FORMADOS 128 7 RELAÇÃO DOS INTITULAMENTOS, RENDA E MEIOS DE VIDA
2 OS PROCESSOS DE TRANSFORMAÇÕES NO MEIO RURAL BRASILEIRO E SUAS INFLUENCIAS NOS ACESSO AOS RECURSOS
2.1 ABORDAGEM DAS CAPACITAÇÕES E OS INTITULAMENTOS
Nas últimas décadas os estudos rurais tem se dedicado em encontrar e definir novas abordagens de desenvolvimento que possam superar os modelos ancorados em perspectivas produtivistas, reguladas por noções de modernização, industrialização e crescimento econômico. Todavia, são notórias as dificuldades para consolidar alternativas teóricas que possam efetivamente resultar em mudanças sociais de forma a contornar e superar os impactos e efeitos causados pelos modelos “desenvolvimentistas”.
Dentre as diversas escolas do pensamento sociais e econômico que tem se dedicado a esses esforços, as abordagens preocupadas em estudar os indivíduos e o desenvolvimento tem demostrado ser uma via importante de análise dos processos de mudanças sociais, como a abordagens das capacitações de Amartya Sen (2010) e dos meios de vida de Frank Ellis (2000), bem como, a perspectiva orientadas aos atores do Long e Ploeg (2011).
É nesse contexto que a abordagem das capacitações tem oferecido contribuições ao longo das últimas duas décadas acerca de questões como subdesenvolvimento, pobreza, desigualdade e restrições. Esta abordagem nasce da proposição de que para que o desenvolvimento seja exercido pelos indivíduos, deve-se atribuir atenções aos meios disponíveis e não direcionar a atenção para apenas os fins. Entretanto, é importante lembrar que antes mesmo da abordagem das capacitações nascida nos anos 1990, houveram duas diferentes abordagens do fenômeno da pobreza e suas concepções desenvolvidas ao longo do século XX: sobrevivência e necessidades básicas.
O enfoque de sobrevivência, o mais restritivo, predominou até a década de 50, tendo origem nos trabalhos que apontavam que a renda dos mais pobres não era suficiente para a manutenção do rendimento físico do indivíduo. Os verdadeiros objetivos dessa concepção era limitar as demandas por reformas sociais e ao mesmo tempo preservar a ênfase no individualismo compatível com o ideário liberal; e a maior crítica, é que, com ele, justificavam- se baixos índices de assistência: bastava manter os indivíduos no nível de sobrevivência.
A conotação de necessidades básicas iniciou a partir de 1970, a partir novas exigências, como: serviços de água potável, saneamento básico, saúde, educação e cultura. Assim, configurou-se o enfoque das necessidades básicas, apontando certas exigências de consumo básico de uma família. Essa concepção passou a ser adotada pelos órgãos internacionais, sobretudo por aqueles que integram a Organização das Nações Unidas (ONU), representando uma ampliação da concepção de sobrevivência física pura e simples.
A partir de 1980, a pobreza passou a ser entendida como privação relativa, dando ao conceito um enfoque mais abrangente e rigoroso, buscando uma formulação científica e comparações entre estudos internacionais, enfatizando o aspecto social. Dessa forma, sair da linha de pobreza significava obter: um regime alimentar adequado, um certo nível de conforto, o desenvolvimento de papéis e de comportamentos socialmente adequados.
A abordagem da privação relativa evoluiu, e passou a ter como um de seus principais formuladores o indiano Amartya Sen. Seu conceito introduziu variáveis mais amplas, chamando a atenção para o fato de que as pessoas podem sofrer privações em diversas esferas da vida. Ser pobre não implica somente privação material. As privações sofridas determinarão o posicionamento dos cidadãos nas outras esferas.
Ressalta-se que até meados da década de 1960 um país era considerado pobre ou não pelo simples fato de ter ou não o maior Produto Interno Bruto (PIB), ou seu correspondente per capita. Um marco recente, que veio em convergência com a abordagem da privação relativa de Amartya Sen e que revolucionou a forma de analisar um país, foi o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o qual teve início em 1990, ou seja, refere-se a um histórico bastante recente. Esse índice nasceu da observação que nas últimas décadas do século XX, o tema desenvolvimento nem sempre estava ligado à distribuição de renda e ao bem-estar da sociedade, por este motivo, sentiu-se a necessidade de criar um modelo paralelo de medida, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Este índice foi desenvolvido em 1990 pelos economistas Amartya Sen e MahbubulHaq, e vem sendo usado desde o ano de 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Ele é composto por dados de expectativa de vida ao nascer, educação e o PIB per capita (como um indicador de padrão de vida). Anualmente os países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) são classificados de acordo com este índice, e os governos também o utilizam para medir o desenvolvimento de entidades subnacionais. O IDH parte do pressuposto de que para aferir o avanço na qualidade de vida de uma população é preciso ter em analise características econômicas, culturais e políticas que influenciam a qualidade da vida humana.
Os dados do IDH variam de 0 (país sem nenhum desenvolvimento humano) a 1 (país que possui o maior desenvolvimento humano). O Brasil, como podemos observar no Gráfico 1, abaixo, saiu de 0,545 (baixo IDH) em 1980 para 0,744 (alto IDH) em 2014. Ressalta-se que , do ponto de vista social, nas últimas décadas do século XX ocorreu um forte crescimento dos índices de pobreza e de miséria em todo o país, pois, de acordo com Mattei (2012) o Brasil estava sob resultado dos efeitos perversos dos programas de estabilização econômica, os quais agravaram as condições do mercado de trabalho, levando ao aumento das taxas de desemprego, à expansão da informalidade e à redução dos salários básicos, bem como estimularam a continuidade dos deslocamentos populacionais, provocando o inchaço das grandes metrópoles urbanas, que passaram a concentrar a maior parte da população do país.
Gráfico 1- Histórico do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) Brasileiro, no período de 1980 a 2014
FONTE: PNUD (2014)
Ressalta-se atualmente o Brasil ocupa a 79ª posição entre os 187 países mensurados, e que em comparação com os demais países do mundo nota-se que a presença da pobreza ainda é aguda. O Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil ficou maior que o de países como China (0,715), Colômbia (0,708), Indonésia (0,681) e África do Sul (0,654); no entanto, o nosso país encontra-se atrás de outras nações como o México (0,755), Panamá (0,761), Líbia (0,789) e República Tcheca (0,861).
Em avaliação dos principais quesitos que integram o cálculo do IDH entre os anos de 1980 e 2014, separadamente, verifica-se a partir da Tabela 1, abaixo, que houve evoluções substanciais, mas ainda são necessárias melhorias.
0,545 0,575 0,612 0,65 0,682 0,705 0,739 0,744 0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2014