• Nenhum resultado encontrado

3 VULNERABILIDADE SOCIOAMBIENTAL NOS

3.1 ABORDAGENS CONCEITUAIS SOBRE O RISCO

Pesquisadores das ciências sociais, como historiadores, psicólogos e sociólogos geralmente elaboram postulados ‘construtivistas’, considerando o risco com uma construção social, a exemplo de Giddens et al. (1997) e Beck (1992). A partir dessa perspectiva a noção do risco é apenas compreensível levando em conta a análise das percepções individuais e coletivas, representações e interações dos atores sociais. Entretanto, engenheiros, geólogos, geógrafos, economistas e epidemiologistas geralmente adotam uma perspectiva descrita como ‘realista’, baseada na hipótese de que o risco pode ser quantificado e objetivamente localizado (CARDONA, 2004).

Independente da existência do antagonismo epistemológico entre ‘objetivismo-positivismo’ e ‘subjetivismo/construtivismo’, alguns aspectos são inerentes aos dois paradigmas. Trabalhar com risco implica sempre a incerteza e a possibilidade de algo acontecer. Dado o caráter de imprevisiblidade e os resultados muitas vezes devastadores de ameaças - como terremotos, furacões, inundações, entre outros, a sua ocorrência era associada a uma força divina, má sorte ou destino, isto é, nada havia a ser feito, pois tratava-se de um ato de Deus. Todavia, implícito nesse ideal religioso, estava a omissão proposital do poder público em assumir sua responsabilidade (CARDONA, 2003). Curiosamente, Leroy (2006) aponta que essa crença de vontade divina, era contestada já no século VI a.C pelos filósofos da escola Milesiana, que consideravam as forças da natureza como objetos de observação científica.

Wisner (2001, p.125), em tom contestador, avalia que não pode ser um ato divino o fato de que menos de 10% dos prédios em cidades da Índia são construídos de acordo com as normas de resistência a terremotos. De acordo com o autor “the earthquake didn’t kill, but the buildings did”19 e exemplifica com o terremoto ocorrido em fevereiro de 2001, no estado indiano Gujarat, cujo resultado foi de aproximadamente 100.000 mortos, de acordo com dados do Ministério da Defesa.

19

Diante dos crescentes prejuízos e das perdas de vidas causadas pelos desastres naturais, a Assembléia Geral das Nações Unidas instituiu a década de 1990 como International Decade for Natural Disaster Reduction (IDNDR), influenciada fortemente pelas ciências naturais. O objetivo era de reduzir as perdas de vidas e danos às propriedades especialmente nos países em desenvolvimento, causadas por terremotos, vendavais, tsunamis, inundações, deslizamentos, erupções vulcânicas, e outras calamidades de origem natural(UN, 1989, p.1).

Durante a World Conference on Natural Disaster Reduction, ocorrida em maio de 1994, em Yokohama, foi realizado um adendo ao documento firmado no IDNDR. Nessa conferência foi estabelecida a incorporação do Yokohama Strategy for a Safer World: Guidelines for Natural Disaster Prevention, Preparedness and Mitigation, cujas diretrizes se pautavam na prevenção dos desastres, preparo e mitigação no nível de responsabilidade internacional, bem como local (BOULLÉ et al., 1997). Apesar da iniciativa, foi durante a década dedicada à redução dos desastres, que ocorreram algumas das piores perdas de vidas humanas e prejuízos econômicos, com furacões e ciclones no Sul da Ásia, Filipinas, América Central, Caribe e Estados Unidos; inundações sem precedentes na Europa, China, Venezuela; terremotos na Turquia, Japão e Taiwan. Os prejuízos entre os anos 1990-1999 foram de US$ 741 bilhões e o número de mortos para esse período foi de 589.00020, segundo o Centro para Epidemiologia de Desastres (WISNER, 2001).

Até a segunda metade do século XX era comum definir o risco como sendo a estimativa da possível ocorrência de um fenômeno, idéia bastante difundida entre aqueles que estudavam terremotos, escorregamentos e tempestades. Durante as décadas de 1970 e 1980, quem se referisse à probabilidade de um terremoto, indicaria a estimativa de um risco sísmico (seismic risk). A mudança de paradigma só ocorreu ao final da década de 1980, quando os conceitos de ameaças sísmicas (seismic hazards) tornaram-se mais comuns ao se referir ao que até então estava sendo denominado como risco sísmico (CARDONA, 2003).

Essa mudança foi bastante positiva no sentido de colaborar para o desenvolvimento conceitual e metodológico sobre ameaças e riscos. Apesar da gradual distinção entre os dois termos é possível ainda verificar uma pequena diferença entre autores sobre o conceito de risco.

A principal distinção está em conceituá-lo como um potencial, uma probabilidade ou possibilidade21.

Dentre as definições de risco encontradas na literatura internacional, nota-se uma mudança conceitual até pela própria United Nations International Strategy for Disaster Reduction (UNISDR) entre as publicações realizadas entre os anos 2002 e 2004.

The probability of harmful consequences, or expected loss (of lives, people injured, property, livelihoods, economic activity disrupted or environment damaged) resulting from interactions between natural or human induced hazards and vulnerable/capable conditions. Conditionally risk is expressed by the equation Risk = Hazards x Vulnerability/Capacity22. (UN/ISDR, 2002, grifo nosso).

