3 O PLANEJAMENTO E O DESENVOLVIMENTO DAS SITUAÇÕES DE
4.1 ABORDAGEM HISTÓRICO-CULTURAL E A SIGNIFICAÇÃO DOS
Compreender um processo de significação dos conceitos de Ciências da Natureza no ensino requer as leituras e releituras de Vigotski, que aborda a necessidade entender o desenvolvimento dos conceitos científicos na mente da criança e questiona “o que acontece na mente da mesma com os conceitos que lhe são ensinados e qual a relação entre a assimilação da informação e o desenvolvimento interno de um conceito na mente infantil” (VIGOTSKI, 2008, p. 103).
Segundo o autor, a resposta a esse questionamento pode ser explicada através da psicologia infantil. Uma delas chamada de escola de pensamento e a outra de evolução dos conceitos científicos. A primeira acredita que os conhecimentos científicos não passam por nenhum processo de desenvolvimento, sendo absorvidos já prontos na compreensão e assimilação, e afirma ainda que a maior parte das teorias da educação se baseia nessa concepção. A segunda, não nega a existência de um processo de desenvolvimento, que não difere dos conceitos formados pela criança em sua experiência cotidiana.
Diante dessas duas concepções, Vigotski estabelece uma nítida fronteira entre as ideias das crianças e aquelas que foram influenciadas pelos adultos e denomina-as respectivamente em grupo espontâneo e não espontâneo. O autor defende que a criança ao formar um conceito o marca com características da sua mentalidade, porém aplica essa tese apenas aos conceitos espontâneos, ou seja, ele não consegue fazer a interação entre os dois tipos de conceitos.
Ao considerar esses dois grupos de conceitos, espontâneos e não espontâneos, entendo que ambos se relacionam e se influenciam constantemente, visto que os conceitos não são aprendidos mecanicamente, mas evoluem nas crianças. O autor afirma que o aprendizado é muito importante e direciona o seu desenvolvimento (VIGOTSKI, 2008).
Nesse sentido, apresenta-se uma razão para diferenciar os conceitos espontâneos e não espontâneos, visto que os conceitos se formam e se desenvolvem sob condições internas e externas. A mente assimila de forma diferente os conceitos da escola e os que se referem aos seus próprios entendimentos, seu cotidiano. Logo, descobrir a relação entre o aprendizado e o desenvolvimento dos conceitos científicos é uma tarefa extremamente importante e prática. Desse modo, passa a comparar a partir de então, os conceitos científicos dos conceitos cotidianos, como Vigotski (2008, p. 108) descreve em sua obra:
A mente se defronta com problemas diferentes quando assimila os conceitos na escola e quando é entregue aos seus próprios recursos. Quando transmitimos à criança um conhecimento sistemático, ensinamos- lhe muitas coisas que ela não pode ver ou vivenciar diretamente. Uma vez que os conceitos científicos e espontâneos diferem quanto à atitude da criança para com os objetos, pode-se esperar que o seu desenvolvimento siga caminhos diferentes, desde o seu início até a sua forma final.
Nessa perspectiva, o autor passa a considerar um estudo comparativo e separa os conceitos científicos dos conceitos cotidianos e utiliza como parâmetro a elaboração de um instrumento de mediação, e aborda a necessidade de conhecer as características dos conceitos do cotidiano na idade escolar e a direção do seu desenvolvimento nesse período. E aponta, que o fato de nos tornarmos conscientes de nossas operações, como uma lembrança, uma imaginação, por exemplo, passa a nos tornar capazes de dominá-las. Para o autor é através dos conhecimentos científicos que a criança passa a ter a consciência reflexiva, como descrito:
O aprendizado escolar induz o tipo de percepção generalizante, desempenhando assim um papel decisivo na conscientização da criança dos seus próprios processos mentais. Os conceitos científicos, com o seu sistema hierárquico de inter-relações, parecem constituir o meio no qual a consciência e o domínio se desenvolvem, sendo mais tarde transferidos a outros conceitos e a outras áreas do pensamento. A consciência reflexiva chega à criança através dos portais dos conhecimentos científicos (VIGOTSKI, 2008, p. 115).
Nessa concepção, a consciência significa generalização, e a formação de um conceito, implica uma série de conceitos a ele subordinados e em diferentes níveis de generalidade, ou seja, o conceito dado é inserido em sistema de relações que se pode configurar. Logo, os conceitos adquiridos na escola são mediados incialmente por outro conceito, que posteriormente serão sistematizados com os conceitos científicos, desenvolvendo sua estrutura psicológica, como descreve o autor:
Nos conceitos científicos que a criança adquire na escola, a relação com um objeto é mediada, desde o início, por algum outro conceito. Assim, a própria noção de conceito científico implica certa posição em reação a outros conceitos. É nossa tese que os rudimentos de sistematização primeiro entram na mente da criança, por meio do seu contato com os conceitos científicos, e são depois transferidos para os conceitos cotidianos, mudando a sua estrutura psicológica de cima para baixo (VIGOTSKI, 2008, p. 116).
