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A VOLTA DA NARRATIVA

No documento Sobre História Eric Hobsbawm (páginas 153-158)

Este ensaio foi uma contribuição crítica a um debate histórico inaugurado, como tantos outros, por Lawrence Stone, companheiro de muitos anos na diretoria da revista Past and Present. Diz respeito à volta da história narrativa e foi publicado no número 86 daquele periódico ( fevereiro de 1980), pp. 2-8.

Lawrence Stone acredita que há uma volta da “história narrativa” porque houve um declínio na história que se dedicava a perguntar “os grandes porquês”, a “história cientí ca” generalizante. Atribui esse declínio, por sua vez, à desilusão com os modelos essencialmente econômico-deterministas de explicação histórica, marxistas ou não, que tenderam a dominar nos anos do pós-guerra; ao declínio do envolvimento ideológico dos intelectuais do Ocidente; à experiência contemporânea que nos lembrou de que a ação e decisão políticas podem moldar a história; e ao fracasso da “história quantitativa” (outra pretendente ao estatuto “cientí co”) em apresentar resultados.1 Duas questões estão implícitas nessa discussão, e as simpli quei de

maneira brutal: o que vem ocorrendo na historiogra a e como explicar tais ocorrências? Uma vez que é lugar-comum na história que os “fatos” sejam sempre selecionados, moldados e até distorcidos pelo historiador que os observa, há um elemento de parti pris, para não dizer de autobiogra a intelectual, no tratamento que Stone dá a ambas as questões, tal como o há em meus comentários ao mesmo.

Acredito que possamos aceitar que os vinte anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial assistiram a um agrante declínio na história política e religiosa, no uso das “ideias” como explicação da história, e uma notável virada para a história socioeconômica e para a explicação histórica em termos de “forças sociais”, como já notava Momigliano em 1954.2 Quer as

chamemos ou não de “econômico-deterministas”, essas correntes da historiogra a se tornaram in uentes — em certos casos, dominantes — nos principais centros ocidentais de historiogra a, para não falar, por outros motivos, dos orientais. Podemos também admitir que, nos últimos anos, houve considerável diversi cação, e um sensível ressurgimento do interesse por temas que eram bem mais marginais às principais preocupações dos leigos que naqueles anos passaram a ser iniciados em história, embora tais temas jamais fossem negligenciados. A nal, Braudel escreveu sobre Filipe II e igualmente sobre o Mediterrâneo, e a monogra a de Le Roy Ladurie sobre Le Carnaval de Romans de 1580 é antecipada por um relato muito mais sucinto, porém mais incisivo, sobre o mesmo episódio em seu Les paysans du

Languedoc [Os camponeses do Languedoc].3 Se os historiadores marxistas dos anos 1970 escrevem livros inteiros sobre o papel dos mitos das raízes nacionais, tal como a lenda galesa de Madoc, Christopher Hill escrevia, no início dos anos 1950, pelo menos um artigo fundamental sobre o mito do jugo normando.4 Todavia, provavelmente houve uma mudança.

É difícil determinar se isso representa uma volta da “história narrativa” tal como de nida por Stone (basicamente a ordenação cronológica do material em “um único relato coerente, embora com subenredos” e uma concentração “no homem e não nas circunstâncias”), já que ele esboça deliberadamente um levantamento quantitativo e se concentra em “uma seção minúscula, mas com destaque desproporcional, da pro ssão de historiador como um todo”.5

Apesar disso, há evidência de que a antiga vanguarda de historiadores não mais rejeita, despreza e combate a antiquada “história factual” ou mesmo a história biográ ca, como parte dela costumava fazer. O próprio Fernand Braudel concedeu elogio irrestrito a um exercício notadamente tradicional na história narrativa popular, a tentativa de Claude Manceron de apresentar as origens da Revolução Francesa mediante uma série de biogra as superpostas de grandes e pequenos contemporâneos.6 Por outro lado, a minoria de historiadores, cujos

interesses supostamente alterados Stone investiga, na verdade não passou a praticar a história narrativa. Se deixarmos de lado os conservadores ou neoconservadores historiográ cos convictos, tais como os “empiristas a cionados das antiguidades”, há pouquíssima história narrativa simples entre as obras citadas ou referidas por Stone. Para quase todas elas, o evento, o indivíduo e até a retomada de algum estilo ou modo de pensar o passado, não são ns em si mesmos, mas meios de esclarecer alguma questão mais ampla, que ultrapassa em muito o relato particular e seus personagens.

