4.1 PERCURSO HISTÓRICO DA COMUNIDADE DO ROQUE
4.1.4 Abastecimento de Água e Saneamento Básico
Das 40 residências visitadas durante a pesquisa, 100% possuem fossa e pelo menos um vaso sanitário. Cada casa possui um contador e os moradores pagam a quantia de R$ 20,00 (vinte reais) por mês pelo serviço de abastecimento de água pelo Projeto SANEAR. O sistema funciona da seguinte forma: cada horário uma parte da Comunidade é contemplada com o serviço de água, podendo dessa forma abastecer as caixas d’água e ter sempre água disponível.
A ideia inicial seria que o fornecimento de água ficasse disponível sem pausas em toda área residencial. Porém, com a quebra de uma caixa d’água o serviço ainda estava sendo fornecido dessa forma (Figura 20A e B).
Figura 20: Fotos da Caixa d'água construída pela ASPROC através do Projeto SANEAR. A) Placa do Projeto SANEAR em frente à caixa d’água. B) Inicialmente eram duas caixas d’água, um pouco antes da pesquisa de
campo, uma delas quebrou. Fonte: Terena Vidal (2019).
Outra questão que vale a pena ser ressaltada, é que essa água das caixas d’água que chega até as casas também é consumida para beber pelos comunitários sem nenhum tipo complementar de tratamento na residência.
Segundo relato dos entrevistados a qualidade e a distribuição de água realmente melhorou com a chegada do projeto Sanear. Quando perguntado sobre o serviço de tratamento, a resposta que obtivemos de um dos moradores foi a seguinte:
“O serviço melhorou, mas ainda não está ótimo, quando a ASPROC foi ver o modelo que tinha, não sei direito qual era o lugar, viram esse modelo de gestão, que a água ia vim tratada. [...] mas eu desconfio que essa água ainda não é o ideal pra nós né?!
Porque eles colocaram só o cloro, não sei se só o cloro resolve. Como a gente não tem essa informação, de como é ter uma água tratada, eu fico assim, meio cismado”
(MR034, 2019).
O principal problema que afeta a distribuição de água na Comunidade é o serviço de energia elétrica. Quando falta energia, não tem como a bomba hidráulica funcionar, fazendo com que os moradores, voltem a utilizar a água do rio para suas necessidades básicas.
A água, após o uso, é escoada a céu aberto para os quintais ou diretamente para o rio (BRASIL, 2011). A Comunidade do Roque não possui saneamento básico nem tratamento de esgoto, os resíduos oriundos das residências são depositados em “fossas negras” – esse modelo mais rústico traz mais riscos ao local. A fossa é escavada diretamente no terreno e não possui revestimentos. Os resíduos caem diretamente no solo, sendo assim eles podem se infiltrar na terra, contaminando o ambiente e tornando-se mais prejudicial à saúde – esse pode ser o fator
determinante para a grande quantidade de crianças com parasitoses na Comunidade (Figura 21 A e B).
Figura 21: Saneamento básico na Comunidade do Roque. a) Instalação das fossas nas residências. b) Acúmulo de dejetos nas ruas, dificultando a passagem dos moradores. Fonte: Terena Vidal (2019).
A Lei 11.445 de 5 de janeiro de 2007 que estabelece as Diretrizes Nacionais para o Saneamento Básico e para a Política Federal de Saneamento Básico, define o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais em quatro áreas: abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e drenagem e manejo das águas pluviais (BRASIL, 2007). Essa Lei estabelece as diretrizes nacionais e princípios fundamentais para a universalização do acesso ao saneamento, proposta esta que passa, necessariamente, pelo equacionamento da situação de comunidades isoladas.
Boas práticas de saneamento são fundamentais para evitar doenças, promover a saúde, proteger o meio ambiente e aumentar a qualidade de vida da população. No entanto, populações de zonas rurais, municípios de pequeno porte e comunidades isoladas, tendem a não conseguir essa promoção da qualidade de vida (TONETTI et al., 2018).
A situação de saneamento básico encontrada na Comunidade do Roque está longe de cumprir as metas do Objetivo 6 - Água Potável e Saneamento que:
6.1 até 2030 alcançar o acesso universal e equitativo da água potável e segura para todos;
6.b. apoiar e fortalecer a participação das comunidades locais, para melhorar a gestão da água e do saneamento (ONU, 2015).
A situação de abastecimento de água potável e saneamento na Comunidade do Roque sempre foi de péssima qualidade. Em 1998, antes da instalação da Usina de Beneficiamento de Óleos e Manteigas Vegetais, Comunidade ao Roque não tinha poço artesiano e a água do igarapé era utilizada para todos os fins.
Segundo Andrade (2010) a Comunidade do Roque não possuía fossas sanitárias e o rio era facilmente contaminado pelos dejetos humanos, contribuindo para a disseminação de doenças parasitárias, especialmente verminoses e doenças de pele. Ela relata que em 2009, quando a Usina já estava instalada, a disponibilidade de energia permitiu a construção de um poço artesiano, equipado com bomba elétrica de sucção e um conjunto de caixas d’água com capacidade para 10 mil litros. Refletindo positivamente na qualidade de vida e saúde dos moradores. Apesar da melhoria naquela época, o abastecimento ainda era ineficiente e não atendia toda a Comunidade.
Em 2008, a ASPROC com apoio da UnB (Universidade de Brasília), conceberam um projeto de Tecnologia Social de acesso à água em sistemas multiuso autônomo e comunitário, vinculado à um sistema de saneamento básico, chamado de SANEAR. Esse projeto foi financiado pela Petrobrás (Site da ASPROC, 2020).
O projeto “Sanear Amazônia: mobilização social por acesso a água às famílias extrativistas na Amazônia” teve como objetivo promover acesso a água para o consumo humano em comunidades extrativistas da Amazônia. É uma proposta que assegura o abastecimento de água potável para 2.800 famílias extrativistas de forma direta (Site do MEMORIAL CHICO MENDES, 2020). A ampliação do projeto ocorreu em 2014, a partir da articulação política do CNS (Conselho Nacional dos Seringueiros) com o MDS (Ministério do Desenvolvimento Social), iniciando um processo de sistematização de tecnologias sociais de saneamento rural para a Amazônia, com base nos modelos de tecnologias implementados no projeto piloto, junto ao Programa Cisterna do MDS (BERNARDES; COSTA; BERNARDES, 2018)