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Capítulo 2: Estudo 2

2.2. A responsabilidade social

2.2.1. Abordagem multidimensional da responsabilidade social

O surgimento de uma abordagem multidimensional do conceito de RS, foi muito útil, quer ao nível da literatura académica que carecia de um quadro conceptual compreensivo, quer ao nível dos gestores, pela necessidade de existir uma definição básica que permitisse uma melhor compreensão do significado de RS e das atividades e práticas envolvidas, permitindo assim uma maior adesão às mesmas por parte das organizações (Borges, 2012).

Carroll (1979) foi um dos primeiros autores a categorizar em quatro dimensões a RS: dimensão económica, legal, ética e discricionária, as quais segundo o autor não são cumulativas nem aditivas e podem ser representadas por uma pirâmide. As responsabilidades económicas estão na base e fundamentam as restantes. Seguem-se as responsabilidades legais, sendo que a lei define os comportamentos aceitáveis ou não para a sociedade. De seguida vem as responsabilidades éticas, pois a organização deve fazer aquilo que é correto e justo para não prejudicar os seus stakeholders. As responsabilidades discricionárias aparecem no final da pirâmide, expressando a ideia que a organização deve contribuir para a comunidade com recursos financeiros e humanos de forma a melhorar a qualidade de vida das populações. Segundo o mesmo autor, a implementação destas responsabilidades pode variar conforme o tamanho e características da organização, a filosofia de gestão, a estratégia, o estado atual da economia, os problemas sociais do meio envolvente, entre outros (Borges, 2012).

Embora a categorização de Carroll (1979) seja muito popular e aceite, esta definição não é única e alguns autores defendem que deve ser alvo de reformulações (e.g. Rego, Leal, & Cunha, 2011; Schwartz & Carrol, 2003; Turker, 2009b). Rego et al., (2011) sugerem que o modelo de quatro fatores proposto por Carrol (1979) não representa completamente todas as dimensões da RS por parte dos colaboradores e comprovam a existência de duas sub-categorias dentro da categoria económica (responsabilidades económica perante os clientes e perante as chefias) e três sub-

categorias dentro da categoria discricionária (responsabilidade discricionária perante os colaboradores, a comunidade e o ambiente). Assim, os mesmos autores defendem a reformulação do modelo de Carrol (1979) principalmente quando pretendemos analisar as perceções de RS dos colaboradores (Borges, 2012).

Para Turker (2009b), RS é definida como os comportamentos organizacionais que visam afetar positivamente os seus stakeholders, e que vão além dos seus interesses económicos pelo que se opõe à inclusão da variável económica, na conceptualização da RS pois a mesma indica a função social básica de qualquer negócio na sociedade e não propriamente uma responsabilidade social. Este autor optou por uma abordagem diferente e desenvolveu um instrumento de medida das perceções de RS, baseado nos stakeholders aos quais as práticas de RS se dirigem.

No nosso estudo, adotamos a abordagem multidimensional de RS de Turker (2009b), baseada na teoria de gestão de stakeholders (TGS), no sentido de compreender qual o impacto que a RS pode ter nos seus agentes intervenientes, nomeadamente nos colaboradores. De acordo com esta teoria as organizações não devem pautar-se apenas pelos interesses dos seus shareholders (acionistas) mas também pelos interesses dos outros stakeholders, nomeadamente colaboradores, gestores, comunidade, clientes e fornecedores (Vaz, 2012).

Esta teoria, desenvolveu-se sobretudo na década de 80 e encara a organização como um centro de interesses de indivíduos e grupos que afetam ou podem ser afetados pelas ações da mesma e que, com legitimidade, procuram influenciar os processos de decisão com o objetivo de obter benefícios para os interesses que defendem ou representam (Vaz, 2012).

Desta forma, a teoria de gestão de stakeholders pressupõe que as organizações possuem responsabilidades para com a comunidade em geral e, em particular, perante todos os que são considerados “parte interessada” nas atividades das mesmas.

Borges (2012), explica que a adesão dos stakeholders aos princípios e valores de RS é crucial para o sucesso e difusão desta perspetiva, pois vai estimular as

organizações a envolverem-se e dedicarem os seus recursos para as diversas práticas de responsabilidade social.

Na literatura encontram-se várias categorias que agrupam os diferentes stakeholders, identificados através da teoria de gestão de stakeholders. A categorização de Wheeler e Sillanpaa (1997) distingue entre stakeholders sociais primários, sociais secundários, não sociais primários e não sociais secundários. De acordo com esta tipologia, os stakeholders que têm impacto direto nos relacionamentos e envolvem entidades humanas são definidos como stakeholders sociais primários (investidores, colaboradores, gestores, clientes, fornecedores, e outros parceiros de negócios). Por outro lado, stakeholders que têm menos impactos diretos são os stakeholders sociais secundários, representados pela sociedade civil, grandes empresas, governo, entidades reguladoras, comunicação social e vários grupos de interesses. No que se refere aos stakeholders não-sociais, estes não envolvem relações humanas e dividem-se em duas categorias: primários e secundários. Os stakeholders não-sociais primários, são por exemplo o ambiente natural e as gerações futuras. Por fim, os stakeholders não-sociais secundários são formados pelos grupos de defesa do ambiente e de defesa dos animais. Assim sendo, podem ser considerados quatro grupos de stakeholders: os sociais primários (colaboradores, clientes, fornecedores, parceiros de negócio, comunidades locais, etc.); os sociais secundários (governo, sociedade, concorrência, etc.); os não-sociais primários (ambiente, gerações futuras, etc.); e os não-sociais secundários, como as organizações não-governamentais (ong’s).

No presente estudo seguimos esta abordagem multidimensional de Turker (2009) e a sua proposta de instrumento que avalia o conceito de RS de acordo com esta classificação dos stakeholders aos quais as práticas se dirigem, nomeadamente aos colaboradores que não são apenas observadores das praticas de RS, são influenciados pelas mesmas, quer ao nível das condições de trabalho, saúde e segurança quer ao nível das politicas organizacionais que afetam a comunidade local dos mesmos colaboradores.

Em suma, conceptualizamos a responsabilidade social tendo por base uma filosofia de gestão de stakeholders que personificam os grupos para os quais as

práticas de uma organização devem ser orientadas e perante os quais a organização deve assumir uma postura responsável (Borges, 2012), tendo sido considerados quatro stakeholders: ambiente, gerações futuras e ong´s; colaboradores; clientes e governo.