CAPÍTULO II – ELEMENTOS PLÁSTICOS E SEMÂNTICOS DA CHARGE
2.4 Elementos significantes da imagem em sua materialidade
2.4.2 A visibilidade do objeto através da forma
Os objetos representados no plano plástico da imagem precisam criar delimitações sobre o mesmo em relação a outros objetos e ao próprio plano. Neste sentido a linha volta a cumprir seu papel ao definir estes limites e tornar visíveis os objetos, desenhos, através de suas formas.
Para começar a falar de forma como elemento morfológico da imagem é importante delimitá-la em duas principais características: a forma e a estrutura. Qualquer objeto representado em uma imagem apresentará as duas características porém, independente das variações escalares que o mesmo possa sofrer neste plano espacial, sua estrutura permanecerá a mesma. A forma sim poderá variar. A estrutura é a propriedade perceptiva responsável pelo reconhecimento visual do objeto, sempre invariável (VILLAFAÑE, 2000, p. 127). O conceito de um objeto se baseia em sua estrutura.
Para Dondis (1997, p. 57), existem três formas básicas: quadrado, círculo e triângulo equilátero sendo que a autora atribui significados a cada uma delas. O quadrado expressa honestidade, enfado, retidão, perfeição, etc. Ao triângulo ação, conflito, tensão. Já o círculo, infinitude, proteção. Acrescentaria ao círculo significados de fluidez, unidade e comunhão.
Numa relação esquemática linha-forma-cor, Kandinsky (2005, p. 65) referencia o quadrado e seu ângulo reto à cor vermelha; o triângulo e seu ângulo agudo, à cor amarela; já o círculo e seu ângulo obtuso é relacionado à cor azul. Percebe-se clara relação de valores plásticos neste esquema proposto por Kandisnky, e que é muito útil à pintura. Os significados de uma forma associam-se aos significados de uma cor, quando então os dois remetem a sentidos semânticos correlatos que estão fora do texto visual.
Dondis (1997, p. 59), ainda tratando da forma, explica que todas as formas básicas são planas e simples e expressam três direções visuais: a linha reta (horizontal e vertical), a diagonal e o círculo, que é precedido pela linha curva. Fica claro aqui o resgate feito do conceito de linha de Kandinsky (2005), mas é interessante destacar os significados que Dondis (1997, p. 60) atribui a estas linhas já conceituadas por Kandinsky (2005). Segundo ela, a relação do homem com a linha horizontal/vertical é primária, representa a estabilidade visual, através dela o homem consegue se situar e localizar no meio ambiente.
A direção diagonal da linha revela a força direcional mais instável, perturbadora, ameaçadora. E a linha curva, formadora do círculo, produz significados que remetem à repetição, abrangência, calidez (DONDIS, 1997, p. 60). Este pensamento é materializado em
praticamente todas as charges do corpus deste trabalho uma vez que, existe uma forte representação do humano nestas formações discursivas preocupadas em retratar situações factuais, cotidianas que afetam sujeitos espalhados pelos mais variados discursos. Materializa- se plasticamente situações cotidianas.
Numa visão estética, considera-se a forma como o conjunto proposto na obra e não como significados individuais expressos por elementos isolados. Acreditam que “o objeto estético não tem uma forma, ele é uma forma” (PERAZZO; VALENÇA, 1997, p. 94). Nosso trabalho opcionalmente não seguirá por este caminho, pois a estética é fruto de uma estratégica elaboração de elementos plásticos de primeira ordem na imagem e das suas relações. Antes de analisar o conjunto da imagem, quero atentar para a riqueza das partes.
A imagem de um objeto é reconhecida mediante a combinação de duas estruturas: a do conceito visual, que vem a ser uma imagem de tal objeto armazenada na memória de quem observa, com a estrutura do próprio objeto. No momento em que os traços estruturais, que existem no objeto, forem semelhantes aos padrões existentes na memória de quem os observa, haverá reconhecimento da imagem. Villafañe (2000, p. 128) exemplifica usando a figura do cachorro, quando para reconhecer a imagem do mesmo não é necessário conhecer todas as raças existentes e sim, sua estrutura dominante.
O reconhecimento de um objeto pela sua forma dependerá do grau de simplicidade que sua estrutura apresentar. Quanto mais simples, mais reconhecível será. A percepção visual tende sempre à simplicidade. Como a estrutura da imagem é invariável, o que a torna simples ou não é o número de traços da forma. Villafañe (2000, p. 128) analisa a simplicidade de uma imagem pelo método quantitativo e qualitativo, sendo o primeiro responsável pelo levantamento dos elementos que definem uma estrutura. Estes elementos dividem-se em dois: os que tem valor estrutural, chamados r.e.g.19 e os que dependem da estrutura para significar, chamados pelo autor de traços da forma.
A simplicidade da forma e o reconhecimento da imagem que ela proporciona é notória nas caricaturas contidas nas charges. A caricatura procurará a distorção, o exagero de uma forma já conhecida. Porém, nem a mais elaborada distorção caricatural será reconhecível, se não for preservado ao menos um traço estrutural para lembrar o verdadeiro rosto, como mostra a Figura 9.
Figura 9 – Caricatura de John Lennon com traços minimistas, praticamente estruturais
Fonte: Sponholz (2010).
Ou seja, a competência do desenhista está em captar este traço estrutural, mínimo do rosto e representá-lo com formas distorcidas. Não é por acaso que as mais belas e originais caricaturas são as feitas com poucos traços (estruturais).
Esta técnica também é usada para o projeto de monumentos que irão representar lugares, cidades. Sua forma precisa ser simples para ser reconhecida e facilmente representada com poucos traços. É o caso da torre Eiffel em Paris, do Cristo Redentor na cidade do Rio de Janeiro e da Torre de Pizza, na Itália. Estruturas que se tornam símbolos. Os símbolos requerem esta simplificação radical da forma, como explica Dondis (1997, p. 92), que para ser eficaz, um símbolo precisa, além de ser reconhecido, ser lembrado e reproduzido. Estas facilidades, se atendidas, poderão tornar o símbolo pleno, um verdadeiro código compreendido universalmente.
Nas imagens mais complexas, produzidas com estruturas que requerem um modo analítico mais próximo para determinar sua simplicidade, Villafañe (2000, p. 132) elenca dois princípios a serem observados nestas imagens, a parcimônia e a ordem. Estes ditam fatores que interferem na simplicidade de uma imagem. A narrativa irá agregar aspectos do suporte em que foi originada em sua forma. O cinema e os quadrinhos são narrativas que apresentam estruturas mais simples pelos aspectos de sequencialidade e desenrolar de ações que oferecem.
A unificação de agentes plásticos e um repertório limitado dos mesmos também colaboram para a busca da simplicidade estrutural da imagem. O autor aqui exemplifica a forma sóbria com que é usada a linha que, ao mesmo tempo em que define contornos, é justaposta para gerar efeito de volume e sombras.
Com isto posto, é possível chegar-se a uma economia da forma buscando sempre o resguardo da estrutura do objeto e a harmonia dele com outros agentes plásticos.