1 ROUND RODOLFO TEÓFILO E A VIDA LITERÁRIA EM FORTALEZA
1.9 Abolição dos escravos e o Clube Literário
“O que o Ceará acaba de fazer não significa por certo ainda – O Brasil da Liberdade; mas modifica tão profundamente o Brasil da escravidão, que se pode dizer que a sua nobre província nos deu uma nova pátria. A imensa luz acesa no Norte há de destruir as trevas do Sul. Não há quem possa impedir a marcha dessa claridade” (NABUCO, Joaquim apud GIRÃO, 1984).
No dia 25 de março de 1884, o Ceará foi a primeira província do Brasil a abolir o sistema escravista, antes da Lei Aurea (1888), cujo feito lhe consagrou o título de “Terra da luz”, por José do Patrocínio (1853-1905). No referido dia, a capital estava ruidosa, pela
comemoração do acontecimento e o jornal abolicionista O libertador estampava com entusiasmo em suas páginas:
O Ceará (...) passará à posteridade com a honra dos que tiveram o assombroso cometimento, que forte e suavemente fez inscrever a palavra – NÃO HÁ MAIS ESCRAVOS NO CEARÁ; O Ceará esta livre; agora o seu dever e a sua honra é não poupar sacrifícios nem esforços para atrair a si o resto do Brasil do qual tão brilhantemente se destacou. Honra ao Ceará! (O Libertador. Ano IV, n. 63. 25 de março de 1884).
A Abolição foi resultado da ação da variadas grupos esforçadas para o fim do tráfico de negros. Uma condição importante para o pequeno número de escravos no Ceará era que as bases da economia no estado eram a pecuária e o algodão, que não demandavam em larga escala a mão de obra escrava. Depois da grande seca de 1877, a venda dos escravos para o sudeste do país tornou-se um mercado bastante lucrativo.
A penetração das ideias abolicionistas começou a ganhar prumo com o desenvolvimento comercial no Ceará, principalmente, a dinamização da classe média e o seu interesse na modernização da região. Alinhado ao liberalismo na Europa, ideais como o trabalho assalariado e o livre comércio eram contrapostos à escravidão, tida como algo bárbaro e irracional. A escravidão era considerada antimoderna, pois não estava mais alinhada aos ideais iluministas e, para a maioria dos intelectuais, extirpá-la era fazer o Ceará evoluir rumo à civilização (modelo europeu).
A causa abolicionista empolgou vários jovens cearenses, que fundaram agremiações, tal como a Sociedade Cearense Libertadora, apresentando como sócios Isaac Amaral (1859-1942), Antônio Bezerra (1841-1921), João Cordeiro (1842-1931), Pedro Artur de Vasconcelos (1851-1914), Justiniano de Serpa (1852-1923), Pedro Borges (1851-1922). Membros dessa associação tiravam alguns escravos das fazendas e escondiam em sítios e chácaras do interior.
Em 1881, essa sociedade lançou um jornal, O libertador, com o intuito de instigar o povo cearense em prol da campanha abolicionista. Outros setores da população cearense achavam os métodos da Sociedade radicais e criaram o Centro Abolicionista, que contou com Guilherme Studart e João Lopes entre os seus membros.
O ideário dos jovens abolicionistas a respeito da abolição dos escravos foi relatado no primeiro número da revista A quinzena, por Antônio Martins (1852-1895):
A abolição na província, por exemplo, foi uma grande revolução patrícia; grande e nobre pelos seus elevados intuitos, generosa e pacífica como um préstito de heróis antigos, diante da civilização moderna. Mas, essa revolução foi feita pela mocidade cearense, que teve no seu sangue bastante energia para lavar da nodoa infamante do cativeiro uma das maiores e mais populosas conscrições do Império americano, nas águas lustrais da igualdade dos direitos de um povo, diante da pátria, fora das leis
civis e humanas. E dessa revolução contra os mais seculares e arraigados preconceitos e mais títulos de propriedade constituída, não há uma página de sangue! Pois bem: diante desse deslumbramento de heroísmo, a maioria dos homens do poder ergueu o seu ódio e o ódio dos apologistas da escravidão dos brasileiros rendidos ao trabalho! A província ficou odiada dos grandes fazendeiros do sul e dos pontífices políticos de todas as greis, enquanto recebia dos confins do mundo civilizado as oblações da humanidade agradecida e dos homens admirados! Em que pese nossos antagonistas, que são os antípodas da civilização – a terra livre do Ceará após todos os desastres da ultima seca de cinco anos, e, mesmo, dos constantes obstáculos que lhe antepõem a politica e o governo floresce a olhos vistos diante do estrangeiro e diante do País (A quinzena, Nº 01. 15/ 01/ 1887. p. 07).
