CAPÍTULO 4 AGREE COM SUJEITOS COMPLEXOS
4.2 Abordagem como Movimento em LF
Den Dikken (2001), que nomeia o fenômeno analisado nesta tese como “concordância por atração”, apresenta uma proposta de análise para ele a partir do comportamento de pronomes nulos e fracos do inglês. Diferentemente de sintagmas nominais plenos, pronomes nulos e fracos não podem procrastinar, ou seja, não se movem em LF, o que os força a realizar todos os movimentos em sintaxe manifesta. Nesses termos, o autor assume que a concordância por atração deva ser analisada em termos de movimento em LF do sintagma nominal encaixado, o que explica o fato de que pronomes não podem desencadear concordância por atração em sentenças como *the identity of them are to be
kept a secret.
O autor afirma que pronomes nulos e fracos têm uma propriedade intrínseca de serem invisíveis a Attract em LF, o que os força a realizar todos os movimentos em sintaxe manifesta (cf. Chomsky, 1993 e Boškovic, c.p., apud Den Dikken, 2001, p.19), como mostram os exemplos abaixo.
6 John looked up the information/*it. 7. John looked the information/it up.
126 Nesse sentido, pronomes nulos e fracos são como expletivos, os quais devem alçar em sintaxe manifesta (cf. (8), from Boškovic 1997 apud Den Dikken, 2001, p. 21).
8. a. *I alleged John to have stolen the documents. b. I alleged him to have stolen the documents.
c. I alleged there to be stolen documents in the drawer.
Os dados mostram que sintagmas nominais plenos (e também pronomes fortes), ao realizar movimento encoberto, comportam-se de maneira diferente dos pronomes nulos e fracos, que não podem sofrer movimento em LF, ou seja, não podem realizar movimento encoberto.
Den Dikken toma isso como ponto de partida para a investigação do comportamento dos pronomes (fracos e nulos) do inglês no domínio do fenômeno da concordância. Essa investigação o leva a três domínios: (i) fenômeno de concordância por atração (the identity
of the participants is/!are to be kept a secret), (ii) sintagmas nominais coletivos (chamados
de “pluringulars” por serem híbridos de sintagmas nominais singular e plural (the
committee is/%are holding a meeting in the room) e (iii) construções com there expletivo
(there are/’s lots of people in the room).
No que tange mais especificamente ao objeto de interesse desta tese, o autor aponta uma das propriedades gramaticais observadas por Kayne (1998 a, b apud Den Dikken, 2001) quando da análise desse fenômeno, a qual se refere ao fato de que, no inglês, um pronome não pode desencadear atração, independentemente de sua posição no sintagma nominal complexo, como ilustram as sentenças a seguir.
9. a. *The identity of them are to remain a secret. b. *Their identity are to remain a secret.
Kayne (1998b apud Den Dikken, 2001) também chama atenção para o fato de que a concordância por atração é sensível ao escopo, como ilustrado em (10).
10. a. The key to all the doors is missing.
127 O fato de que (10b), na medida em que é aceitável, permite somente uma interpretação de escopo amplo para “all the doors” sugere uma explicação do fenômeno de concordância por atração em termos de movimento em LF – em particular de alçamento de quantificador (QR – Quantifier Raising). Tal abordagem é reforçada pelo fato de que quantificadores que não podem ter escopo amplo invertido consequentemente são restritos a leituras de escopo estreito, não conseguindo desencadear atração: *the key to few doors
are missing.
Den Dikken (2001) adota uma perspectiva na qual QR toma os traços formais de uma expressão quantificada de alguma posição de operador – minimamente para o D local, da qual o movimento cíclico sucessivo para posições de operadores mais altas é possível. A adjunção dos traços formais de “all the doors” ao núcleo D do sujeito complexo em (10b) para ganhar escopo sobre “key” resulta numa configuração na qual os traços formais do QP (incluindo seus traços-φ) vêm c-comandar os traços formais do sujeito inteiro (cf. 10b’ abaixo).
10. b.’ [IP [DP [D <FFNP2> [D the+FFNP1>]] [NP1 keyN1 [to [NP2 all the doorsN2]]]]
[I’ are missing]]
Considerando isso como resultado, esses traços podem (mas não têm de, já que (10a) também é gramatical em uma leitura de escopo amplo para “all the doors”) assumir a liderança na determinação da concordância com o verbo finito. A leitura de escopo amplo único para “all the doors” em (10b) segue então: os traços de QP ganham acesso àqueles de Infl como um resultado de movimento em LF, que, por sua vez, resulta no escopo amplo para o QP. A explicação transitará para construções como (11) abaixo, segundo o pressuposto de que sintagmas nominais não quantificacionais podem promover seus traços formais para um núcleo D mais alto também (cf. Heim and Kratzer, 1998).
11. ![The identity of the participants] are to remain a secret.
Para Den Dikken (2001), a agramaticalidade da concordância por atração em (9) é inteiramente simples, pois a abordagem de movimento em LF para tal fenômeno, motivada independentemente pelos fatos de escopo em (10), explica-o à luz da conclusão de que
128 pronomes não podem sofrer movimento em LF. Diante disso, então, a abordagem baseada em QR para o fenômeno de atração do inglês dá suporte à conclusão sobre pronomes fracos. A proposta de Den Dikken (2001) de que a concordância por atração deva ser analisada em termos de movimento em LF do sintagma nominal encaixado, o que explicaria o fato de que pronomes não podem desencadear concordância por atração em sentenças como *the identity of them are to be kept a secret, não pode ser estendida ao PB, uma vez que temos orações como em (11), em que o pronome desencadeia concordância.
12. a. [A identidade deles] devem ser mantidas em segredo. b. [O carro deles] são mais bonitos que o do meu pai. c. [A música delas] são muito boas.
d. [O cachorro deles] sumiram.
Uma proposta baseada em movimento em LF com base no comportamento de pronomes não encontra respaldo empírico em nossa língua. Ainda que a proposta de Den Dikken (2001) seja plausível e trate da sintaxe interna ao DP, ela não abarca os dados do PB, que, a partir do que se observa em (12), admite a concordância plural do verbo com sujeitos complexos com modificador pronominal.
Considerando a impossibilidade de explicarmos o fenômeno do PB sob essa ótica, seguimos adiante em busca de uma outra proposta de análise que explique o problema que motivou esta tese.