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Capítulo 3 – Direitos Humanos e antirracismo

3.7 A vitória do movimento negro – Vicente Francisco

Neste caso, permito-me dar um depoimento pessoal. Fui apresen-tado ao Vicente Espírito Santo por volta do ano de 1995, na cidade de Florianópolis, e acompanhei o caso até o seu desfecho no Tribunal Su-perior do Trabalho (TST). Em alguns momentos, explicito os contatos e informações que obtive dessa convivência.

Foto 3 – Vicente Espírito Santo

Fonte: http://www.nen.org.br/casos.htm

A primeira vez que o vi e solicitei que me contasse sua história foi em um jantar promovido pelo vereador de Florianópolis Márcio de Souza. Foram algumas horas de conversa e o que mais me impressio-nou foi a perseverança e a convicção de seus direitos como cidadão durante os anos de tramitação do processo.

Vicente Francisco do Espírito Santo, técnico em telefonia das Cen-trais Elétricas do Sul do Brasil (Eletrosul), onde trabalhava há 17 anos, na época com 43 anos de idade, casado, dois filhos, foi despedido sem justa causa, em março de 1992. Fazia parte dos milhares de trabalha-dores que sofreram com a política de desmonte do serviço público.

No seu caso havia um componente a mais: o chefe da seção onde trabalhava manifestou sua opinião em reunião fechada de seleção dos

40 O caso relatado está disponível no site: http://www.nen.org.br/casos.htm.

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que iriam ser demitidos e, com um bilhetinho, disse que pretendia

“clarear o ambiente”.

A primeira reação de Vicente ao saber o porquê de sua demissão foi adoecer e ser internado em um hospital. Em seguida, por meio de ofício, recorreu ao presidente da empresa, que nomeou uma comissão de sindicância. Colheram-se vários depoimentos, inclusive o bilheti-nho que relatava o fato. O chefe confirmou a frase, mas alegou que o tom foi de brincadeira.

Sozinho, demitido, doente, desempregado, com dívidas, buscou apoio na família e na religião. Vicente, assim mesmo, recusou-se a as-sinar a rescisão contratual. Todo o período do processo, aliás, foi de sucessivos problemas de saúde gerados pelo estresse ao qual estava submetido. Sua autoestima foi duramente afetada e os remédios anti-depressivos que lhe receitaram a partir desta primeira ida ao hospital o acompanharam até há bem pouco tempo.

Para manter a família, e vivendo na expectativa de retornar ao em-prego na Eletrosul, conseguiu alguns trabalhos. Foi vendedor de brin-quedos pedagógicos, trabalhou em um consórcio de eletrodomésticos e também foi vendedor de purificadores de água, na principal rua da cidade. O impressionante é que, para cada cliente que ele conseguia, contava a história de sua demissão por questões de racismo. Recorrer à religiosidade foi importante, porque as barreiras pareciam intranspo-níveis, com uma família para sustentar e endividado. Graças à sua fé religiosa, obtinha forças para superar as mudanças de comportamento, que iam da euforia à depressão.

Vicente contou a mesma história para muita gente e esta história acabou, anos depois, virando um documentário. O repetir os aconte-cimentos de forma calma e pausada, sem pressa e com detalhes me impressionou, pois as vítimas de racismo têm vergonha de contar o que sofreram e transformam sua dor em um motivo de isolamento e solidão. Ao contrário, neste caso, utilizou todos os espaços possíveis para tornar sua história conhecida.

Surpreendentemente, conseguiu dentro da empresa três pessoas que se dispuseram a depor, sofrendo muita pressão por causa disso.

Com o apoio do Núcleo de Estudos Negros (NEN), que tinha um ser-viço de assistência jurídica a vítimas de discriminação racial, ele teve o apoio institucional que foi politicamente fundamental para a mobiliza-ção da opinião pública.

Vicente, antes do apoio do NEN, teve apoio da OAB, que o enca-minhou ao Departamento Estadual de Investigação Criminal (DEIC),

Temas de Interesse do Legislativo | 103 contrariando sua vontade, pois queria que fosse encaminhado ao Mi-nistério Público, mas o DEIC o encaminhou para o Fórum, na 3a Vara Criminal. O promotor da 3a Vara, por não ter encontrado indícios, em-bora houvesse aquele tal bilhetinho e o depoimento da sindicância, propôs o arquivamento do processo, sugestão que o juiz acatou em sua decisão. Esse procedimento de arquivar o processo foi observado como uma prática muito frequente nos casos de racismo.

As testemunhas que Vicente havia conseguido sensibilizar trabalha-vam na empresa e sofreram muita pressão para não comparecerem. O clima da empresa era de silêncio, medo e cumplicidade. Aqueles que ousaram dizer não e vivenciaram a violência do racismo por colocar em xeque o privilégio de serem brancos acabaram vítimas também.

Vicente passou a ser isolado e as testemunhas foram acusadas de ser delatoras. Uma delas acabou demitida e ficou desempregada por mais de seis anos A solidariedade de brancos para com negros em situações de discriminação racial pode ser dramática e violenta. É como se fosse rompido um pacto entre brancos e por isso seriam penalizados.