Segundo o autor, o desenvolvimento tem que completar certos ciclos antes que o aprendizado possa começar, ou melhor, alcançar um nível mínimo necessário. Porém, essa visão unilateral implica em uma série de concepções errôneas, e devemos considerar na criança a sua memória, sua atenção e o seu pensamento. Na verdade, o nível de desenvolvimento da criança não deve ser avaliado por aquilo que ela aprendeu através da instrução, mas sim pelo modo como ela pensa sobre assuntos a respeito dos quais nada lhe foi ensinado.
Os problemas, no processo de ensino e aprendizagem, muitas vezes, estão mais voltados à reprodução de modelos do que para a compreensão conceitual, e esta concepção da educação não atende as exigências da sociedade tecnológica, precisamos proporcionar a abertura de espaços para uma educação que provoque e desenvolva mais significados aos pelos estudantes. Segundo Vigotski (2008), o pensamento reflexivo da criança chega através do conhecimento científico, conceitos estes que evolutivamente vão sendo trabalhados no processo de ensino e aprendizagem.
O educador não deve ensinar respostas prontas, mas possibilitar ao estudante ser construtor do seu próprio conhecimento, buscando, questionando e compreendendo a linguagem. A abertura de espaços significativos em sala de aula como usar laboratórios, desenvolver os conceitos a partir de temáticas, projetos e Situação de Estudo, por exemplo, valoriza o educando como sujeito que pode
auxiliar no processo educativo, visto que, um professor não pode ser mero transmissor de conhecimento.
Vigotski (2008) ao abordar as questões acerca do papel de intervenção pedagógica, retrata o processo de desenvolvimento e a relação do indivíduo com seu ambiente sociocultural, e coloca que o sujeito só se desenvolve plenamente com a interferência do outro. Essa concepção se aplica no ensino escolar, pois o aprendizado impulsiona o desenvolvimento e a escola tem papel fundamental na construção do ser e da sociedade. Nesse movimento, acredito que é na escola que esses conceitos precisam produzir significado e o professor tem papel essencial nesse processo, e deve estimular a participação do estudante, considerar as suas experiências vivenciadas, possibilitar a construção do conhecimento, criar condições para que este se desenvolva de forma integrada, trabalhar o conteúdo de forma construtiva, e permitir ao estudante a significação conceitual.
Todavia, o estudante vem até o ambiente escolar com conceitos intuitivos, e aos poucos, irá construir, desenvolver a formação dos conceitos científicos. Para tanto, a educação está para o desenvolvimento assim como o consumo para a produção, como afirma Vigotski (2008, p. 118):
A educação é vista como um tipo de superestrutura erigida sobre a maturação; ou, para mudarmos de metáfora, a educação se relaciona com o desenvolvimento da mesma forma que o consumo se relaciona com a produção. Admite-se, portanto, a existência de uma relação unilateral: a aprendizagem depende do desenvolvimento, mas o curso do desenvolvimento não é afetado pela aprendizagem.
Nesse sentido, as investigações passam a se concentrar na maturidade das funções psíquicas no início da educação escolar sobre o seu desenvolvimento e aprendizagem, disciplina formal e as várias matérias escolares. Vigotski (2008) questiona através do exemplo da aprendizagem da escrita, por que razão a escrita torna-se tão difícil para a criança em idade escolar e argumenta que a escrita é uma função linguística distinta da fala, tanto na estrutura como no funcionamento da mesma, visto que o seu mínimo exige um alto grau de abstração. Vigotski (2008) argumenta que ao aprender a escrever, a criança precisa se desligar do aspecto sensorial da fala e substituir palavras por imagens de palavras, ou seja, gradualmente a linguagem falada desaparece e a linguagem escrita converte-se num sistema de signos.
Nesse movimento de sistema de signos transcrito por Vigotski (2008) considera-se que o mundo é um complexo de processos. Os conceitos estão em constante processo de transformação. Assim, as investigações do autor mostram que o desenvolvimento das bases psicológicas para o aprendizado de matérias básicas como a gramática, por exemplo, não precede esse aprendizado, mas se desenvolve numa interação contínua com suas contribuições. Diante disso, afirma- se que geralmente o aprendizado precede o desenvolvimento, ou seja, a criança adquire a habilidade em uma determinada área, antes de aprender e aplicar esse conhecimento conscientemente. E, em relação às matérias escolares básicas, cada uma delas contribui e facilita o aprendizado das outras, e a criança se desenvolve ao longo do processo.