Mesmo pertencendo a uma geração de materialistas, os membros da ‘mocidade cearense’ são descritos com paixão, tal qual a ação dos heróis gregos diante da tomada de Troia. A revolução foi necessária, pois a escravidão significava um atraso para o povo americano, novo e repleto de energia. Contudo, percebemos que no discurso de Antônio Martins, estão explícitos os ideários iluministas da Revolução Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade. Para justificar as ações de 1884, que não foram somente ‘pacíficas’, é construído um discurso apoteótico, em defesa da causa nobre da emancipação dos cativos, no qual os abolicionistas são os heróis aplaudidos. Para os intelectuais, a abolição seria uma conquista moderna.
Foi criado devido às afinidades intelectuais de alguns jovens abolicionistas, recém-saídos do movimento libertário, ligados por uma forte sociabilidade literária, em 15 de Novembro de 1886, uma associação que iluminaria singularmente o universo letrado da capital cearense: o Clube Literário. Esta agremiação, nas palavras de Barão de Studart (1856- 1938), foi o “renascimento literário do Ceará” (1910, p. 214). Seu idealizador foi o escritor João Lopes (1854-1928), membro do Centro Abolicionista, que outrora participara da Academia Francesa (1872-1875). A publicação oficial desta agremiação era a revista A
Quinzena, e o seu objetivo era ser apologista das ideias modernas oriundas da Europa.
A agremiação foi formada por 36 homens e duas mulheres. Ao lado de poetas do romantismo como Juvenal Galeno (1853-1931), Antônio Bezerra (1841-1921), Antônio Martins e Justiniano de Serpa (1853-1923), os poetas da abolição, e Virgílio Brígido (1854- 1920), perfilavam-se Oliveira Paiva (1861-1892), Antônio Sales (1860- 1940), Rodolfo Teófilo (1853-1932), José Carlos Júnior (1860-1896), Xavier de Castro (1858-1895), Farias Brito, Abel Garcia (1864-?); Paulino Nogueira (1842-1908); Martinho Rodrigues (?-1905); Pápi Júnior (1854-1934), Ana Nogueira (1870-?); Francisca Clotilde (1862-1935), esta com o pseudônimo de Jane Davy.
Através das páginas da revista A quinzena, ao lado de poemas românticos, surgiram textos realistas como os contos de Oliveira Paiva, contos científicos de Rodolfo Teófilo, anunciando a presença do realismo-naturalismo em nosso estado.
Assim como a Academia Francesa, da década de 1870, os escritores e intelectuais do Clube Literário adotaram os mesmos aspectos de sociabilidade literária, reunindo-se para ler e debater as novidades filosóficas e literárias da Europa e da Corte brasileira. Muitas dessas conferências, pronunciadas em sessões noturnas, foram estampadas nas páginas d’A
quinzena. Sânzio de Azevedo, sobre as atividades do Clube, informa que:
o grêmio contribuiu admiravelmente para a renovação das letras do Ceará: com o conhecimento do que se passava nos grandes centros é que nossos escritores foram pouco a pouco aderindo à nova corrente, o Realismo. Dir-se-ia haver João Lopes trazido da Academia Francesa o costume das leituras críticas... (AZEVEDO, 1976, p.92)
Esse aspecto de sociabilidade literária, denominado pelo próprio João Lopes de “leitura crítica” é muito importante para compreendermos a dinâmica dessas agremiações, que se estenderão até o século XX, também delas fazendo parte da famosa e irreverente Padaria Espiritual (1892-1898). O espaço que foi utilizado para a divulgação das ideias novas e, sobretudo, dos textos literários dos membros (inclusive estreantes como Rodolfo Teófilo, Antônio Sales, Farias Brito, Oliveira Paiva) foi à revista A Quinzena.
O periódico circulou de janeiro de 1887 a junho de 1888, no total de trinta números. Seus redatores fixos eram João Lopes, José de Barcelos, Antônio Martins, Oliveira Paiva, José Olímpio (substituído por José Carlos Júnior), Antônio Bezerra, Justiniano de Serpa, Paulino Nogueira e Martinho Rodrigues.