Dado ter sido o racismo o real motivo da despedida, Vicente e seus advogados decidiram requerer, na Justiça do Trabalho, a reintegração ao emprego.

Na sentença, o primeiro juiz que julgou a causa, Luiz Garcia Neto, entendeu que

a despedida sem justa causa, inexistindo estabilidade ou garantia de emprego, é um ato potestativo do empregador, o qual independe de qualquer motivação. Sendo assim, por mais torpe que seja esta, ainda que criminosa fosse, não teria como consequência o direito do em-pregado à reintegração no emprego.

E concluiu: “se dezenas de outros empregados da empresa foram despedidos na mesma lista, racismo ao contrário estaria praticando esta Justiça se reconhecesse a ele o direito à reintegração por ser negro, negando-o aos demais”.

A linha do raciocínio transferiu para a vítima de racismo a argu-mentação de que ela é que praticava o racismo ao denunciá-lo.

A decisão de Garcia Neto foi anulada. O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 12a Região acolheu o recurso de Vicente, declarando a nulidade do processo e determinando que um novo julgamento fosse proferido.

Em janeiro de 1995, o juiz Alexandre Luiz Ramos, que veio a subs-tituir o primeiro juiz, julgou improcedente a ação de consignação pro-posta pela Eletrosul, e procedente a reconvenção propro-posta por Vicente, determinando sua reintegração:

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ainda que não houvesse qualquer restrição de dispensa nas empresas estatais, como há, ainda assim o direito potestativo do empregador dispensar seus empregados não poderia ter motivação racista. Se o racismo é crime inafiançável e imprescritível, considerado hedion-do, punido pelo ordenamento jurídico, criminoso seria considerar tal motivo como válido para legitimar uma rescisão contratual.

A reclamada Eletrosul interpôs recurso ordinário junto ao TRT ale-gando que detinha poderes para dispensar sem justa causa e que não teria praticado o racismo. Vicente requereu, então, o início imediato da execução da sentença, com a formação de carta de sentença, em que foi deferida a sua reintegração, o que ocorreu em março de 1995. Contra essa decisão, a empresa ajuizou mandado de segurança perante o TRT, que foi denegado. O recurso ordinário, julgado em agosto de 1996 pelo Regional, foi desprovido.

Em relação ao mandado de segurança, a empresa impetrou recurso ordinário, dirigido ao TST, em que sustentou que houve ofensa a direi-to líquido e cerdirei-to, pois que se estaria a dar execução, com caráter defi-nitivo, a uma decisão reintegratória, em antecipação, pois, da execução da sentença de obrigação de fazer. Os ministros da Subseção II Especia-lizada em Dissídios Individuais do TST, na relatoria do ministro Valdir Righetto, na sessão de 7 de outubro de 1996, negaram provimento ao recurso, mantendo-se a reintegração deferida com base no argumento de que a reintegração não gerou, para a empresa, dano irreparável, porque mesmo que seja em caráter provisório ela está recebendo o tra-balho do empregado, nos termos em que foi sempre executado. Não havia ofensa a direito líquido e certo. No acórdão redigido, destaca-se o seguinte trecho:

Havendo, em tese, probabilidade de o empregado lograr êxito no seu pleito de reintegração, esse aspecto, aliado à exegese do art. 899, da CLT, leva-nos a vislumbrar legalidade na ordem de reintegração judicial. Ora, no caso concreto, como bem realçou o eminente minis-tro Ermes Pedrassani, tanto a Sentença quanto o Acórdão, ainda que em grau distinto de intensidade, fundaram-se em dois motivos para ordenar a reintegração: de um lado, a inobservância do dever de mo-tivar o ato administrativo da despedida, cuidando-se de empregado de estatal; e, de outro lado, a suposta prática de discriminação racial.

Conquanto não se possa e não se deva afirmar categoricamente que houve discriminação racial, o fato objetivo é este: o Tribunal Regio-nal – de certo modo reafirmando a decisão da Junta de Conciliação e Julgamento – acentuou que houve discriminação racial. Se ele é sobe-rano na apreciação da prova, em princípio, é de antever-se a proba-bilidade de que tal decisão seja, em derradeira análise, confirmada.

Não se está afirmando que o será, mas, tão somente, a probabilidade

Temas de Interesse do Legislativo | 105 de que isso ocorra, dado o aspecto de ser o Tribunal Regional quem dá a última palavra na valoração da prova.

Vicente foi dispensado por ser negro. Com isso, pela primeira vez na história do país, o Tribunal Superior do Trabalho admitiu que poderia ter ocorrido uma dispensa de empregado motivada por discriminação racial, e que tal fundamento foi determinante para a sua reintegração ao emprego.

O Movimento Negro, no apoio a Vicente com sua recusa ativa e altiva em aceitar a discriminação, estabeleceu marcos históricos, que ultrapassaram os limites processuais. De um lado, determinou o reco-nhecimento judicial da prática de racismo, contrapondo-se ao discurso oficial, que era o da existência de uma democracia racial no Brasil. A ação militante do movimento negro levou a uma vitória múltipla. Esta-beleceu a dignidade de Vicente e sua família, conseguiu a confirmação da existência do racismo no Brasil e demonstrou concretamente que o poder do empregador não é absoluto.

3.8 Considerações sobre o antirracismo