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O professor Abílio tem 54 anos de idade, é solteiro e se autodeclara pardo. Concluiu a graduação em uma faculdade privada, possui especialização lato sensu na área de Educação e informa participar com frequência de cursos de formação continuada, sendo os últimos: Educadores(as) pela Liberdade, realizado em Ouro Preto; e o Afroconsciência, em Belo Horizonte. Segundo ele, o conhecimento adquirido a partir desses cursos é sempre incorporado em sua prática.

O professor Abílio leciona há quase 15 anos na Rede Estadual de Ensino e trabalha atualmente com turmas do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Exerce também atividade remunerada fora da área de Educação, principalmente prestando consultoria para empresas. Sua carga horária de trabalho na área educacional é de 23 h/a semanais e atua em duas escolas do mesmo município. Abílio não trabalhou sempre na docência, uma vez que iniciou sua carreira em uma empresa de recursos humanos. Já teve negócio e já trabalhou em banco.

Ele informa que História foi sua primeira opção de curso superior e que não gostaria de ter realizado outro curso. Sua escolha profissional se deu, em grande parte, por influência de uma prima que cursava Psicologia. Na época, ela estudava em Juiz de Fora e o convidou para fazer um teste vocacional. O resultado deu

História, e essa escolha nunca mais foi questionada justamente por ter sido vocacionada e comenta: “Ganho pouco, sou pobre, mas me sinto rico porque sou

vocacionado. Eu faço o que eu gosto. Eu saio satisfeito. Eu não tenho vergonha de dizer que sou professor de História. Eu tenho orgulho. Eu sou respeitado por isso.

Não tenho dinheiro, mas sou respeitado”. Vale ressaltar que o professor Abílio é referência em História na sua região, com livros publicados sobre a história local, um

blog na internet e um grande acervo de documentos e fotos antigas.

Ao contar sua história de vida, Abílio afirma: “sou uma mistura (...) eu sou o que oprime e o oprimido”. E ele explica que sua família tinha tanto o negro que trabalhou na mineração e no café, como também o coronel português, seu avô, que morreu quando ele tinha 3 anos e de quem ouvia muitas histórias. Ele conta que em sua casa havia muitos livros: “Minha mãe era professora; então livros..., tinha de

tudo. Minha mãe comprava coleções de livros. Naquela época não tinha internet. Era Barsa. Eu cresci com vendedor de livro na porta da minha casa. Quando

chegava um vendedor, pra gente era uma maravilha”. Talvez seja possível afirmar que, em razão da sua história de vida, associada ao resultado do teste vocacional realizado por ele quando jovem, isso faça o professor se considerar um vocacionado para a profissão. Assim, a vocação aparece como fator preponderante ou responsável pela escolha profissional desse sujeito, o que demonstra que, mesmo quando há um processo de profissionalização da docência, as motivações vocacionais ainda aparecem de modo marcante.

O modo como percebe os livros talvez tenha relação com o uso que faz dos livros didáticos enquanto professor de História: “É um instrumento magnífico. O

livro é uma coisa linda. Eu adoro o livro. Eu devoro o livro. O livro tem uma riqueza. Ele é para ser usado com muita atração porque são bonitos, bem fotografados”. Diante disso, acrescenta sobre o livro didático: “Ele tem qualidade (...) Ele é referência. Ele está sempre comigo. Eu miro nele porque com todos os problemas que tem, ele também foi trabalho de alguém. Alguém pesquisou. Não posso falar que o livro não tem qualidade. Ele tem qualidade”.

Em relação à sua formação no Ensino Fundamental, Abílio se lembra de professores que marcaram sua trajetória por sua “integridade, relacionamento,

conteúdo, responsabilidade, respeito, suavidade, afetividade, rigor, doçura,

personalidade, valores e brilhantismo”. Já sua formação no ensino superior Abílio

documentário sobre um personagem regional importante da formação de AP33. Além disso, realizou duas pós-graduações lato sensu, mas diz: “falta mestrado na minha vida. Falta doutorado”. Para ele, “tudo é uma questão de investimento”. Falar de História, para Abílio, é muito mais do que expor fatos: “Ainda mais a gente que é de

História. É troca. Com certeza. Porque nós estamos falando da humanidade. A história nós não estamos contando fatos. Estamos falando da evolução do ser humano. Então nós estamos falando de gente mesmo. Estamos falando de

relacionamento”.

Abílio considera que o livro didático é capaz de atuar como elemento formativo de professores, mas “não pode ser o único”. Ele considera comum recorrer ao livro didático para aprender e depois ensinar alguma coisa: “Às vezes

você esquece, porque a gente tem que ter muito conteúdo na cabeça. Professor de História, você sabe... Adão e Eva até o Temer. Está difícil de saber tudo”. Ele é

contrário à ideia de que “professor de História é igual calendário e enciclopédia”. Quando indagado se já utilizou o livro didático para sua autoformação, o professor Abílio diz: “Sim, nem que seja de uma maneira curiosa (...) às vezes é um textinho

pequeno que você precisa dar uma complementada. Trabalhando um tema, você pega um pedacinho do texto daquele livro”.