Através das páginas da revista A quinzena, Farias Brito publicou os poemas que formariam o livro Cantos modernos (1889); o poeta piauiense H. Castelo Branco publicou a
Lira Sertaneja (1881). De Oliveira Paiva, o romance A afilhada (1889) também figurou nas
páginas do periódico, embora também divulgado no rodapé do jornal O libertador. Oliveira Paiva, futuro autor de Dona Guidinha do poço (1962), publicou diversos contos, ora revelando, ora ocultando a sua identidade, sob o pseudônimo de Gil, entre outros. Em quatro dos trinta números, Farias Brito publicou o ensaio “O papel da Poesia”; também foi publicado o estudo de Abel Garcia, “A mulher Cearense”; em dois outros números, José de Barcelos tratou da obra do pedagogo Pestalozzi. A estética naturalista foi divulgada por Oliveira Paiva, através dos artigos “O naturalismo” (Nº 1, 15/01/1888) e “O que vem a ser uma obra naturalista?” (N. 31/01/1888) e por José Carlos Júnior com a coluna “Apontamentos esparsos”.
No primeiro número, o fundador João Lopes, no texto que abre a revista, “Preliminares”, apresenta-nos uma visão progressista da sociedade e também faz uma crítica aos “homens práticos”:
na província, aqui por estes recantos do norte, parece destino quebrar a homogeneidade beatificante rotineira da vida provinciana, para escrever sobre letras e artes e ciências. Vão assim objetar-nos os homens práticos, que, por pouco que saibam, sabem belamente sentenciar ex-cathedra que o nosso público é infenso, senão hostil a isso de literatura ‘que não bota ninguém para diante [...] Ficam, portanto, sabendo os homens práticos, que não somos ingênuos, que não temos peneira nos olhos, que não vemos tudo cor de rosa (A Quinzena, n° 1, 15/01/1887. p. 1).
Nesse trecho, percebemos os conflitos do campo intelectual ocupado pelos membros do Clube Literário. Eles se opõem aos “homens práticos”, isto é, dos burgueses, pois eles os consideravam vulgares e contrários às coisas artísticas. Os escritores possuíam a crença de que o meio em que viviam não era propicio às letras, mesmo na Capital do Império, e para construir uma pretensa “civilização sul-americana” era preciso por meio de uma luta tenaz, romper a indiferença pública, na tentativa de ampliar o campo literário da província.
Apesar de João Lopes mencionar que A Quinzena é uma publicação puramente literária, a revista também servia de espaço para a divulgação das ideias cientificistas e positivistas. A maioria dos membros era entusiasta do ideário moderno, com a exceção de Farias Brito que via com cautela essa onda de progressismo. Contudo, não estamos nos referindo ao filósofo que se consagraria posteriormente. Nessa época, ele ainda não havia publicado a sua primeira obra de peso – Finalidade do Mundo (1894), apesar de que boa parte desta obra ainda estava sendo redigida.
Já referimos que a “leitura crítica” era um importante aspecto de sociabilidade do Clube literário. Essas leituras eram realizadas pelos seus membros nas famosas conferências do Clube. No nº 14 da revista A Quinzena, Oliveira Paiva, analisando essas conferências, define os propósitos poéticos desta instituição:
Nada é tão capaz de fomentar o patriotismo e acender os brios de uma nação, como a Literatura. O livro acompanha o individuo onde quer que ele vá. Custa-lhe barato. Que mais? Deve ser uma arma para o cearense. Esta é a ideia do Club Literário: - o Livro e a Palavra em ação É por isso que, tendo iniciado a publicação da Quinzena, vai inaugurar brevemente as suas conferências; e assim, iremos derrocando, de bastilha em bastilha, a indiferença, - indigna e baixa até para os animais. Que o povo não seja rebelde à voz dos seus melhores amigos; que a sociedade cearense corra a ouvir as palavras sinceras arrancadas à parte mais nobre da nossa alma; que a província lembre-se de que é feita para um futuro de glórias e de bem-estar; (...) Avante pelo trabalho assíduo! – é o nosso bardo (A Quinzena n° 14, 31/06/1887. p. 105).
Notamos no trecho citado, o entusiasmo de Oliveira Paiva por retirar a cidade da mediocridade cultural. Do ponto de vista progressista, isto poderia ser feito através do
letramento. Eis o lema do Clube Literário: “O Livro e a palavra em ação”. O livro era mais que um mero veículo editorial de circulação de ideias, ele seria “como arma”, um recurso para aquisição do capital cultural da população da cidade. Tanto para Oliveira Paiva, quanto para os outros membros da referida agremiação, o desenvolvimento intelectual do povo cearense significava atingir um estágio civilizatório comparável ao modelo europeu. Criticamente, sabemos que o capital cultural não era acessível a toda camada da população. A educação formal do povo não foi um interesse imediato para os altos membros do campo do poder.