Em suma, esses historiadores que continuam a acreditar na possibilidade de generalizar sobre as sociedades humanas e seu desenvolvimento continuam interessados nos “grandes

porquês”, embora possam às vezes enfocar questões diferentes das que eram seu centro de

interesses há vinte ou trinta anos. Realmente não há nenhuma evidência de que tais historiadores — aqueles com quem Stone está principalmente preocupado — tenham abandonado “a tentativa de produzir uma explicação [...] coerente da mudança no passado”.7 Se eles (ou nós) também consideram sua tentativa como “cientí ca”, sem dúvida dependerá de nossa de nição de “ciência”, mas não precisamos entrar nessa disputa em torno de rótulos. Além disso, duvido muito que tais historiadores se sintam “obrigados a voltar ao princípio de indeterminação”,8 assim como tampouco Marx sentia serem seus escritos sobre Luís Napoleão incompatíveis com a concepção materialista da história.

Por certo há historiadores que abandonaram essas tentativas, e certamente existem alguns que as combatem, talvez com um zelo aumentado pelo compromisso ideológico. (Quer o marxismo tenha ou não declinado intelectualmente, é difícil detectar muito emudecimento da controvérsia ideológica entre historiadores ocidentais, embora os participantes e as questões especí cas possam não ser as mesmas de vinte anos atrás.) Provavelmente a história neoconservadora ganhou terreno, pelo menos na Grã-Bretanha, tanto na forma dos “jovens empiristas a cionados das antiguidades”, que “escrevem narrativas políticas detalhadas negando implicitamente que haja algum sentido profundamente assentado na história além dos caprichos acidentais do destino e da personalidade”,9 quanto na forma de obras como as de Theodore Zeldin (e de Richard Cobb), notáveis mergulhos naqueles estratos do passado, para as quais “quase todo aspecto da história tradicional” é irrelevante, inclusive o de responder perguntas.10 Provavelmente foi o que fez a história que poderia ser chamada de esquerdista

anti-intelectual. Mas, exceto de modo muito tangencial, não é com isso que Stone está preocupado.

Como, então, devemos explicar as mudanças de tema e interesses históricos, na medida em que tenham ocorrido ou estejam ocorrendo?

Pode-se sugerir que um dos elementos dessas mudanças re ete o notável alargamento do campo da história nos últimos vinte anos, caracterizado pela ascensão da “história social”, esse recipiente amorfo para tudo, desde mudanças no físico humano até o símbolo e o ritual, e

sobretudo para as vidas de todas as pessoas, de mendigos a imperadores. Conforme observado por Braudel, essa “histoire obscure de tout le monde” é “a história em direção à qual, de maneiras distintas, toda historiogra a tende atualmente”.11 Não é este o lugar para especular

sobre as razões para essa vasta ampliação do campo, que por certo não con ita necessariamente com a tentativa de produzir uma explicação coerente do passado. Entretanto, ela aumenta de fato a di culdade técnica de escrever história. Como se devem apresentar essas complexidades? Não admira que os historiadores experimentem diferentes formas dessa apresentação, entre as quais, notadamente, aquelas que recorrem a antigas técnicas da literatura (que fez suas próprias tentativas de apresentar la comédie humaine), e também aos modernos recursos audiovisuais, dos quais todos nós, excetuando-se os mais velhos, estamos saturados. O que Stone chama de técnicas pointillistes são, pelo menos em parte, tentativas de solucionar problemas técnicos de apresentação.

