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ABORDAGENS APROXIMADAS: BREVE SUMÁRIO ANALÍTICO

No documento NA FRONTEIRA DA PÁTRIA (páginas 83-88)

2. ESTADO E QUESTÃO AGRÁRIA: RELEITURAS POLÍTICAS E DIÁLOGOS COMPLEMENTARES

2.6 ABORDAGENS APROXIMADAS: BREVE SUMÁRIO ANALÍTICO

A questão agrária, refletida nos diversos matizes que a compõem, faz parte, secularmente, do cenário latino-americano, em suas lutas e resis-tências, na estruturação de uma ordem patrimonial, nas conexões políticas, nas muitas formas de violência, e também nas incessantes e multivariadas formas de resistência. Se o colonialismo histórico foi reduzido a proces-sos demarcados, a colonialidade não. Vive de reproduzir continentalmente processos de apropriação de terra, territórios e bens da natureza, de manter uma agenda de exclusão social, que atinge socialmente aqueles grupos e povos, sempre relegados à margem, e vive também de impor uma narrativa de esquecimento e desmemória.

Em seu tempo e em seus territórios de atuação, Mariátegui, Gramsci e Faoro se propuseram a oferecer elementos de leitura, seja da realidade italia-na, seja da realidade peruaitalia-na, seja da brasileira. A contribuição desses autores na leitura política aponta para uma temática de fronteira, e por isso versa também sobre questões periféricas. Projetam olhares e abordagens, que direta ou indiretamente incidem em questões estruturais na análise dos processos de democracia, transformação e ação política, por parte dos setores organiza-dos. Ajudam também a entender, na gênese, a gramática dos conflitos atuais,

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de forma a (des)montar enquadramentos, saberes e categorias, muitas ar-tificialmente manejadas. Por isso mesmo, tal contribuição traz em muito um “olhar no espelho” das práticas coletivas, mas também um “olhar para dentro”, das convicções, valores e paradigmas, que ainda nos mobilizam.

O que se propõe, agora, de forma parcial, e por isso pouco exaustiva, é aproximar alguns elementos que conjugam entre os autores, e que, portanto, projetam alguma reflexão sobre a práxis coletiva de nossas organizações.

1. O passado e a reprodução, pela via dos projetos de colonização, de estrutura feudal ou semifeudal, são analisados por nossos au-tores, sobretudo, nas formas de apropriação da terra. Impõe-se, nesse novo ordenamento, igualmente, novas formas de produção, direcionando, no plano econômico, para o atendimento às de-mandas da agroexportação rumo à metrópole e centros europeus.

2. Nos autores, a centralidade da questão agrária é moldada e re-gida pela lógica da expansão e acumulação capitalista de terras (latifúndio). O vínculo entre terra e poder sempre esteve muito próximo; são inerentes e delineiam, através de uma cultura patri-monialista, as regras de inserção/exclusão dos povos originários, ou camponeses.

3. A escravidão, como estrutura genética do capitalismo expansio-nista, ao lado da expansão proprietária, orienta o grande em-preendimento, seja econômico (acúmulo de terras), seja rentista (bens e valor), seja no ordenamento social (manutenção legal e ideologicamente sustentada da massa de excluídos), seja, enfim, política (composição elitária, de uma aristocracia rural, em rota circular sobre as estruturas de poder).

4. As possibilidades de emancipação, transformação ou revolu-ção são marcadas pelo contexto próximo ou aproximado. No entanto, a fragmentação social, os níveis de desigualdades re-gionais e as mediações instrumentais (tentáculos administrati-vos, poder religioso e intelectuais) tornam-se, em grande parte, obstáculos. Isso se dá pelo fato que tais sujeitos orgânicos paci-ficam o conflito na base (domesticam), em muito pela retórica

da integração ou pelos arranjos ideológico-religiosos. Nesse contexto, alargam-se as margens para o clientelismo de ocasião, para os “favores-mútuos”, docilizando qualquer possibilidade de insurgência.

5. A proposição do protagonismo dos camponeses e dos povos in-dígenas (Gramsci e Mariátegui) é suscitada como condição ine-vitável para um processo revolucionário. No primeiro caso, os camponeses da Itália meridional, desvencilhados das artimanhas da burguesia local, necessitam incorporar-se nas lutas revolucio-nárias proletárias, salvaguardando suas especificidades regionais e culturais. No caso peruano, o protagonismo indígena e cam-pesino é inexorável, uma vez que a estrutura feudal-capitalista suplanta-lhes a expectativa, negando-lhes inclusive aquilo que os unia: formas de vida, terra, cultura, costumes.

6. No caso brasileiro, concordando com a estrutura feudal importa-da e aplicaimporta-da, remanesceu na questão agrária o regime importa-da grande propriedade e da escravidão. Os mais de três séculos de insistên-cia desse regime moldou uma forma de organizar a sociedade, cuja elite dirigente, seja oligarquia rural, seja burocracia, sempre contou com a questão patrimonialista, como ponto de conjunção e interseção. Assim, o patronato rural torna-se patrimonialismo de Estado, e pode tornar-se “bancada”. Importa, pois, que se mantenha a convergência de interesses econômicos e políticos, resguardados por um Estado, em essência, patrimonialista.