A maioria dos membros do Clube estrearam literariamente, por meio de poemas e textos ficcionais curtos nas páginas da A Quinzena. As obras literárias se constituíram na implicação de certos ritos normatizados (leituras, comentários, saraus, conferências, aulas) no interior dessa instituição específica, materializadas por meio da revista, circulando assim na sociedade. Os intelectuais e escritores só podem dizer algo do mundo, tratando da problemática de seus funcionamentos. Os escritores se colocam em jogo. Dominique Maingueneau nos esclarece que “a vida literária está estruturada por essas ‘tribos’ que se distribuem pelo campo literário com base em reivindicações estéticas distintas: círculo, grupo, escola, cenáculo, bando, academia...” (2001, p. 30).
No caso de Rodolfo Teófilo, que escrevera poemas desde sua juventude, publica na Quinzena também alguns poemas. Contudo, a sua incursão no grêmio não foi literariamente, mas pelo seu prestigio científico e intelectual, por meio da publicação de contos e artigos científicos. Como homem formado, ele podia circular entre seus pares.
A ‘leitura crítica’, como forma de sociabilidade literária ocorria em sessões noturnas (espaço de tempo marginalizado, devido ao dia dedicado ao trabalho) do Clube, onde se liam e apreciavam os livros recentes. Todas as noites aconteciam palestras sobre arte, literatura, filosofia e ciência.
O Clube Literário surgiu como uma associação formal, firmada por meio da elaboração de estatutos, elegendo um presidente, um tesoureiro e cada membro possuindo sua função.
Art. I – O clube Literário tem por fim promover a ativar o progresso intelectual de seus associados. Art. II – compõe-se de sócios efetivos e correspondentes. [...] Art. V – Só podem ser sócios do clube os homens dados às letras. [...] Art. VII – Haverá sessão da diretoria as semanas e da assembleia geral uma vez por mês. Art. VIII – Para realização de seu programa o clube Literário manterá um órgão na imprensa, promoverá conferências publicas, procurará relacionar-se com os vultos da literatura, das artes, e da ciência, corresponder-se-á com as corporações congêneres do império e do estrangeiro, e intervirá perante os poderes públicos quando assim for necessário (A quinzena, Nº 17, 17 de setembro de 1887, p.136).
Percebemos que os estatutos, além de comunicar o ideário da agremiação, é um documento que registra a formalização e a institucionalização do grupo. Nos artigos citados, também vemos as características de sociabilidade literária a que já aludimos: como o caráter literário da agremiação, a defesa das ideias ditas modernas, as reuniões e conferências, a correspondências com agremiações de outros estados e com países estrangeiros e a atuação na imprensa.
O espaço de sociabilidade culminante para o qual convergiam todos os propósitos do Clube Literário era a revista A quinzena. O historiador Jean-François Sirinelli (1949), nos auxilia nesse debate, esclarecendo-nos a respeito da importância das revistas:
Entre as estruturas mais elementares, duas, de natureza diferente, parecem essenciais. As revistas conferem uma estrutura ao campo intelectual por meio de forças antagônicas de adesão – pelas amizades que as subtendem, as fidelidades que arrebanham e a influência que exercem – e de exclusão – pelas posições tomadas, os debates suscitados, e as cisões advindas. Ao mesmo tempo que um observatório de primeiro plano da sociabilidade de microcosmos intelectuais, elas são aliás um lugar precioso para a análise do movimento das ideias. Em suma, uma revista é antes de tudo um lugar de fermentação intelectual e de relação afetiva, ao mesmo tempo viveiro e espaço de sociabilidade, e pode ser, entre outras abordagens, estudada nesta dupla dimensão (SIRINELLI, 2003, p. 249).
Pelos apontamentos de Sirinelli, a revista pode significar um espaço de
sociabilidade e de difusão de ideias. A revista A quinzena representou um espaço criado a
partir do desejo de convivência, estimulada por relações de amizade e parceria. O campo
literário em que o Clube Literário estava inserido não se constituía como uma unanimidade.
