Mapa 3: Sítio Cajueiro e Rio das éguas/Correntina – Solos
3. O estudo antropológico da tecnologia humana
3.4. Leitura tecnológica do material lítico
3.4.3. Abordagem Tecno-Funcional: o instrumento em funcionamento
Nosso interesse por essa abordagem é por ela ser capaz de reconstruir a memória técnica e o saber fazer corporal, dos grupos que lascavam pedra na Pré- História (FOGAÇA e BOËDA, 2006).
No Brasil essa abordagem já foi aplicada em alguns locais: por Mello (2005), Viana (2005), Lourdeau (2010), Fogaça e Lourdeau (2008), no Planalto Central e no Sul por Hoeltz (2005).
Conforme já discutimos, Rabardel (1995) considera que os instrumentos são entendidos como uma entidade mista, havendo interação entre o objeto e o sujeito decorrente do elemento artefatual e dos esquemas de funcionamento.
Um instrumento só funciona na mão do sujeito que sabe como utilizá-lo, que incorpora os gestos adequados. Cada instrumento tem sua estrutura própria. E a forma, por exemplo, é só um dos elementos. Há também um meio que integra a função ao funcionamento, se relacionando mutuamente (FOGAÇA e LOURDEAU, 2008).
3.4.3.1 Unidades Tecno-Funcionais;
Os instrumentos não são produzidos por acaso. Em qualquer época, obedecem a esquemas de produção e necessariamente de funcionamento, pois ambos os esquemas estão interligados (MELLO, 2005).
A razão da existir de um objeto está em seu esquema de funcionamento. Ao privilegiar os esquemas de produção e a função do objeto, emerge como importância o funcionamento de um instrumento. Essa analise implica em considerações como mão-instrumento, mão-material, espaço-gesto, por exemplo. Nas coleções de materiais líticos pré-históricos nos deparamos com situações que, muitas vezes, nos faltam várias informações (MELLO, 2005). Assim, trabalhamos as Unidades Tecno-Funcionais.
Uma UTF se define como um conjunto de elementos e/ou características técnicas que coexistem em uma sinergia de efeitos. Uma parte distal ou proximal, um bordo, um talão, etc, são alguns dos elementos levados em conta. Um ângulo, um plano de secção, uma superfície, um gume, etc, constituem características técnicas participantes da definição de uma UTF (MELLO, 2005, p. 43).
Para entender um esquema de funcionamento é necessário decompor o instrumento em três formas de contato, em três Unidades Tecno-Funcionais (UTF). Conforme proposto por Lepot (1993 apud Boëda,1997):
Um contato preensivo do instrumento que pode ser adequado diretamente à mão ou por intermédio de um cabo – UTFp.
Um contato transformativo do instrumento em relação ao material a ser trabalhado, o gume faz o contato e transforma – UTFt.
Um contato receptivo-transmissor, uma força muscular que é recebida e transmitida para o contato transformativo – UTFr.
Figura 16: Diferentes contatos de Unidade Tecno-Funcionais: Receptor de energia (CR), Contato Preensivo (CP) e Contato Transformativo (CT). Adaptado de Lepot (1993 apud Boëda,1997, figura 1).
A preensão corresponde a função do gesto, ou seja, o modo como o instrumento é seguro por uma mão, associado diretamente ao design do instrumento. A mão está na relação entre o homem e o seu meio.
É, portanto evidente que o planejamento do contato preensivo de um instrumento baseia-se em diversos e complexos fatores que atuam sinergicamente: força, precisão, trajetória, conforto, segurança etc (FOGAÇA e LOURDEAU, 2008, p, 273).
Sem a percepção da UTF preensiva os esquemas de funcionamento tornam- se incompletos, ela ajuda a determinar quais foram os gestos técnicos para colocar o instrumento em funcionamento.
O contato transformativo depende de características tecno-morfológicas do gume para estarem apropriados. Um contato transformativo eficaz depende não só de imposições físicas, mas também de sua relação com a estrutura que está inserido. Esse contato é a parte ativa do instrumento e pode ser decomposta em duas unidades: o fio e o corpo ativo (cf. 3.4.3.2. Plano de corte e plano de bico, mais adiante) (FOGAÇA e LOURDEAU, 2008).
As partes do instrumento (transformativa, preensiva, receptiva-transmissora) são compostas por Unidades Tecno-Funcionais – UTFs. As UTFs são composições técnicas como ângulos, superfícies, fios que cooperam para cumprir uma função. Embora as partes possam ser trabalhadas separadamente elas só funcionam em sinergia e podem em alguns casos, se justapor (BOËDA, 1997; FOGAÇA e LOURDEAU, 2008).
Ao lidar com matérias líticos Pré-Históricos além de nos deparamos com dificuldades constantes de falta de informações, também não podemos realizar observações dos grupos que estão trabalhando a pedra. No entanto, se formos capazes de ler as intenções técnicas, morfológicas e métricas de cada objeto, será possível entendê-lo para além das generalidades tipológicas.
Decompor o instrumento em três partes não significa reduzi-lo a uma delas, mas demonstrar como se deu o arranjo das diferentes partes. Considerar só uma parte faz o instrumento perder sua individualidade. As UTFs são, portanto, uma organização particular das retiradas e dos gestos que atuam sinergeticamente marcando características técnicas coerentes (MELLO, 2005).
3.4.3.2. Plano de corte e plano de bico.
Como já observamos a UTF transformativa pode ser decomposta em duas unidades: o fio e o corpo ativo. Então são dois estágios: um que organiza as superfícies para materializar o corpo ativo e a outra que define o fio do gume. Se forem observados em seção são denominados de plano de corte e plano de bico (Boëda, 1997).
Figura 17: Seção do Plano de corte e plano de bico. Adaptado de Lourdeau, 2011, p. 69 (modificado de Soriano, 2000, p. 30).
Os planos de corte e de bico são relações entre as superfícies, possibilitam sinergia de funcionamento.
Planos de corte são aqueles criados pela intersecção de duas superfícies, sendo que eles já podem apresentar-se favoráveis à utilização, ou, em certos casos, são objetos de uma organização (retoques) em vista a uma funcionalização do bordo. Nesse caso, essa modificação forma um novo plano, denominado de plano de bico (MELLO, 2005, p. 101).
Várias combinações podem ser identificadas nos planos de corte. O plano de bico só funciona se houver umas das superfícies planas podendo ser eles plano/plano, plano/convexo e plano/côncavo. Essas diferenças, aparentemente pequenas, determinam ações distintas.
Figura 18: Ângulos dos planos de seção. Extraído de Lourdeau, 2011, p. 69.
A força manual empregada, o gesto, obedece a um ângulo de ataque específico, em detrimento do tipo de ação que estará combinada com outras características técnicas, como o delineamento do gume, sua extensão ao longo da
borda, a matéria prima do instrumento, sua profundidade no corpo ativo, entre outros (FOGAÇA e LOURDEAU, 2008).
A analise do material lítico do sítio Cajueiro será centrada na percepção tecnológica das cadeias operatórias, particularmente a partir de uma abordagem tecno-funcional, por acreditarmos que é a forma mais satisfatória para diagnosticarmos as intenções funcionais relacionadas aos gestos de lascamento e as hipóteses de funcionamento dos instrumentos.
4. TECNOLOGIA LÍTICA DO SÍTIO CAJUEIRO: ESQUEMAS DE PRODUÇÃO E