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1 ANDANÇAS PELO ESPAÇO-TEMPO

1.3 Cal e pedra, história e memória

1.3.3 A volta do coreto

Quando um habitante do lugar vê ser demolida, em nome da modernização e do progresso, alguma parte do seu bairro, ele sente como se uma parte de sua vida estivesse sendo apagada, ou ainda, diz Halbwachs (2006, p. 164), como se uma parte sua tivesse morrido. Essas inquietações, no entanto, não têm grandes consequências quando não tocam a coletividade. Todavia, se transformadas numa questão para o grupo, podem ter outro desdobramento.

Um coreto não pode ser visto como um simples mobiliário urbano compondo uma praça. Tem, antes de tudo, uma função social. É o lugar onde as famílias se reúnem, os amigos se encontram, as crianças brincam, os casais namoram. E, a partir disso, passa a ocupar um importante espaço na memória dos seus moradores, através da lembrança individual de momentos de sociabilidade e afetividade. São memórias de infância, carnavais passados, festas, celebrações, situações vividas coletivamente em solenidades oficiais ou não, manifestações políticas, apresentações de arte, teatro, música e tantas outras atividades que possam ali ocorrer.

O coreto original de Marechal Hermes, com seu traço moderno, tinha lugar no bairro desde os anos 50. Sua demolição em 2003, durante a gestão do prefeito César Maia, despertou críticas e ressentimentos – como poderia prever Halbwachs. Nunca assimilada, sua ausência se transformou em tema recorrente de conversas e queixas provocando entre os moradores a articulação de sua reconstrução, reclamada em qualquer oportunidade na mídia, especialmente através da comunidade Marechal Hermes – Cultura, Fatos e Fotos, no Facebook25, ou em articulações junto à Subprefeitura da Zona Norte.

Uma vez acordada a reconstrução, houve um tenso período de obras, acompanhado de perto por um interessado grupo de moradores, até que o coreto foi recuperado. Sua inauguração se deu em 15 de novembro de 2013, em evento que ensejou animados festejos, como se verá em capítulo subsequente neste trabalho.

Figura 5: O novo coreto, reconstruído em 2013, com base no desenho original atribuído ao arquiteto Affonso Eduardo Reidy.

Fonte: Acervo da autora.

Os discursos sobre a reconstrução do coreto e a própria celebração do retorno do equipamento narram uma vitória da “militância dos moradores”, ao mesmo tempo que fortalecem uma memória do bairro de que muitos se orgulham e fazem questão de preservar. Retomando o pensamento de Halbwachs (2006), percebe-se que através desta prática os grupos esboçam de algum modo sua forma sobre o solo e dão às suas lembranças coletivas uma ancoragem espacial.

[...] é justamente a imagem do espaço que, em função de sua estabilidade, nos dá a ilusão de não mudar pelo tempo afora e encontrar o passado no presente – mas é exatamente assim que podemos definir a memória e somente o espaço é estável o bastante para durar sem envelhecer e sem perder nenhuma de suas partes (HALBWACHS, 2006, p. 189).

Para melhor compreender a questão da emergência da memória, cabe, no entanto, contrapor a Halbwachs as ideias de Andreas Huyssen (2000). Para este último, a febre de memória que se dissemina a partir dos anos 1980 nas sociedades ocidentais, caracterizada por um desejo de volta ao passado, configura fenômeno cultural e político. Contrastando com a sede de futuro percebida no contexto da modernidade no início do século XX – momento em que os “futuros presentes” (termo criado pelo historiador Rainhart Koseleck) constituíam importante paradigma –, Huyssen observa uma alteração na experiência e na sensibilidade dos sujeitos com relação ao tempo. Há, na contemporaneidade, um deslocamento do foco: de “futuro presente” para o que Huyssen denomina “passado presente” (HUYSSEN, 2000, p. 9).

A cultura de memória contemporânea pode, para o autor, ser lida como uma reação à globalização. E sob esse aspecto entende que não há um “local puro” posto que mesmo as culturas consideradas periféricas são também afetadas pela globalidade, ainda que vivendo

temporalidades diferentes e em distintos estágios de modernidade. A relação tempo-espaço, marcada por uma aceleração que esvanece limites e coloca em looping a própria percepção da história, aponta então para uma eclosão dos discursos de memória, numa espécie de recodificação do passado.

Em sua busca de respostas para as questões sobre memória, Huyssen considera inadequadas “velhas abordagens sociológicas da memória coletiva – tal como a de Maurice Halbwachs”. Para ele, elas pressupõem formações de memórias sociais e de grupos relativamente estáveis que “já não dão conta da dinâmica atual da mídia e da temporalidade, da memória, do tempo vivido e do esquecimento” (HUYSSEN, 2000, p. 19).

Huyssen observa que a disseminação geográfica da cultura da memória é tão ampla quando é variado o seu uso político e enfatiza:

Nem sempre é fácil traçar uma linha de separação entre passado mítico e passado real, um dos nós de qualquer política de memória em qualquer lugar. O real pode ser mitologizado tanto quanto o mítico pode engendrar fortes efeitos de realidade (HUYSSEN, 2000, p. 16).