7. A intuição de Faoro, a respeito do patrimonialismo, transcen-de em muito a perspectiva transcen-de análise centrada no Estado, esta-mental-patrimonialista. O patrimonialismo, na verdade, incide na análise das relações entre o público e o privado, mas incide também nas conexões Estado-cliente, nas suas multiplicadas e variadas formas. Grosso modo, cria-se, na sociedade brasileira, o patrimonialismo como cultura política, que invade todos os espaços, todos os cenários e sujeitos. Ao criar e recriar, como forma de pensamento e cultura, o patrimonialismo gera práticas

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que interferem nas formas de participação, ou processos partici-pativos. O patrimonialismo, enquanto cultura, também mobiliza imaginários, sobretudo entre as classes subalternizadas, quando projetam suas expectativas ou objetivam seus afazeres em ideias criadas e reproduzidas: o “sonho de ser proprietário”, “a terra como status social e mais valia” etc. O ideário proprietário é a senha prática da cultura do patrimonialismo, que pode estar nos grandes projetos ou na propaganda governamental da “terra de oportunidades”. Pode se constituir em grandes narrativas, “El-dorado amazonense”, ou pode embalar e mobilizar a quimera do colono-migrante que veio “tentar algo melhor”. Ou seja, nossos cinco séculos de história, enraizados na assimétrica e substantiva desigualdade agrária, germinaram e por muito tempo alimen-taram a utopia proprietária. Não que reinasse absoluta, porque, para os povos originários, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, coletores, a ideia de reconhecer-se na terra, de a ela pertencer, fazia emergir outra cosmovisão, tão política quanto a outra, e que engendrou e engendra resistências, lutas e conquistas: a “utopia camponesa”. E ela, no campo de debate, de enfrentamento e dis-puta, se verbaliza nos “gritos de ordem” e se materializa nas ocu-pações, resistências, defesa da posse, atuação política, em vários níveis e instâncias. Ainda que essa intuição não estivesse, por não ser o objetivo, presente em Faoro, foi detectada e analisada tanto por José Carlos Mariátegui quanto por Antonio Gramsci.

8. Na perspectiva de vários pensadores brasileiros, constrói-se o consenso de que, sob a égide da condição feudo-colonial, cria-ram-se as condições de possibilidade de instalar e reproduzir no Brasil não só a escravidão, como todos os seus efeitos. Trans-formada em cultura, essa condição colonial ganhou substrato, principalmente na classe proprietária (grandes propriedades). A terra, assim, não seria apenas um bem material, mas um capital

social6, ideológico e político, que organicamente repropôs, sem-pre que necessário, a dinâmica do poder. No Estado, tal poder encontrou também as condições efetivas de sustento e reprodu-ção e, mais que isso, a garantia da inalterabilidade estrutural e social. Nessa dimensão possessiva de organizar economia e polí-tica, traçaram-se compromissos fundamentais, direcionados para apropriação de bens e pessoas – e posteriormente do público –, e para a exploração, criando e recriando condições subumanas de trabalho, ou precarização de condições de vida. Mas se reprodu-ziram também as dinâmicas de reincorporação que, embaladas por retóricas promessas, mantiveram e mantêm, em condição subalternizada, grande camada da população brasileira.

A sumarização aqui proposta não se presta, enfim, para capturar o sentido da ação coletiva no entorno exclusivo da questão agrária. Essa é, ou tem sido, uma mola propulsora para os processos de organização e mobili-zação dos movimentos e segmentos sociais do campo. Assim, pretendeu-se não recopilar, de forma inconsequente, a densidade teórico-interpretativa da questão agrária no Brasil, mas acenar para o fato de que há leituras ins-trumentais importantes, que clivam a abordagem.

De igual forma, buscou-se, na mesma linha de Gramsci, Faoro e Mariátegui, detectar os elementos essenciais, sem os quais, a própria inter-pretação do Brasil e de seus fenômenos sociais resultaria míope ou limi-tada. A percepção desses elementos resulta, portanto, em uma abordagem dialógica e complementar. Não há ambiguidades, assim, em constatar nos-sa condição colonial (feudal), que se perpetua em privilégios proprietários, normatizados como direitos. De igual forma, há que se auscultar as “nar-rativas patronais”, visto que buscam legitimar não só as novas versões do desenvolvimentismo, como impor o “consenso” da precarização do campo,

6 A ideia de capital social ampara-se em Pierre Bourdieu (1998) que a define como um conjunto de relações, estas mais ou menos institucionalizadas, que vinculam determinado grupo. Tais relações se estabelecem em graus de confiança e traduzem, nesta união, não só propriedades comuns, mas também ligações duráveis e úteis. Para maior aprofundamento, ver Pierre Bourdieu (1998).

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como sacrifício natural para o progresso econômico. E, enfim, perceber, igualmente, que a “arquitetura proprietária” arma-se de uma “cultura” de privilégios, tolerante com os desmandos, justamente para assegurar os inte-resses de um “parlamento do patronato”.

Por isso que a revisão teórica, aqui proposta, não tem o condão de ampliar as margens de compreensão e análise, mas justamente afunilar ele-mentos que possibilitem refletir, a partir dessas categorias, a atuação dos movimentos sociais do campo, na fronteira de relação com o Estado. Essa abordagem acerca do Brasil agrário, na perspectiva dos intérpretes apon-tados, indica tanto fontes quanto margens. Fontes, uma vez que esse olhar para a história é crucial para cartografar o lugar de fala e de ação dos mo-vimentos sociais hoje. Margens, porque, para além das complexidades que dão o contorno do fenômeno, o que fica claro é a perspectiva dialética desse confronto que, no Brasil, se estabelece entre a sustentação e a ruptura. Ou seja, entre a insistência das estruturas coloniais e o rompimento com essa lógica sistêmica de dominação, uma insubordinação, portanto.

2.7 CONTRAPONTO ANALÍTICO 2: O MITO DA AUSÊNCIA

No documento NA FRONTEIRA DA PÁTRIA (páginas 83-88)

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