O professor Abílio reconhece que há aspectos nos livros didáticos que não foram abordados em sua formação inicial, mas ele parece superar a lógica da lamentação quando assume uma postura ativa diante de sua prática e de sua própria concepção de História e mostra que o ensino de História extrapola os livros didáticos:

“Tem. Lógico que tem (...) Eu trago ela para minha experiência. Eu para o

aluno. Quando tem uma coisa que não está no livro, eu acrescento, eu acrescento. Por exemplo, aquela em AP, aquela foto célebre do sequestro do embaixador americano. Aquela foto faltou um AP que as pessoas não sabem dele. MRGZ34. Ele foi o último a entrar naquele avião. Ele entrou lá no Pará. Aquela noite ele ia ser morto. Ele foi dado como desaparecido. Eu fui criado defronte com a casa dos tios dele. Seu JG35, que foi uma referência de esquerda que eu tive. Quando tinha que fazer trabalho de Revolução que foi uma lavagem cerebral pra minha formação de ensino fundamental base, a gente tinha que fazer cartaz valorizando a revolução (...) Hoje ele é citado. Você acha se você procurar o nome dele, mas não

nos livros”. 33 Iniciais do nome de uma cidade.

Contudo, o professor Abílio não considera que os livros didáticos podem ser considerados uma metodologia atrasada. Segundo ele, “nós estamos em constante evolução”; “a gente tem que evoluir”; “Eu acho que a gente, como professor, tem

que estudar mais. Mesmo que não faça um mestrado nem nada, mas um minicurso,

participar de uma mesa de discussão”. Como mostra Abílio, é esse uso reflexivopor

um professor que busca uma formação contínua que garante que essa metodologia não fique desatualizada.

Em relação ao uso que era feito do livro didático pelos professores de História em sua época de aluno, Abílio comenta que a qualidade era pouca. Ele se lembra do livro de Borges Hermida36, que afirma ter usado muito e que, inclusive, na época foi adotado tanto na escola pública onde estudava quanto na escola privada mais conceituada da cidade, o qual era muito valorizado pelas crianças, mas muito pouco interessante. As imagens eram em preto e branco e a qualidade do papel, bem inferior à dos papéis de hoje. Sobre o modo como os professores abordavam os assuntos nos livros didáticos, Abílio disse: “a didática não era muito interessante

não. A gente tinha que decorar muitos textos. Era uma aula oral, uma avaliação oral, mas na verdade estava muito voltado para o decoreba”. Isso indica que o

ensino de História ainda era marcado por uma abordagem bastante tradicional de ensino.

No Ensino Médio, realizado em uma escola particular, Abílio relata que teve um ensino mais diferenciado, com um modelo mais progressista, em que os professores sentavam à mesa e conversavam com os alunos. Nesse outro modelo de ensino, a aprendizagem estava centrada no aluno e considerava seus interesses, valorizando suas descobertas e interações. Ele revelou: “a gente trazia o livro, mas tinha muita conversa”. Além disso, ele contou que tinha uma qualidade de produto como livro didático. Ao ser indagado se haveria algum livro didático ou algum autor que ele consideraria mais, o professor Abílio cita o autor Ronaldo Vainfas37 e faz o seguinte comentário: “Acho os livros dele os mais interessantes. É uma pena que a gente não tenha ele assim o tempo todo”.

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Para saber mais sobre essa coleção, ver mais em:

<https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/10413/1/Diogo%20dos%20Santos%20Brauna.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2017.

37 Mais informações sobre a coleção de livros escrita por esse autor, ver mais em:

Abílio demonstra ser um professor muito envolvido com a Educação. Participa de cursos de formação continuada com frequência, possui duas especializações lato sensu e mantém um blog na internet onde divulga imagens e história de personagens relevantes da sua cidade e região, apresentando conhecimento aprofundado e vasto acervo sobre a temática local. Por tudo isso, ele é um professor muito respeitado e referência na área de História do município. Esse professor possui conhecimento sobre a História local que extrapola os livros didáticos, visto que esse conteúdo na História geralmente não é abordado nesses livros. Ele busca realizar atividades fora da escola e levar outros tipos de material para a sala de aula, como fontes primárias e utensílios de época. Em sua opinião, a maior contribuição que ele poderia dar aos alunos seria levá-los a conhecer a história do município onde residem. Portanto, isso evidencia que Abílio se esforça bastante para mostrar o que sabe aos alunos e também para que conheçam a história de sua localidade mais próxima, da cidade onde moram.