundo do olho é revestido por uma membrana, a retina, na qual se encontram inúmeros receptores de luz. Esses receptores são de dois tipos: os bastonetes (em torno de 120 milhões) e os cones (em torno de 7 milhões); estes últimos estão presentes nas imediações da fóvea, espécie de pequena cavidade da retina, quase sobre o eixo do cristalino, particularmente rica em receptores.
Bastonetes e cones comportam moléculas de pigmento (em torno de 4 milhões de moléculas por bastonete) contendo uma substância, a rodopsina, que absorve muitos luminosos, e decompõe-se, por reação química, em duas outras substâncias. Uma vez operada essa decomposição, a molécula em decomposição nada mais pode absorver; em compensação, se for interrompido o envio de luz, a reação se inverterá e a rodopsina se recomporá (é preciso permanecer no escuro por volta de três quartos de hora (20 minutos) para que todas as moléculas de redopsina da retina se recomponham, mas a metade já é recomposta ao término de 5 minutos): pode-se então tornar a pôr em funcionamento essa molécula.
Dito de outra forma, a retina está diante de um gigantesco laboratório de química. É muito importante compreender, entre outras coisas, o que se chama imagem retiniana nada mais é do que a projeção óptica obtida sobre o fundo do olho, graças ao sistema de córnea+pupila+cristalino – e que essa imagem, ainda de natureza óptica, é tratada pelo sistema químico retiniano, que a transforma numa informação de natureza totalmente diferente. É essencial compreender que não vemos nossa imagem retiniana, apenas um oftamologista que utiliza aparelho especial pode percebê-la.
2.5.2.3 Transformações nervosas
Cada receptor retiniano está ligado a uma célula nervosa, por um relé (que se chama sinápse); cada uma dessas células está, por meio de outras sinápses, ligada por sua vez a uma célula que constituem as fibras do nervo óptico. As comunicações entre essas células são muito complexas: aos dois níveis sinápticos somam-se múltiplas ligações transversais, que agrupam as células em rede. O nervo óptico parte do olho e chega a uma região lateral do cérebro, a articulação, de onde novas conexões nervosas saem em direção a parte posterior do cérebro, para chegarmos ao córtex estriado.
De modo muito esquemático, pode-se dizer que essa rede extremamente densa e complexa representa um terceiro e último estágio de processamento de informação, tratada de óptica e em seguida de química. Em regra geral, não há correspondência ponto a ponto, mas ao contrário, multiplicação de correspondências transversais: o sistema visual não se contenta em copiar a informação; processa-a em cada estágio. Assim, por exemplo, as sinápses não são simples relés; tem ao contrário papel ativo, algumas sendo ”excitadoras” e outras ”enibidoras”.
Essa parte do sistema perceptivo é mais importante, mas também a menos conhecida, já que se começou a ter idéias um pouco exatas sobre sua estrutura e seu funcionamento há apenas trinta anos. Ainda não se sabe com exatidão como
a informação passa do estágio químico ao estágio nervoso (a própria natureza do sinal nervoso, que apenas metaforicamente é comparável a um sinal elétrico, não é total e clara). Se o olho se assemelha até um certo ponto a uma máquina fotográfica, se a retina é comparável a uma espécie de chapa sensível, o melhor da percepção visual realiza-se depois, através de um processo de tratamento da informação que, como todos os processos cerebrais, está mais próximo de modelos informáticos ou cibernéticos do que modelos mecânicos ou ópticos (“mais próximos não querendo evidentemente dizer que esses modelos sejam necessarimente adequados”) (AUMONT,1993,p.22).