Esses experimentos são particularmente necessários para aquela parte da história que não pode ser submetida à “análise” (ou à rejeição da análise) e que Stone prefere desprezar, ou seja, a síntese. O problema de encaixar as diversas manifestações do pensamento e da ação humanos em um período especí co não é novo nem desconhecido. Nenhuma história da Inglaterra jacobina é satisfatória se omite Bacon ou o aborda exclusivamente como um advogado, político, ou uma personalidade na história da ciência ou da literatura. Além disso, até os historiadores mais convencionais o reconhecem, mesmo quando suas soluções (um capítulo ou dois sobre ciência, literatura, educação e não-sei-mais-o-quê apenso ao corpo principal do texto político-institucional) são insatisfatórias. Entretanto, quanto mais ampla a classe de atividades humanas aceita como interesse legítimo do historiador, quanto mais claramente entendida a necessidade de estabelecer conexões sistemáticas entre elas, maior a di culdade de alcançar uma síntese. Naturalmente isso é muito mais do que um problema técnico de apresentação, embora também o seja. Mesmo aqueles que continuam a se orientar em sua análise por algo como o modelo “hierárquico de três camadas” de base e superestruturas, que Stone rejeita,12 podem constatar que se trata de um guia inadequado para apresentação, ainda

que provavelmente um guia menos inadequado que a narrativa cronológica linear.

Deixando de lado os problemas de apresentação e síntese, podem-se sugerir duas outras razões mais substantivas para uma mudança. A primeira é o próprio sucesso dos “novos historiadores” nas décadas do pós-guerra. Esse sucesso foi obtido por uma deliberada simpli cação metodológica, a concentração naquilo que era visto como a base socioeconômica e os determinantes da história, à custa — às vezes, como no caso da batalha francesa contra a “história factual”, em confronto direto com ela — da história narrativa tradicional. Embora houvesse alguns reducionistas econômicos extremados, e outros que descartavam pessoas e eventos como ondas desprezíveis na longue durée da structure e conjoncture, tal extremismo não era universalmente difundido, seja nos Annales ou entre os marxistas que — principalmente na Grã-Bretanha — nunca perderam o interesse nos eventos ou na cultura, nem consideravam a “superestrutura” como sempre e inteiramente dependente da “base”. Porém, o próprio triunfo de obras como as de Braudel, Goubert e Le Roy Ladurie, enfatizado por Stone, não só deixava os “novos” historiadores livres para se concentrar naqueles aspectos da história até então deliberadamente deixados de lado, como também os priorizava na agenda dos “novos historiadores”. Como Le Goff, um eminente analista, ressaltou há alguns anos, “a história

política iria pouco a pouco retomar sua força graças ao empréstimo dos métodos, espírito e abordagem teórica das próprias ciências sociais que a haviam empurrado para os bastidores”.13

A nova história dos homens e das mentalidades, ideias e eventos pode ser vista mais como complementar que como substituta da análise das estruturas e tendências socioeconômicas.

Mas, uma vez que os historiadores se voltam para tais itens em suas agendas, podem preferir abordar sua “explicação coerente da mudança no passado”, mais como se fossem, por assim dizer, ecologistas que geólogos. Podem preferir começar pelo estudo de uma “situação” que corpori que e exempli que a estrutura estrati cada de uma sociedade, mas que concentre a mente nas complexidades e interligações da história real, de preferência ao estudo da estrutura em si mesma, principalmente se para isso puderem se basear parcialmente em trabalho anterior. Como reconhece Stone, isso reside na raiz da admiração de certos historiadores por obras como a “leitura íntima” de Clifford Geertz de uma briga de galo balinesa.14 Não implica

