2.1 Decisão e o Processo Decisório
2.1.2 Abordagem Racionalidade Limitada ou Comportamental
abordagem racional, podem ser fisiológica ou psicologicamente limitadas de acordo com os limites do decisor. Fisiologicamente limitadas no sentido de que o decisor pode ter um conjunto de alternativas de escolha limitadas de acordo com as limitações do seu organismo. Simon (1955) clarifica a limitação fisiológica utilizando o seguinte exemplo: a velocidade máxima que um organismo pode se mover estabelece um limite em suas alternativas de comportamento disponíveis.
Já a limitação psicológica decorre do fato de que o decisor se apoia na sua experiência prévia e na sua percepção para escolher a alternativa de solução. Porém, este conhecimento prévio do decisor pode não suficente para o permitir identificar a alternativa ótima.
Para Cyert e March (1963) há ainda as limitações associadas ao que os autores chamam de racionalidade local. Nesta situação, com o passar do tempo, uma decisão válida em um determinado espaço de tempo, poderá não ser repetida em outro período.
Além disso, observa-se que em uma organização, por exemplo, os decisores podem ter objetivos conflitantes ou inconsistentes. O decisor pode não ser onisciente, como sugere a abordagem racional, e não possuir o entendimento correto sobre os objetivos a serem atingidos. Anderson (1983) verifica que em algumas situações o decisor descobre seu objetivo durante o processo de busca pela alternativa de solução, caracterizando assim a falta de consistência dos objetivos do decisor.
Outra limitação identificada refere-se à influência que os decisores sofrem dos procedimentos operacionais padrões da empresa. A tendência é de que a decisão seja norteada não pelos valores de preferência do decisor, mas sim pelas práticas pré-estabelecidas da empresa. Essa característica anula a utilização de uma análise sistemática de alternativas, como sugere a abordagem racional. Essa afirmativa é evidenciada no trabalho de Allison e Zelikow (1999) que sustentam que as ações passadas melhor orientam as ações atuais.
No estudo realizado por Eisenhardt (1989), sobre a velocidade da decisão em empresas de microcomputadores, verificou-se que as alternativas de solução são encontradas pelos decisores de forma acidental e oportunista. Além disso, Eisenhardt (1989) verificou que:
a) Durante o processo decisório os decisores desenvolveram várias alternativas de decisão, conforme propõe a abordagem racional. Porém, durante a análise de alternativas, os decisores centralizaram esforços na análise de algumas destas alternativas e não em todas.
b) Além disso, os decidores capturaram informações para desenvolver as alternativas a partir de várias fontes, porém, da mesma forma que ocorreu no item anterior, parte destas informações não foi utilizada no processo de análise.
Eisenhardt (1989) concluiu assim que em alguns momentos os decisores tiveram atitudes propostas na abordagem racional. Porém, essa atitude não foi verificada no processo com um todo.
Simon (1955) faz uma reflexão sobre as demandas exigidas do decisor no modelo racional e questiona se o decisor é capaz de elencar todos os resultados possíveis relacionados a escolha de uma alternativa. Conforme verificado por Eisenhardt (1989) mesmo que o decisor conseguisse fazer uma busca exaustiva por todas as alternativas disponíveis e identificar as consequências associadas a cada uma delas, é possível que ele se limitasse a análise de apenas algumas. Outra questão, agora levantada por Anderson (1983), é que em situações de alto risco os decisores tendem a optar por alternativas que eles nem mesmo consideram que irão resolver a situação, mas que tenham um risco menor associado à alternativa escolhida.
Para Simon (1955), a abordagem racional ainda deixa uma lacuna em relação à análise de alternativas para as quais não seja possível prever antecipadamente as consequências da decisão. Nessa situação não há nenhuma tratativa prevista na abordagem racional.
Ainda sobre a abordagem racional Simon (1955) questiona a análise sequencial das alternativas disponíveis. No entedimento do autor quando um decisor está avaliando as alternativas disponíveis de forma sequencial e encontra uma alternativa que atende às suas expectativas, ele tende a adotar esta alternativa sem prosseguir com a análise das demais alternativas subsequentes. Assim, o decisor se satisfaz com um alternativa julgada como “suficiente” sem explorar exaustivamente as demais alternativas disponíveis.
Dessa forma, Simon avança no estudo da teoria decisória acrescentando o elemento comportamental como objeto de avaliação na análise de processos decisórios, e propõe a abordagem de racionalidade limitada, sugerindo o modelo ilustrado na Figura 4.
Figura 4 – Modelo de processo de decisório da abordagem de Racionalidade Limitada proposto por Simon.
Fonte: Adaptado de Simon (1947).
