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2.2 TECNOLOGIA E ENSINO

2.2.1 A Web 2.0 no ensino

Um dos avanços tecnológicos que mais impactou o ensino é a

Web 2.0. Nos primeiros anos que a Internet foi disponibilizada à

população, podia-se acessar uma enorme quantidade de informações, porém, o papel do utilizador resumia-se a ser um mero espectador. O visitante de um site, nesse contexto, apenas consumia o seu conteúdo, sem poder interagir, editar ou criar novos conteúdos. Essa tecnologia é conhecida como Web 1.0. Porém, a Internet traz arraigada a “filosofia” de rede global, ou seja, de um espaço democrático aberto a todos, sem um dono ou indivíduo que controle o acesso ou o conteúdo disponível. Nesse âmbito, surge a Web 2.0, que representa uma rede global colaborativa, na qual o conhecimento é compartilhado e descentralizado e os indivíduos podem criar e editar conteúdo (COUTINHO; JUNIOR, 2007).

Ressalta-se que a Web 2.0 é um conceito, e, dessa forma, o que mudou foi a forma de encarar, desenvolver e entregar aplicativos por meio da Internet. O criador do conceito de Web 2.0, O’Reilly (2007), a define como o entendimento de Internet como plataforma, na qual a principal regra para se obter sucesso é o desenvolvimento de aplicativos que aproveitem os efeitos da rede, tornando-se melhores quanto mais forem utilizados pelas pessoas, aproveitando a inteligência coletiva.

Dentre as características da Web 2.0, Harris e Rea (2010) destacam a ênfase no conteúdo gerado pelos usuários, dados e compartilhamento de conteúdo, esforços de colaboração, novas formas de interagir com aplicativos baseados na Web, e o uso da Web como uma plataforma social para gerar, reposicionar e consumir conteúdo.

Portanto, conforme ilustra o Quadro 1, na Web 1.0, os usuários ficam restritos a consumir conteúdo. Por outro lado, a Web 2.0 permite um ambiente virtual com maior interação entre os usuários, sendo estes os consumidores e produtores de informação (COUTINHO; JUNIOR, 2007).

Quadro 1 - Diferenças entre Web 1.0 e Web 2.0.

Web 1.0 Web 2.0

Utilizador é consumidor da informação; Dificuldades inerentes a programação e a aquisição de software específico para criação de páginas na web;

Para ter um espaço na rede na maioria dos servidores é preciso pagar; Menor número de ferramentas e possibilidades.

Utilizador é consumidor e produtor da informação;

Facilidades de criação e edição de páginas online;

O utilizador tem vários servidores para disponibilizar suas páginas de forma gratuita;

Número de ferramentas e possibilidades ilimitadas.

Fonte: Coutinho e Junior (2007).

Ressalta-se que, conforme apontaram Shea e Bidjerano (2012), a participação e a interação social influenciam drasticamente os resultados de aprendizagem. Por essa razão, as ferramentas Web 2.0 têm sido adotadas no ensino, pois, permitem grande iteração online entre os usuários. Karvounidis et al. (2014) também apontaram que o campo da educação adotou ativamente as tecnologias Web 2.0 como resultado da demanda dos alunos pela contínua avaliação das abordagens pedagógicas e dos processos de ensino-aprendizagem por parte das instituições de ensino.

2.2.1.1 Wikis

Uma das ferramentas Web 2.0 utilizadas em ambientes de ensino- aprendizagem são os Wikis. Biasutti e El-Deghaidy (2012) afirmaram que esta tecnologia oferece uma interface simples para edição e publicação de conteúdo e requerem um conhecimento mínimo de Web por parte dos estudantes.

Um Wiki é um site na Web que permite o trabalho conjunto de pessoas que podem acrescer, apagar ou editar conteúdo, mesmo que este inicialmente tenha sido criado por outro autor. Coutinho e Junior (2007) consideram que a publicação de textos nos Wikis é bastante facilitada, pois, basta o usuário utilizar um navegador de Internet, e a partir de poucos cliques tem-se acesso a um editor de texto. Após a criação ou edição do conteúdo, o usuário grava suas alterações e o texto fica automaticamente disponível para outras pessoas acessá-lo ou até mesmo alterá-lo.

Portanto, os Wikis melhoram a comunicação assíncrona entre os estudantes e podem ser utilizados para facilitar o ensino colaborativo apoiado por computador, melhorar a interação entre os pares e grupos de

trabalho, e facilitar o compartilhamento e distribuição de conhecimento e experiência entre uma comunidade de aprendizes (LIPPONEN, 2002; AUGAR; RAITMAN; ZHOU, 2004).

Ainda que os Wikis pareçam viabilizar uma boa forma de envolver os alunos e estimular a interação entre eles, Cole (2009) cita razões para o fracasso de sua implementação, quais sejam: pressão de outros cursos (restrição de ensino); preocupações com a usabilidade (restrição técnica), questões de autoconfiança (restrição pessoal); e total falta de interesse.