Segundo Vigotski (2008), no desenvolvimento da criança, ocorre uma diferença entre a idade mental real da criança e o nível que ela atinge ao resolver problemas com o auxílio de um adulto, a essa discrepância o autor denomina de “zona de desenvolvimento proximal”. No entanto, ainda questiona se realmente podemos determinar ou afirmar qual é o desenvolvimento mental de uma criança, abordando a importância da imitação e da cooperação no desenvolvimento e no aprendizado, como descreve em sua obra:
No desenvolvimento da criança, pelo contrário, a imitação e o aprendizado desempenham papel importante. Trazem à tona as qualidades especificamente humanas da mente e levam a criança a novos níveis de desenvolvimento. Na aprendizagem da fala, assim como na aprendizagem das matérias escolares, a imitação é indispensável. O que a criança é capaz de fazer hoje em cooperação, será capaz de fazer sozinha amanhã (VIGOTSKI, 2008, p. 129).
Diante dessas indagações, um ponto positivo do aprendizado é aquele que caminha à frente do desenvolvimento, servindo de orientação, a partir dos conceitos já aprendidos, mas também os que estão amadurecendo, ou seja, considerar não somente o mínimo do aprendizado, mas também o superior que ainda não foi aprendido, não se detendo ao passado e sim ser orientado para o futuro. De tal modo, percebe-se a importância da mediação e do estímulo para a criança no processo de desenvolvimento e aprendizado no âmbito escolar (VIGOTSKI, 2008).
Ao considerar a evolução dos conceitos nos estudantes, convém considerar que existem diferentes pontos de vista sobre a concepção de ensino de Ciências no
nível fundamental tradicional com base na racionalidade técnica. Atualmente os avanços científicos e tecnológicos estão presentes no contexto mundial, e a ciência muitas vezes é interpretada como conhecimento exato, inquestionável e que traz somente benefícios para a sociedade. A partir disso, somos levados a refletir sobre esse conhecimento e questioná-lo, porque existe um percurso histórico do conhecimento científico.
Assim, esse conhecimento constitui uma construção, pois quando Vigotski passa a questionar qual é realmente o desenvolvimento mental de uma criança, permite-nos refletir acerca do desenvolvimento, o ensino e aprendizagem de nossos estudantes nas escolas, onde cotidianamente vivenciamos os saberes aprendidos ou não, e sem dúvida realizamos intervenções, que instigam o limiar superior da aprendizagem.
Desta maneira, Vigotski (2008) desencadeia uma reflexão sobre as questões psicológicas superiores, as quais são formadas nos processos de interação, internalização e mediação, visto que o mundo é um complexo de processos, onde os conceitos estão em constante transformação. Portanto, tomando como base os estudos do autor no referencial histórico cultural, pode-se afirmar que estes possibilitaram ampliar e qualificar a minha pesquisa. Esta pesquisa analisou o desenvolvimento de concepção de Situação de Estudo (SE) na tentativa de trabalhar os conceitos disciplinares de modo contextualizado, sem deixar de lado os conceitos disciplinares e isso deve produzir sentidos e significados para os estudantes, tendo em vista que Vigotski afirma que “os conceitos científicos por sua vez, fornecem estruturas para o desenvolvimento ascendente dos conceitos espontâneos da criança em relação à consciência e ao uso deliberado” (VIGOTSKI, 2008, p. 136).
A significação dos conceitos das Ciências da Natureza e suas Tecnologias, que a partir da descrição e do pensamento dos estudantes, vivências em sala de aula, passe a ser compreendidos no decorrer do desenvolvimento da situação de estudo, é necessário estabelecer as relações, oferecer oportunidades de diálogos e discussões, na tentativa de constituir o pensamento e a palavra; que segundo Vigotski (2008, p. 190):
A relação entre o pensamento e a palavra é um processo vivo; o pensamento nasce através das palavras. Uma palavra desprovida de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento não expresso por palavras permanece uma sombra.
Nessa perspectiva, Vigotski propõe descobrir a relação entre o pensamento e a fala nos estágios de desenvolvimento, e afirma que estes são um processo, passando por transformações. A significação surge no decorrer desse desenvolvimento, quando a criança se torna capaz de formular seu próprio pensamento e compreende a fala dos outros. Acerca do desenvolvimento dos conceitos científicos na infância, ao considerar o grupo de conceitos espontâneos e não espontâneos, pode-se completar que os significados das palavras, ou dos conceitos, evoluem, e essa compreensão, segundo o autor, deve substituir a imutabilidade dos significados das palavras. Então, estudar o pensamento e a fala requer referência a história do seu desenvolvimento e na verdade, a palavra desempenha importante papel no desenvolvimento do pensamento e encontra-se em constante transformação e evolução.
Nesse sentido, os resultados da minha pesquisa podem ser importantes por permitir avaliar e analisar a relevância da SE e as repercussões na aprendizagem dos estudantes e compreender processo de significação dos conceitos de Ciências da Natureza e suas Tecnologias na perspectiva de constituição de sujeitos mais críticos/reflexivos, segundo concepção Vigotskiana no referencial histórico cultural.