No processo decisório proposto por Simon (1947), as fases são caracterizadas conforme segue:
a) Inteligência ou investigação. Na fase de inteligência o decisor examina o ambiente e captura as informações que posteriormente serão processadas. O objetivo é evidenciar problemas e oportunidades que serão tratados.
b) Concepção ou desenho. A fase de concepção é caracterizada pela formulação do problema com base nos dados da fase anterior. A partir deste desenho são desenvolvidas e analisadas as alternativas de solução disponíveis.
c) Escolha. É na fase de escolha que o decisor define a alternativa ou curso de ação a ser adotado. O decisor pode optar por uma alternativa apenas ou uma combinação de alternativas.
d) Revisão. A fase de revisão tem por característica avaliar a ação escolhida. Esta fase gera o feedback para as demais fases, a partir do resultado da ação escolhida.
As setas na Figura 4 indicam a sequência na qual o modelo de Simon evolui. Conforme Figura 4, neste processo o decisor pode retornar às fases de inteligência, concepção e escolha para melhorar as alternativas disponíveis e consequentemente atingir os objetivos propostos. Sobre a fase de inteligência é válido ressaltar que os problemas identificados podem vir a se tornar oportunidade dependendo dos cursos de ação definidos.
Mintzberg et al. (1976) propôs uma variação do modelo de Simon que consiste de três fases básicas: a) identificação, b) desenvolvimento, e c) seleção. A diferença significativa entre os modelos está na sequência em que as fases ocorrem. Em Simon (1947) as fases ocorrem sequencialmente, enquanto em Mintzberg et al. (1976) as fases não são sequenciais. Em Mintzberg et al. (1976), além de as fases do processo ocorrerem em qualquer ordem, elas também podem se repetir.
Assim como Mintzberg et al. (1976), outros pesquisadores (NUTT, 1984; HICKSON et al., 1986) desenvolveram variações de modelos dentro da abordagem de racionalidade limitada. Porém, em paralelo, outras abordagens foram exploradas para compreender com se dá o processo decisório dentro das organizações. Uma dessas abordagens foi a abordagem política.
2.1.3. Abordagem Política
Na abordagem política as decisões são consideradas “(...) conjugação de interesses, acomodação de conflitos e lutas de poder”, de acordo com Andrade e Amboni (2010). Isto decorre do fato de que nesta abordagem as decisões são negociadas entre os atores envolvidos no processo decisório, que normalmente possuem interesses divergentes.
A divergência entre interesses pode ser exemplifica pela própria divergência de objetivos dentro da organização. Enquanto o setor de custos busca minimizar estoques, a área de vendas força a manuteção de estoques suficientes para atender à uma possível demanda não programada, por exemplo. Ou seja, apesar de a organização como um todo estar buscando o aumento da lucratividade, seus setores travam
disputas internas em razão dos objetivos estratégicos conflitantes de seus departamentos.
Deste modo, para conseguir alcançar os interesses e objetivos próprios em meio a um ambiente de conflitos, os decisores se unem através de grupos que apresentam interesses convergentes. Zanela (1999) afirma que nesta abordagem os atores "(...) são dotados de interesses e objetivos próprios e a organização não tem objetivos claros a priori, os objetivos podem parecer vagos, ambíguos, e a estabilidade não é garantida."
Diferentemente do que occore na abordagem racional, onde o decisor possui seu conjunto de preferências, na abordagem política os atores são ditos invidualmente racionais, mas não coletivamente (EISENHARDT & ZBARACKI, 1992). A característica fundamental nesta abordagem é que os atores fazem acordos ou conciliações para atingir os objetivos de um grupo. Assim, um grupo mais forte consegue impor seu ponto de vista coletivo aos demais.
Os grupos são formados a partir de coligações, cooperações, uso estratégico de informação e emprego de especialistas externos (EISENHARDT & ZBARACKI, 1992). Eles não estão totalmente fechados, e os atores podem migrar entre os grupos, conforme sua percepção da oportunidade de atingir seus objetivos. Dentro dos grupos ocorrem contínuas negociações de interesses e a habilidade do decisor está diretamente ligada ao seu poder ou nível hierárquico dentro da organização. Dessa forma as decisões frequentemente atendem às aspirações e escolhas das pessoas mais poderosas (MARCH, 1962).
O desenvolvimento dos grupos dentro da organização ocorre de maneira informal. Nesta abordagem ganham espaço os conflitos, a negociação e a barganha. Além disso, a intuição e sensibilidade passam a ser exploradas pelo ator para determinar o grupo ao qual irá se agregar.
O processo decisório na abordagem política assume um aspecto flexível, uma vez que permite conciliar diferentes pontos de vista. Por esta característica, Allison e Zelikow (1999) relacionam esta abordagem à Teoria dos Jogos. Além disso, essa abordagem é normalmente associada à processos de tomada de decisão estratégica.
Alguns autores sugerem que esta abordagem gera animosidade, desperdício de tempo, informações corrompidas (EISENHARDT & J., 1988; DEAN & SHARFMAN, 1992). Porém ela consiste em uma resposta às afirmativas sobre processos decisórios de grupos.