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3 A LEI Nº 1.104/2015 ENQUANTO RESPOSTA PARA O PROBLEMA

3.2 A Lei do Feminicídio – Lei nº 13.104 de 9 de março de 2015

3.2.2 As respostas que a Lei do Feminicídio pretende fornecer

3.2.2.1 A visibilidade para o problema do feminicídio

A reivindicação específica para criação de leis criminalizando o feminicídio no Brasil seguiu o modelo latino-americano e partiu de ativistas, pesquisadoras e políticas feministas e/ou defensoras dos direitos humanos, que

195 BRASIL. Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Relatório final. Brasília: Senado Federal,

2013. Disponível em:<https://www12.senado.leg.br/institucional/omv/entenda-a- violencia/pdfs/relatorio-final-da-comissao-parlamentar-mista-de-inquerito-sobre-a-violencia-contra-as- mulheres>. Acesso em: 03/01/2018.

196 BRASIL. Senado Federal. Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Parecer. Brasília,

DF: Senado, 2013b. (Relatora: Senadora Ana Rita). Disponível em: < http://legis.senado.leg.br/sdleg- getter/documento?dm=3609442&disposition=inline>. Acesso em: 16/01/2018.

197 ONU MULHERES. Modelo de protocolo latino-americano para investigação de mortes

violentas de mulheres (femicídios/feminicídios). Brasil, 2014. Disponível em: http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2015/05/protocolo_feminicidio _publicacao.pdf. Acesso em: 08/01/2019.

198 SENADO FEDERAL. Projeto de Lei do Senado nº 292/2013. Disponível em:

<http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getPDF.asp?t=133307&tp=1>. Acesso em: 01/12/2018.

199CHIAROTTI, Susana; PÉREZ, Cecilia Heraud (Org.). Contribuciones al debate sobre la

tipificación penal del feminicidio/femicidio. Lima: CLADEM. 2012. Disponível em:< http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-

content/uploads/2013/10/CLADEM_TipificacaoFeminicidio2012.pdf>. Acesso em: 12/12/2018.

200 OLIVEIRA, Clara Flores Seixas de. Do Pensamento Feminista ao Código Penal: O Processo

de Criação da Lei do Feminicídio no Brasil. (Tese de Mestrado Em Ciências Sociais – UFBA).

Disponível em: <

https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/24650/1/disserta%C3%A7%C3%A3o_%20vers%C3%A3o%20 final%20depositada.pdf>. Acesso em: 02/02/2018.

apostavam, sobretudo, na “criação de um tipo penal como forma de dar visibilidade à gravidade do fenômeno.”201Um dos principais argumentos para aqueles que defendem a tipificação do feminicídio é tornar visível a existência de homicídios de mulheres por razões de gênero, uma vez que elas são assassinadas em contextos em que os homens não costumam ser assassinados e é preciso expor esses contextos, como aponta Anthony202.

Nesse sentido é que, conforme o Senado203, a qualificadora do homicídio, o feminicídio, tem como objetivo dar visibilidade ao crime cometido contra a mulher. E, segundo o Protocolo204 , o uso do conceito de feminicídio, e sua diferença com o homicídio, permite dar visibilidade à expressão extrema de violência resultante da posição de subordinação, marginalidade e risco no qual as mulheres se encontram.

A importância de tipificar o feminicídio seria, assim, uma maneira de o Estado brasileiro reconhecer a existência e a gravidade do problema, ou seja, que as mulheres estão sendo mortas por questões de gênero. Pretende-se visibilizar as razões dos crimes e sua relação com as questões de gênero, assim como a gravidade, o alto índice de ocorrência deste tipo de violência. A lei penal funcionaria, então, como um atestado da presença do feminicídio enquanto problema social, com o reconhecimento do compromisso, do interesse e da responsabilidade do Estado com o tema. É nesse sentido, que o Mapa da Violência205 defende que a tipificação representa um esforço por parte do poder legiferante nacional em dar visibilidade a um problema que vem se tornando endêmico em todo o país. E, o o Projetio de Lei nº 292/2013206 aponta que a importância da lei está em reconhecer que mulheres

201CHIAROTTI, Susana; PÉREZ, Cecilia Heraud (Org.). Contribuciones al debate sobre la

tipificación penal del feminicidio/femicidio. Lima: CLADEM. 2012. Disponível em:< http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-

content/uploads/2013/10/CLADEM_TipificacaoFeminicidio2012.pdf>. Acesso em: 12/12/2018. P. 37.

202 ANTHONY, Carmen. Compartilhando critérios e opiniões sobre femicídio/feminicídio. In:

CHIAROTTI, Susana; PÉREZ, Cecilia Heraud (Org.). Contribuições ao debate sobre a tipificação penal do femicídio/feminicídio. Lima: CLADEM, 2012. Disponível em:< http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-

content/uploads/2013/10/CLADEM_TipificacaoFeminicidio2012.pdf>. Acesso em: 12/12/2018. P. 165.

203 BRASIL. Senado Federal. Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Parecer. Brasília,

DF: Senado, 2013b. (Relatora: Senadora Ana Rita). Disponível em: < http://legis.senado.leg.br/sdleg- getter/documento?dm=3609442&disposition=inline>. Acesso em: 16/01/2018.

