Ao considerarmos, no início desse capítulo, a questão da mobilização como um elemento de dimensão afetiva, remetemos novamente às contribuições trazidas por Piaget que nos esclarece que “essas operações (afetivas) se chamam atos de vontade, porque a vontade é precisamente o instrumento de conservação dos valores (...)” (2004, p. 229). Ao apresentarmos a discussão sobre o interesse na seção anterior, o trabalho de Claparède nos indica que o interesse é um elemento que acompanha os sujeitos ao longo de sua trajetória, nos alertando, porém, que os objetos que despertam o interesse dos indivíduos variam conforme esse se desenvolve. Desse modo, acreditamos, apoiadas em Piaget, que se o interesse pela escola e pelos saberes escolares acompanhar o indivíduo ao longo de sua vida escolar, isso se dá em função da existência da vontade. Já Bransford, Brown e Cocking (2000) acreditam que qualquer indivíduo pode aprender qualquer coisa se for impulsionado pela vontade.
Piaget (2014, p. 229) esclarece, no entanto, que esse termo já foi definido por diferentes pesquisadores nos mais diversos sentidos22, e posiciona-se afirmando que, para que se possa falar na existência de atos de vontade, existem três condições a serem atendidas, as quais apresentaremos de forma análoga ao nosso objeto de investigação:
1. Quando houver “conflito de tendências” em que o sujeito precise escolher entre uma ou outra dessas duas tendências. Reconhecemos a validade dessa proposição em nosso estudo por entendermos que o envolvimento dos sujeitos com as atividades e saberes da escola trata-se sobretudo de uma escolha, de uma opção feita pelo indivíduo que, por sua vez, poderia igualmente ter optado em não se engajar a esses saberes. Desse modo, compreendemos que a questão da mobilização perpassa por um “conflito de tendências”, tal como posto por Piaget, onde o indivíduo encontra-se em uma situação em que há a possibilidade de escolher entre um movimento ou outro.
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Piaget preocupa-se em esclarecer que atos intencionais, dirigidos por uma intenção mais ou menos consciente do indivíduo, não podem ser entendidos como atos de vontade. O autor exemplifica sua hipótese citando um bebê que chora (de fome, por exemplo) até que seu desejo (de comer) seja atendido. De acordo com o pesquisador, é incorreto dizermos que, nessa situação, o bebê chora pois está com “vontade de comer”; nessa situação, o choro refere-se a um ato regulado pelo desejo, não pela vontade.
2. A vontade ocorre quando há duas tendências de força desigual, em que uma começa sendo mais fraca que a outra e, no curso do ato da vontade, há uma inversão: a mais fraca torna-se a mais forte e a inicialmente mais forte é vencida por aquela primitivamente mais fraca. Ao tratarmos a questão da mobilização intelectual dos escolares, é sensato reconhecermos que esse movimento não contempla a opção mais fácil dentro da escola. Diferentes pesquisas têm mostrado que é elevado o número de alunos que parece ir à escola por outras razões quaisquer, sem efetivamente investirem-se nos estudos23. O não envolvimento com o conhecimento escolar nos parece, em função de diferentes fatores,ser a opção mais fácil (tendência inicialmente mais forte) e, desse modo, acreditamos que a ação de valorizar e mobilizar-se perante os saberes presentes na instituição escolar seja incialmente a tendência mais fraca que acaba por sobressair-se nas atitudes desses estudantes em função da vontade. Acreditamos que esse argumento tenha valia também para a terceira condição apresentada por Piaget (2014, p. 235).
3. Para que haja vontade é preciso que haja conflito, mas não somente conflito; é preciso que a conduta do indivíduo se engaje, isto é, que não siga a tendência mais forte, mas siga, ao contrário, a tendência mais fraca, fazendo a escolha mais difícil. Igualmente nessa condição, reforçamos nosso argumento de que a questão da mobilização dos sujeitos não se trata de uma escolha fácil, tendo em vista que grande parte dos estudantes parece não fazer essa opção, seguindo pela tendência mais forte. Desse modo, os sujeitos que efetivamente se engajam nos saberes escolares fazem a escolha mais difícil, isso é, seguem a tendência mais fraca.
Entendemos, com base nas condições apresentadas por Piaget, que a vontade seja também um fator de análise pertinente a essa investigação, tendo em vista que diferentes pesquisas têm apontado que são muitos os alunos que vão à escola sem conseguir estabelecer relações entre o que está presente nesse espaço e suas perspectivas e/ou desejos pessoais. Assim, pela vontade, direcionamos o olhar aos estudantes que parecem estar conseguindo construir essas relações, que se propõem a investir nos estudos por algum motivo, apesar de terem tido a possibilidade de percorrer outro caminho.
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23 A respeito dessa afirmação citamos a tese desenvolvida por Meinerz (2005), na qual investigou a
sociabilização de alunos no espaço escolar, cujos sujeitos eram adolescentes que iam à escola mas resistiam em participar das aulas, passando a maior parte do tempo no pátio ou circulando por outros espaços dentro da escola.
Piaget (1972, p. 329) pondera ainda, nesse sentido, que “ter vontade significa possuir uma escala de valores suficientemente resistente para a ela se referir no decurso de conflitos”, e considera que a escala de valores de um indivíduo seja a “sua razão de ser” (1954, p. 132): aquilo que uma pessoa mais valoriza ocuparia o topo de sua escala e os demais valores presentes nessa escala seriam um meio para atingir esse fim. Piaget acredita que os valores, no início da vida humana, funcionariam como um sistema regulador de energia e atuariam como avaliadores da qualidade da ação própria do sujeito ou de seus efeitos (ANDRADE; CAMINO; DIAS, 2008). A organização desse sistema de valores aconteceria, de acordo com o pensamento do epistemólogo, quando a criança começa a valorizar objetos que lhe são externos sempre em relação às suas próprias ações: as crianças seriam capazes de distinguir o que lhes interessa ou não comparando sua ação na situação presente com uma ação semelhante já experimentada em alguma situação anterior. À medida que a criança se desenvolve, esses sentimentos continuariam se organizando, constituindo formais finais de equilíbrio que seriam expressas pela vontade. Desse modo, o pesquisador parece defender que é através da vontade que o sujeito seja capaz de estabelecer fins prioritários para sua ação, ou seja, que o sujeito seja capaz de hierarquizar seus valores e igualmente planejar suas ações, construindo, dessa forma, seus projetos de vida. Piaget (2014) chega a considerar essa como a única força mental necessária para o comportamento.