Em sua análise Huyssen supõe ainda que o aumento explosivo de memória possa ser acompanhado de um aumento explosivo de esquecimento, especialmente porque grande parte das memórias são “memórias imaginadas” e não “memórias vividas” – o que facilitaria esquecer. No entanto, dialogando com Freud, formula que memória e esquecimento são de todo indissociáveis. A memória seria apenas uma outra forma de esquecer e o esquecimento, por sua vez, uma forma de memória escondida.

Observando a importância do resgate do passado na vida cotidiana dos moradores de Marechal Hermes – afeitos à preservação e reconstituição da arquitetura local, ao culto de personagens e fatos do passado, no manejo de fotografias e recortes de notícias, entre outros guardados –, podemos melhor refletir sobre os significados desse “passado presente” para os moradores do bairro.

Nesse contexto, a volta do coreto pode ser vista como reconquista de uma valiosa referência espacial. Um elemento arquitetônico que retorna, depois de longas demandas, como lugar simbólico, no sentido que lhe dá Roberto Lobato Corrêa (2012), de lugar associado ao passado e impregnado de significados.

A luta pela sua recuperação sintetiza muitas outras lutas pela construção de uma identidade singular para o bairro. Conjugando lembranças e esquecimentos, história e mito, os moradores passam a constituir esse lugar real ou imaginado que Marechal Hermes se propõe a

ser. Através dos combates, mas também dos prazeres cotidianos – do espírito festivo, das celebrações, da cultura, da arte – ensejam uma reapropriação do mundo para, a seu modo, engendrar novos sentidos para o lugar onde vivem, como para suas vidas.

Ao ver o espaço como um conjunto de fixos e fluxos, Milton Santos (2012) sintetiza os elementos básicos que definem o lugar. Os fixos – elementos instalados nos lugares – deixam-se atravessar pelos fluxos – o resultado das ações dos sujeitos – e, com isso, vão se modificando mutuamente. Os fixos se ressignificam e ganham novo valor, enquanto também os fluxos se transformam, se renovam, permitindo outros gestos, outros usos.

É assim em Marechal Hermes, onde as condições ambientais e as condições sociais se mantêm em permanente diálogo. Elas engendram um movimento de resistência e preservação que sugere imobilidade, mas esta seria apenas a “inércia dinâmica” de que nos fala Santos, pois guarda ao mesmo tempo a ideia de contenção, absorção do novo, do renovado. Assim, nas formas herdadas, passado e presente se confrontam e manifestam, desde então, um sentido de futuro.

Há uma força invisível na materialidade visível e concreta de Marechal Hermes. Nessas paredes, nesse chão, em seu patrimônio de cal e pedra se ancora uma memória coletiva sempre acionada por moradores de diferentes gerações. Ao narrar a história da fundação do bairro evocando seu patrono – o presidente Hermes da Fonseca, cujo busto figura numa das praças –, os habitantes criam e recriam cotidianamente o mito de fundação do lugar.

A memória evoca também outros personagens, como o tenente-engenheiro Palmyro Serra Pulcherio, criador do projeto urbanístico original, ou Affonso Eduardo Reidy, arquiteto cuja assinatura distingue o Teatro Armando Gonzaga ou o estimado coreto. E por que não falar do bandolinista Luperce Miranda, que sob o epíteto “o Paganini do bandolim”26 tanto orgulha os moradores, levando-os a transformar a casa em que viveu em lugar simbólico?

Convém relembrar o pensamento de Maurice Halbwachs (2006) quando este afirma a materialidade como elemento fundamental na constituição da memória. Para o autor nenhuma lembrança se afirma dissociada de um cenário, de um lugar, dos objetos ao redor. Essa memória, no entanto, não se dá apenas no plano individual, ela é compartilhada, existe para um determinado grupo de pessoas. Assim, diz ainda, as lembranças que mais facilmente conseguimos recordar derivam de uma memória comum – “é porque podemos nos apoiar na

26

Luperce Miranda: o Paganini do bandolim é título da biografia do compositor, escrita por Marília Trindade Barboza – Prêmio Bolsa de Pesquisa da FUNARTE – Fundação Nacional de Arte, publicada pela DaFonseca Comunicação, Rio de Janeiro, 2005.

memória dos outros que somos capazes de recordá-las a qualquer momento e quando o desejamos” (HALBWACHS, 2006, p. 66-67).

A memória coletiva de que nos fala Halbwachs (2006) tem importante papel na constituição do grupo, pois estabelece uma espécie de reciprocidade entre as pessoas e o lugar.

Ainda que Huyssen (2000) considere inadequada a abordagem de Halbwachs no contexto contemporâneo, convém considerar que, a despeito das novas dinâmicas da mídia e dos aparatos tecnológicos que tanto influenciam e modelam as memórias sociais, há nessa memória compartilhada em Marechal Hermes uma forte ancoragem espacial. Mesmo estando inseridos em amplas e complexas teias de comunicação, ligados a toda multiplicidade das mídias, seus moradores vivem também um tempo lento. Reciclam modos tradicionais de vida, reapropriam-se de sociabilidades e concepções de um mundo pré-moderno residual, para privilegiar um cotidiano corriqueiro e banal.

No capítulo que se segue será possível visitar as dinâmicas que permeiam a sociabilidade no bairro, dando-se simultaneamente em tempos lentos e acelerados. Mas sem nunca perder a conexão com o lugar.