204 ONU MULHERES. Modelo de protocolo latino-americano para investigação de mortes

violentas de mulheres (femicídios/feminicídios). Brasil, 2014. Disponível em: http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2015/05/protocolo_feminicidio _publicacao.pdf. Acesso em: 08/01/2019. P. 27.

205 MAPA DA VIOLÊNCIA 2015. Homicídio de Mulheres no Brasil. Disponível em:

<http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf>. Acesso em: 04/12/2018.

estão sendo mortas pela razão de serem mulheres, expondo a fratura da desigualdade de gênero que persiste em nossa sociedade.

Ademais, com uma maior visibilidade, haverá o estímulo ao debate geral, incentivando a cooperação e a participação da sociedade, compreendendo as entidades privadas e atores públicos não estatais na prevenção da violência contra as mulheres, como aponta CLADEM207. Assim, o fenômeno poderá ser visível e presente na opinião e nos espaços públicos, bem como nos espaços privados, uma vez que, muito embora o feminicídio sempre tenha existido, antes praticamente não aparecia no debate público brasileiro, ficando encoberto pela “ violência doméstica e familiar”, sendo que, com a nomeação, entende-se que haverá observação de todas as suas possíveis implicações e sentidos.

A doutrina208, percebe, então, a lei como um esforço de lançar luzes sobre algo que estava oculto e uma tentativa de politizar algo que foi naturalizado - algo que não foi observado e reconhecido em seu contexto de produção, qual seja patriarcal e necropolítico209, devendo utilizar-se de todos os meios disponíveis para tanto (inclusive a penalização). Dessa forma, López210 defende que é um mito que o Direito Penal seja a ultima ratio, sendo viável a tipificação quando o Estado entende a conduta suficientemente grave. E Gomes211 considera que negar – social, cultural e até juridicamente – a existência do fenômeno é ser complacente com sua

<http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getPDF.asp?t=133307&tp=1>. Acesso em: 01/12/2018. P. 4.

207 ANTHONY, Carmen. Compartilhando critérios e opiniões sobre femicídio/feminicídio. In:

CHIAROTTI, Susana; PÉREZ, Cecilia Heraud (Org.). Contribuições ao debate sobre a tipificação penal do femicídio/feminicídio. Lima: CLADEM, 2012. Disponível em:< http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-

content/uploads/2013/10/CLADEM_TipificacaoFeminicidio2012.pdf>. Acesso em: 12/12/2018. P. 50.

208 MARTÍNEZ, Ana María de la Escalera. Feminicidio: Actas de denuncia y controvérsia, 2010. In

GOMES, Isabel Solysko. Feminicídios e Possíveis Respostas Penais: Dialogando com o feminismo e o Direito Penal. Periódico do núcleo de Estudos e pesquisas sobre gêneros e Direito. Direitos Humanos e Políticas públicas sobre gênero. n. 1, ano 2015. P. 193.

209 Achille Mbembe formula o conceito de necropolítica como o poder do Estado de ditar quem deve

viver e quem deve morrer. É um poder de determinação sobre a vida e a morte ao desprover o status político dos sujeitos. Trata-se de uma política que, a partir da exclusão de determinadas minorias (no caso das mulheres, a invisibilidade das violências sofridas), leva ao seu extermínio. Fonte: MBEMBE, Achille. Necropolítica. Editora Martins Fontes Paulista. 1ª ed. 2018.

210 LOPEZ, Liz Ivett Meléndez. Mesa de Debate Internacional sobre Feminicídio/Femicídio. In:

CHIAROTTI, Susana; PÉREZ, Cecilia Heraud (Org.). Contribuições ao debate sobre a tipificação penal do femicídio/feminicídio. Lima: CLADEM, 2012. Disponível em:< http://www.compromissoeatitude.org.br/wp-

content/uploads/2013/10/CLADEM_TipificacaoFeminicidio2012.pdf>. Acesso em: 12/12/2018. P. 205.

211 GOMES, Izabel Solyszko. Feminicídios e possíveis respostas penais: dialogando com o

feminismo e o direito penal. In: Revista Gênero e Direito. João Pessoa, v. 4, n. 1, p. 188-218, 2015. P. 102. Disponível em: <http://www.periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/ged/article/view/24472>. Acesso em 09/01/2019.

reprodução. Valoriza-se, portanto, o conteúdo simbólico da lei penal que tipifica o feminicídio: trata-se de posicionar-se politicamente em meio a disputas de poder – no caso, o poder de nomear, de afirmar como grave, como crime, como inaceitável aquilo que deve ser rechaçado.

Outrossim, a visibilidade que se espera ao nomear o fenômeno como feminicídio demonstra a expectativa de afirmar a existência do elevado número de mortes de mulheres por questões de gênero como um problema, com o reconhecimento do Estado e com a projeção do feminicídio no debate público, para que a demanda saia da situação de invisibilidade e naturalização, além da ocorrência, a partir daí, das respostas trazidas nos tópicos a seguir.

3.2.2.2 Resposta ao elevado número de mortes de mulheres e prevenção de novos