Já no ano de 2004, a publicação considerava risco como possibilidade de danos e frisava, ainda, que as pessoas não necessariamente compartilham da mesma percepção de risco:

Beyond expressing a possibility of physical harm, it is crucial to recognize that risks are inherent or can be created or exist within social systems. It is important to consider the social contexts in which risks occur and that people therefore do not necessarily share the same perceptions of risk and their underlying causes (UN/ISDR, 2004, grifo nosso)

21

De acordo com o dicionário Houaiss (2001): 1) Probabilidade: da matemática, grau de segurança com que se pode esperar a realização de um evento, determinado pela frequência relativa dos eventos do mesmo tipo numa série de tentativas. lat. probabilìtas,átis 'probabilidade, verossimilhança', de probabílis 'provável, verossímil, que pode ser provado'.2) Possibilidade: condição do que é possível, do que pode acontecer, lat. possibilìtas,átis 'poder, faculdade, possibilidade', do lat. possibìlis, e 'possível'; 3) Potencial: que existe em estado latente; inativo, virtual ou existente apenas como possibilidade ou faculdade, não como realidade. lat. potentìa,ae 'força, poder; autoridade, influência; eficácia, capacidade; violência (da natureza ou humana)

22

A probabilidade de consequências danosas, ou a perda esperada (de vidas, feridos, de propriedade, modos de vida, interrupção de atividades econômicas ou danos ambientais) resultantes de interações entre os riscos naturais ou humanos induzidos pelas condições de vulnerabilidade e capacidade. O risco é expresso pela equação: Risco = Ameaças x Vulnerabilidade / Capacidade. Tradução nossa.

Publicações recentes também demonstram a existência dessa diferenciação, conforme as citações abaixo:

(…) the likelihood of something adverse happening and the consequence of it is does23. (GLADE E CROZIER, 2005, p. 2, grifo nosso). Risk refers to potential for loss of life and property damage24 (NATIONAL RESEARCH COUNCIL, 2006, p.217, grifo nosso).

(…) risk may be expressed in a mathematical form as the probability of surpassing a determined level of economic, social or environmental consequence at a certain site and during a certain period of time25. (CARDONA, 2003, p. 1, grifo nosso).

Observa-se que no Brasil tem-se amplamente empregado o conceito de risco ditado pela Defesa Civil Nacional, que também o associa à probabilidade.

1. Medida de dano potencial ou prejuízo econômico expressa em termos de probabilidade estatística de ocorrência e de intensidade ou grandeza das consequências previsíveis. 2. Probabilidade de ocorrência de um acidente ou evento adverso, relacionado com a intensidade dos danos ou perdas, resultantes dos mesmos. 3. Probabilidade de danos potenciais dentro de um período especificado de tempo e/ou de ciclos operacionais (CASTRO, 1998, p.147).

O Ministério das Cidades (2006), por sua vez, adotou como risco a relação entre a possibilidade de ocorrência de um dado processo ou fenômeno e a magnitude de danos ou consequências sociais e/ou econômicas sobre um dado elemento, grupo ou comunidade.

23

Probabilidade de ocorrer alguma adversidade e suas consequências. Tradução nossa. 24

Risco refere-se ao potencial de perda de vida e danos à propriedade. Tradução nossa. 25

(...) o risco pode ser expresso em uma fórmula matemática como a probabilidade de ultrapassar um determinado nível de consequências econômicas, sociais e ambientais em um dado lugar durante um período de tempo. Tradução nossa.

Para além da falta de unanimidade entre autores e instituições, existe algo em comum entre todas as definições, o dano ao homem, lato sensu. Por essa razão é que, ao se pensar em risco, coloca-se necessariamente a presença humana, ou seja, se um evento extremo – tornado, terremoto, furacão, entre outros, ocorrer em uma área desabitada, como um deserto, ilha deserta, floresta ou mar, trata-se de um evento natural. Por outro lado, caso ocorra em uma área ocupada e provoque danos materiais e vítimas, constituirá em um desastre natural (MARANDOLA, 2007; KOBIYAMA et al., 2006; ARAKIDA, 2006).

Assim, para que exista o risco, duas variáveis são imprescindíveis, a ameaça e o homem em seus diferentes graus de vulnerabilidade. É por esse motivo que o conceito sempre implica a especificação do tipo de processo a que uma comunidade está submetida. Cabe, então, o questionamento: existe risco zero? Partindo de algumas ideias de Rebelo (2005), ao remeter às definições de risco, constata-se que aquelas que o consideram como uma multiplicação entre perigo e vulnerabilidade, quando um desses elementos for igual a zero, o resultado também será zero, diferentemente das definições que tomam como risco, produto do somatório.

Essa abordagem, mais uma vez, não é unânime. Dauphiné (2001 apud REBELO, 2005) prefere referir-se ao risco não como uma fórmula matemática, mas um sentido de função, de ligação, de relação. A partir de uma leitura das ciências sociais, Granjo (2006) considera que a noção do risco, pelo viés probabilístico, introduzida pelos tecnocratas numa visão positivista, apesar de ser importante para a concepção de mundo mais concreta, é inadequada e não é a única forma de observar empiricamente a realidade. Cita-se, por exemplo, os mapeamentos de áreas de risco de escorregamento em assentamentos precários. A classificação do risco em baixo ou alto é fundamental para efeito de planejamento e de intervenções imediatas nessas áreas, porém, a leitura não deve estar condicionada apenas aos fatores estruturais das habitações, mas considerar os processos sociais que expõem essa população ao maior ou menor risco.

Tobin e Montz (1997) comentam que frequentemente o risco é visto como o produto da probabilidade de ocorrência e das perdas esperadas, e que embora seja importante o estudo de séries temporais de recorrência de um determinado fenômeno, esse tipo de análise não contempla a população afetada. Para minimizar essa falha, os autores sugerem a incorporação do conceito de vulnerabilidade.

3.2 O CONCEITO DE VULNERABILIDADE NA TEMÁTICA