• Nenhum resultado encontrado

Abordagens de base estruturalista e funcionalista

No documento lpvol1 (páginas 94-98)

4.1 Abordagem estruturalista

A. Concepção de língua

A língua é concebida como um sistema de elementos relacionados estruturalmente, usados para a codificação e decodificação do signifi- cado.

B. Natureza da aprendizagem

O objetivo da aprendizagem de uma língua é o domínio dos elemen- tos desse sistema, definidos em termos de unidades fonológicas, unidades gramaticais (sintagmas, sentenças), operações gramaticais (adicionar, alternar, juntar, etc.) e itens lexicais.

C. Exemplo de aplicação

Dentro dessa abordagem, uma das aplicações que mais teve êxito foi o denominado Método Audiolingual - no início dos anos 50. Apesar de se falar em método, não se trata, na verdade, de um único manual de ensino, mas de várias aplicações.

Esse método reflete não somente os pressupostos teóricos do estru- turalismo lingüístico, com maior ênfase nas estruturas da língua, como também as idéias da psicologia behaviorista, que defende os modelos de condicionamento, reforço positivo e formação de hábito como base para a aprendizagem. Logo, os procedimentos de ensino apóiam-se na memorização de estruturas por meio de repetições e exercícios mecâ- nicos, com reforço positivo imediato das respostas corretas (Richards &Rodgers, 1986: 17; Brown, 1994: 70, entre muitos outros).

4.2 Abordagem funcionalista

A. Concepção de língua

A língua é concebida como um meio para a expressão de significados funcionais. Essa concepção de língua tem como uma das principais fontes o trabalho do funcionalista inglês Hymes (1979), que, partindo da noção chomskyana de competência, amplia esse conceito, denominando-o competência comunicativa'. Para Hymes, o conhe- cimento de uma língua implica não somente os princípios organizacionais (estruturas e itens lexicais), mas inclui também as regras pragmáticas e sociais da língua.

B. Natureza da aprendizagem

No que concerne à aprendizagem, enfatizam-se as dimensões se- mântica e comunicativa, o que leva a uma especificação e organização do conteúdo a ser ensinado com base em categorias de significados e funções, em vez de elementos estruturais e gramaticais (Richards & Rodgers, 1986: 17; Brown, 1994: 70, entre muitos outros)

C. Exemplo de aplicação

Uma primeira aplicação ao ensino dessa nova concepção de apren- dizagem encontra-se no Programa Nocional-funcional, de Wilkins (1976, cit. em Brown, 1994: 66), que é uma espécie de precursor do que viria a ser mais tarde a Abordagem Comunicativa. O aspecto funcional desse programa reside em sua organização com base em funções comuni- cativas, tais como identificar, relatar, negar, recusar um convite, pedir permis- são, desculpar-se, etc. Em relação ao aspecto nocional, ele opera com dois tipos de noções: as gerais e as específicas. Enquanto as noções gerais consistem em conceitos abstratos, como a existência, o espaço, o tempo, a quantidade e a qualidade, as específicas correspondem aproximadamente ao que se costuma chamar de contextos ou situa- ções, que seriam, por exemplo, identificação pessoal (nome, endereço, número do telefone, etc), viagem, saúde, educação, compras, lazer, entre vários outros.

4.3 O ensino audiolingual e o comunicativo

Com uma concepção de língua sob a ótica funcionalista, que vai além da estrutura lingüística interna e inclui aspectos sociopragmáticos, os procedimentos de ensino de L2 sofrem fortes mudanças, tanto no que diz respeito à elaboração de material didático quanto à sala de aula. As diferenças entre a antiga aplicação, o Método Audiolingual, e a nova Abordagem Comunicativa não são poucas. Essas duas ver- tentes contrastam sobretudo em relação aos seguintes pontos (adap- tação de Finocchiaro & Brumfit, 1983: 91-93):

Ensino Audiolingual Ensino Comunicativo 1. Aprender uma língua é aprender

estruturas, sons e palavras

Aprender uma língua é aprender a comunicar

2. Exige a memorização dos diálogos baseados em estruturas

Os diálogos centralizam-se nas funções comunicativas e normalmente não são memorizados

3. Os itens da língua não se encontram necessariamente contextualizados

Contextualização é uma premissa básica

4. A técnica básica é o exercício mecânico

0 exercício mecânico pode ser usado, porém somente de modo periférico 5. As atividades comunicativas só são

introduzidas após um longo processo de rígidos exercícios mecânicos e outros tipos de exercícios

Tentativas de comunicação podem ser incentivadas logo no início

6. É proibido usar a língua materna do aluno

0 uso criterioso da língua materna é aceito onde for viável

7. A leitura e a escrita só são introdu- zidas depois que a fala é dominada

A leitura e a escrita podem ser introduzidas desde o primeiro dia 8. 0 objetivo a ser atingido é a

competência lingüística

0 objetivo a ser atingido é a competência comunicativa (i.e. a habilidade de usar o sistema lingüístico de modo eficaz e adequado)

Ensino Audiolingual Ensino Comunicativo 9. Reconhecem-se as variedades da

língua, mas elas não são enfatizadas

A variação lingüística é um conceito central nos materiais e na metodologia 10. A següência das unidades é

determinada, exclusivamente, pela complexidade lingüística

0 seqüenciamento é determinado por considerações sobre o conteúdo, a função ou significado que seja de interesse 11. 0 professor controla o aluno,

impedindo-o de fazer qualquer coisa que entre em conflito com a teoria

0 professor ajuda os alunos de todas as formas possíveis, motivando-os a trabalhar com a língua

12. 'A língua é uma hábito', logo os erros dever ser evitados a qualquer custo

A língua é criada pelo indivíduo, muitas vezes através de tentativas e erros

13. Um dos objetivos básicos é a precisão da forma

0 objetivo básico é uma língua fluente e aceitável: a precisão não é julgada em termos abstratos, mas sim em contextos

Entre os pontos divergentes de maior relevância que marcam o avanço da abordagem comunicativa em relação à audiolingual podemos citar: a exigência de contextualização, a competência comunicativa como objetivo a ser atingido, a inclusão da variação lingüística e o tratamento dado aos erros. Esses temas apontam para um movimento em direção à concepção de língua como instrumento de comunicação. O ensino de uma segunda língua deixa de ser um processo de explicitação e domínio rígido de estruturas e passa a ser um processo dinâmico que concebe o aluno como um usuário da língua, que deverá ser capaz de se comunicar em diferentes situações e contextos. Para tal, o profes- sor precisará considerar as variações geográficas, sociais e de registros (formal e informal), além das diferenças existentes entre as modalida- des oral e escrita. Dessa nova concepção do aprendiz e da língua surge um tratamento de erros não mais como uma manifestação não-dese- jada, que deve ser de todo abolida, mas como um fenômeno que faz

parte da construção gradativa de aproximação do sistema da nova língua a ser aprendida.2

No documento lpvol1 (páginas 94-98)

Documentos relacionados