nenhuma escolha necessária entre mono ou multicausalidade, e certamente nenhum con ito entre um modelo no qual alguns determinantes históricos são considerados mais poderosos que outros, e o reconhecimento de inter-relações, tanto verticais quanto horizontais. Uma “situação” pode ser um ponto de partida conveniente, como no estudo de Ginzburg sobre a ideologia popular por meio do caso de uma única aldeia ateísta no século XVI ou um único grupo de camponeses da região de Friuli, acusados de bruxaria.15 Esses tópicos também

poderiam ser abordados de outras maneiras. Pode ser um ponto de partida necessário em outros casos, como no magní co estudo de Agulhon sobre como, em determinada época e lugar, aldeões franceses se converteram do tradicionalismo católico ao republicanismo militante.16 Seja como for, para certos ns, é provável que os historiadores o adotem como

ponto de partida.

Por isso, não há nenhuma contradição necessária entre Les Paysans du Languedoc e Montaillou,

povoado occitânico, de Le Roy Ladurie, não mais que entre as obras gerais de Duby sobre a

sociedade feudal e sua monogra a sobre a batalha de Bouvines, ou entre The Making of the

English Working Class [A formação da classe operária inglesa] e Whigs and Hunters [Senhores e

caçadores] de E. P. Thompson. 17 Não há nada de novo em preferir olhar o mundo por meio

de um microscópio em lugar de um telescópio. Na medida em que aceitemos que estamos estudando o mesmo cosmo, a escolha entre micro e macrocosmo é uma questão de selecionar a técnica apropriada. É signi cativo que atualmente mais historiadores achem útil o microscópio, mas isso não signi ca necessariamente que eles rejeitem os telescópios como antiquados. Mesmo os historiadores da mentalité, essa palavra vale-tudo que Stone, talvez prudentemente, não tenta esclarecer, não evitam exclusiva ou predominantemente a visão ampla. Essa, pelo menos, é uma lição que aprenderam com os antropólogos.

Essas observações explicam o “agrupamento amplo de mudanças na natureza do discurso histórico” de Stone?18 Talvez não. Entretanto, demonstram que grande parte daquilo que ele

investiga como continuação de empreendimentos históricos passados pode ser explicada por outros meios que não como provas da falência desses empreendimentos. Não é o caso de negar que certos historiadores os encarem como falência ou como algo indesejável e consequentemente queiram mudar seu discurso por diversas razões, algumas delas intelectualmente dúbias, algumas dignas de serem levadas a sério. É evidente que alguns historiadores se deslocaram das “circunstâncias” para os “homens” (inclusive mulheres), ou

descobriram que o modelo simples de base e superestrutura e a história econômica não bastam ou — já que os resultados de tais abordagens não têm sido muito substanciais — não são mais su cientes. Alguns bem podem ter se convencido de que há uma incompatibilidade entre suas funções “cientí cas” e “literárias”. Mas não é necessário analisar as modas atuais na história inteiramente como rejeição do passado e, na medida em que não podem ser inteiramente analisadas nesses termos, não é suficiente.

Estamos todos ansiosos para descobrir para onde estão indo os historiadores. O ensaio de Stone deve ser saudado como uma tentativa de fazer isso. Entretanto, não é satisfatória. A despeito de seu desmentido, o ensaio realmente combina o mapeamento de “mudanças observadas na moda histórica” com “juízos de valor sobre os modos de escrever história que são bons e os que são menos bons”,19 principalmente sobre os últimos. Acho que isso é

lamentável, não porque por acaso eu discorde dele em relação ao “princípio de indeterminação” e à generalização histórica, mas porque, se o argumento estiver equivocado, também deve ser inadequado um diagnóstico das “mudanças no discurso histórico” realizado em termos desse argumento. Somos tentados, como o irlandês mítico, ao ser perguntado pelo viajante sobre o caminho até Ballynahinch, a parar, ponderar e replicar: “Se eu fosse você, realmente não começaria por aqui”.

No documento Sobre História Eric Hobsbawm (páginas 153-158)