Portanto, o sucesso da implementação dos Wikis no ensino não se dará pela simples adoção e disponibilização da ferramenta. Como apontaram Karvounidis et al. (2014), uma integração bem-sucedida de

Wikis no processo educacional depende dos aspectos — organizacional,

pedagógico, tecnológico, comunicação e conteúdo — que afetam o envolvimento dos alunos (sua participação ativa) e não inteiramente da ferramenta em si.

2.2.1.2 Podcasts

Podcasts são repositórios de materiais de áudio e vídeo que são

disponibilizados a um público alvo para serem acessados a qualquer tempo e qualquer lugar (BOULOS; MARAMBA; WHEELER, 2006). Nesse âmbito, os Podcasts oferecem experiências de aprendizagem assíncronas, e podem ser acessadas conforme a demanda dos alunos.

Tal tecnologia emergiu nos ambientes de ensino-aprendizagem amparado pelos conceitos de aprendizagem móvel (mLearning). Para Kebritchi (2010), a utilização de tecnologia móvel de aprendizagem é uma tendência crescente no ensino superior. A aprendizagem móvel corresponde a qualquer tipo de aprendizagem que ocorre em ambientes de ensino que considerem a mobilidade da tecnologia, a mobilidade dos alunos e a mobilidade da aprendizagem (EL-HUSSEIN; CRONJE, 2010), sendo os Podcasts inclusos nessa categoria.

A disponibilização de materiais de estudo, tanto como um complemento ao ensino tradicional, bem como um meio de ensino a distância, apresenta ótimas oportunidades para o ensino superior, razão pela qual Walls et al. (2010) apontaram o interesse crescente no potencial que os Podcasts oferecem para propósitos educacionais formais.

Nesse sentido, Fernandez, Simo e Sallan (2009) afirmaram que os

Podcasts são uma poderosa ferramenta que complementa os recursos

contato permanente entre alunos e professores. Além disso, Lazzari (2009), por meio de pesquisa sobre utilização de Podcasts em ambientes de ensino, encontrou que a sua utilização no ensino superior resulta em melhoria do desempenho dos alunos.

Porém, ao contrário do que acontece com os Wikis, os Podcasts tem como desvantagem a falta de interatividade e estagnação (HARRIS; REA, 2010). Portanto, o envolvimento e a participação ativa dos alunos dependerão da qualidade do material disponibilizado e da qualidade e facilidade de acesso ao repositório de arquivos (LIN; ZIMMER; LEE, 2013).

2.2.1.3 Learning Management Systems (LMS)

Sistemas de Gestão da Aprendizagem (Learning Management

Systems) são sistemas baseados na Web que permitem aos professores e

estudantes compartilhar materiais, submeter tarefas, e manter uma comunicação online (LONN; TEASLEY, 2009).

Jang (2014) aponta que o uso de tecnologias digitais em salas de aula acontece principalmente com a adoção de ferramentas tradicionais como o Moodle, que é o mais famoso Sistemas de Gestão da Aprendizagem.

Avgeriou et al. (2003) e Lonn e Teasley (2009) também apontaram os Sistemas de Gestão da Aprendizagem como a tecnologia educacional mais popular, que tem como objetivo aumentar a aprendizagem dos alunos e aumentar a capacidade profissional dos professores, razão pela qual está difundida e implementada em muitas instituições de ensino superior. Os autores também afirmaram que o foco desses sistemas se dá, principalmente, na entrega do curso, ou seja, na disponibilização dos materiais pedagógicos e conteúdo, o que proporciona aos professores uma extensão a sala de aula tradicional e facilita tarefas administrativas.

Ainda que ferramentas como o Moodle permitam a criação de espaços virtuais nos quais os alunos possam desempenhar suas atividades acadêmicas (AVGERIOU et al., 2003; LONN; TEASLEY, 2009), o seu uso parece se restringir a um ambiente para postagem de materiais de ensino, razão pela qual Jang (2014) afirmou que a adoção de tais tecnologias não tem resultado na melhoria educacional inovadora que se espera.

2.2.1.4 Blogs

A palavra Blog — uma contração de Web Log — significa um diário online que contém postagens, geralmente em ordem cronológica inversa (primeiro os mais recentes), sobre um tópico em particular, e oferecem um ambiente multimídia rico, no qual as postagens podem ser escritas por uma ou mais pessoas (BOULOS; MARAMBA; WHEELER, 2006).

Coutinho e Junior (2007) afirmaram que o Blog é,

provavelmente, a ferramenta da Web 2.0 mais conhecida e utilizada com propósitos educativos. Esta ferramenta foi adotada na educação superior, pois, ela permite contornar as restrições de autoria centralizada, ou seja, diversos autores podem, em conjunto, criar e compartilhar conteúdo (KARGER; QUAN, 2005).

A adoção de Blogs nos ambientes de ensino, segundo Yang (2009), permite aos professores ter uma indicação da motivação dos alunos, equívocos, lutas, desconfortos e experiências de aprendizagem, informações valiosas para identificar modificações e melhorias que possam ser feitas nas atividades instrucionais. Além disso, Ajjan e Hartshorne (2008) afirmaram que com a utilização de Blogs, os professores podem manter os alunos envolvidos promovendo a sua participação ativa.