O filósofo Farias Brito estabeleceu uma relação de conflito com os demais membros da associação que estavam em dissonância em relação à sociedade cearense. O que une a maioria de seus associados é o desejo progressista de elevar o padrão cultural e civilizatório do povo cearense. Através de uma voz ativa e lúcida, Farias Brito não se contrapôs ao ideário cientifico, porém ele denunciou a fé exacerbada que estava sendo depositada na ciência. Num ensaio intitulado “O papel da poesia”, dividido em quatro partes, publicadas nos números 6, 7, 8 e 9, da revista A Quinzena, Farias Brito levantou o seguinte questionamento: numa época em que prevalecem as ideias da ciência, a poesia e a arte em geral teriam razão de ser? Ele foi singular, por se chocar contra o pensamento dominante e por defender a importância da poesia e das artes, numa época em que o véu materialista cobria os olhos dos intelectuais. Farias Brito, ao mostrar que a poesia sempre está interligada ao seu tempo, criticou os escritores inspirados pelas ideias modernas, que elevaram a ciência como valor absoluto, tornando a sua visão anacrônica. Essa crítica foi direcionada aos intelectuais de outras agremiações, principalmente, os da Corte. Em relação aos confrades do Clube literário, mesmo tendo, cada um, sua própria visão, a convivência era de camaradagem.
Percebemos, então, que a revista como representação simbólica do campo
literário era um espaço de discordâncias e tensões, e A quinzena foi fruto do trabalho
intelectual que conviveu e produziu uma obra coletiva.
A contribuição textual de Rodolfo Teófilo na revista A quinzena foi através das colunas “História natural” e “Ciências naturais”. Ele começa a publicar os seus contos no número doze e tinha como alvo a divulgação das novas concepções científicas. Os contos eram escritos em forma de diálogos didáticos entre ele e sua esposa Raimundinha, tendo como cenário o seu sítio na Pajuçara. A natureza era analisada sob o ponto de vista da reflexão cientifica, seguindo nomes científicos de insetos e plantas e alusões a livros de naturalistas:
Voltamos ao lago, ao caminho a minha companheira disse-me: - Já a sensitiva recolhe-se, fecha as folhas e vai dormir, e as donzelinhas ainda voltejam sobre as aguas! Aproveitam até o último raio da luz crepuscular! No voo rápido fendem com a ponta da asa a agua como as andorinhas. Divertem-se muito, não é assim? – Não, fazem pela vida. Caçam e entregam às aguas o fruto de seus amores. – Caçam! E elas não vivem como as borboletas do mel das flores? – Não sabes a história destes insetos. Se conhecesses melhor a Entomologia, parte da História Natural que os estuda, saberias que as donzelinhas ou libelinhas são insetos neuropteros carnívoros (A Quinzena, Ano. I, Nº 12, 05 de julho de 1887, p. 94.).
Teófilo desenvolve a sua narrativa para explicar a origem e o funcionamento dos fenômenos naturais e dos seres vivos. Ele possuía uma visão mecanicista da natureza, enxergando-a como algo harmônico, em constante processo evolutivo. Todo fenômeno, em qualquer organismo é mecanicamente determinado, especialmente em sua natureza físico- química. Essa visão foi construída a partir das leituras evolucionistas (Spencer e Darwin) e determinismo casualista de origem positivista (Augusto Comte). O farmacêutico escreveu contos sobre: As donzelinhas; as borboletas; a luz; o cafeeiro; ar e atmosfera; as flores; a água; reprodução dos vegetais; a vida dos vegetais; e os vulcões.
A razão de estudar as ciências naturais se dava devido à concepção positivista de que a ciência era a rainha dos conhecimentos. Então, estudar ciência seria uma forma de se compreender o mundo e a sociedade que os cercavam.
Os membros do Clube Literário se apossaram da missão de levar o ‘progresso’ e a civilização’ ao povo cearense, através da divulgação de livros e pensadores europeus. Era um meio idealista de romper a ignorância e as intempéries sócioclimáticas, que mergulhavam o Ceará no atraso civilizatório. A ‘marcha do progresso’ da mocidade cearense foi descrita pelo artigo de Antônio Bezerra:
Por toda a parte se fundam sociedades com o fim de propagar o ensino entre os sócios; possui esta capital magníficas bibliotecas particulares, em cujas estantes se encontram os livros mais valiosos e mais modernos da ciência europeia, e não faltam amadores que sondam-lhe os segredos com a avidez de um avarento. Têm aqui vários assinantes os jornais estrangeiros, que não importa sejam escritos em francês, inglês, italiano, alemão etc. com tanto que divulguem as descobertas modernas, sobretudo da
antropologia, de cuja solução pendem os mais importantes problemas sobre o homem. O mutismo de outrora sucede lisonjeira tendência para as publicações (sic) (BEZERRA, A Quinzena. 03. 05. 1888. p. 52).
Na declaração, Antônio Bezerra se reporta ao contexto da cidade de Fortaleza, durante as décadas de 1870 e 1880, a partir das entradas de livros e revistas vindas da Europa,