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Abordagens recentes

No documento Mercado accionista, riqueza e consumo (páginas 42-47)

2 A Riqueza e a Actividade Económica Real

2.1 A Riqueza e o Consumo

2.1.4 Abordagens recentes

As abordagens recentes de análise do comportamento do consumidor centram-se na hipótese da formação de hábitos de consumo e na da acumulação de riqueza como um fim em si mesmo.

2.1.4.1 Formação de hábitos

Campbell e Mankiw (1989, 1991) mostraram que uma variação previsível no crescimento do consumo se encontra, normalmente, associada a uma variação previsível no crescimento do rendimento, sugerindo que alguns consumidores apresentam um padrão de consumo que segue de perto a evolução do rendimento corrente, seja porque apresentam restrições de liquidez, seguem “regras de decisão”, ou poupam por motivo precaução.

Outra hipótese avançada na literatura económica prende-se com a formação de hábitos de consumo. A formação de hábitos apresenta uma longa história de estudo do consumo, captando um aspecto fundamental da psicologia: a repetição de um estímulo diminui a percepção do estímulo e das respostas a este por parte do indivíduo.

Um trabalho inicial nesta área foi desenvolvido por Ryder e Heal (1973), que apresentam um modelo de formação de consumo habitual. Para os autores, a utilidade obtida pelo consumidor em determinado período depende não apenas do consumo corrente, mas também do stock de hábitos, determinado pela média dos consumos passados, do próprio indivíduo ou de outros indivíduos. Quando é a história de consumo do indivíduo que determina a formação de hábitos, o modelo implica a existência de complementaridade entre o consumo passado e presente: visto que cada unidade de consumo passado aumenta o stock de hábitos, o consumo corrente necessário para alcançar o mesmo efeito na utilidade é maior.

No processo de formação de hábitos, é, assim, possível distinguir duas grandes categorias:

- “hábitos internos”, que se podem encontrar nos trabalhos de Constantinides (1990) e Sundaresan (1989), em que o stock de hábitos tem origem na história de consumo do próprio indivíduo, sendo calculado como uma média dos seus consumos passados;

- “hábitos externos” que se encontram nos trabalhos de Abel (1990) e Campbell e Cochrane (1997), em que o stock de hábitos é a média dos consumos passados

Um aspecto igualmente importante tem que ver com a rapidez com que o hábito responde a variações do consumo individual ou do consumo agregado. Abel (1990), Dunn e Singleton (1986) e Ferson e Constantinides (1991) consideram o hábito (ou stock de consumo habitual) dependente de um desfasamento temporal do consumo. Por seu turno, Boldrin et al. (1995), Constantinides (1990), Sundaresan (1989), Campbell e Cochrane (1997) e Heaton (1995) assumem que o hábito reage apenas de modo gradual a alterações no consumo.

Como salienta Campbell (1998), em modelos em que a utilidade do consumidor apresenta evidência de formação de hábitos, ganha ênfase a ideia de que o preço do risco varia ao longo do tempo. Campbell e Cochrane (1997) sugerem que os activos são avaliados por parte de um agente representativo cuja utilidade é uma função da diferença entre o consumo e o stock de consumo habitual, sendo este uma média móvel lenta não linear do consumo agregado passado. Esta função utilidade torna o agente mais avesso ao risco em situações conjunturais difíceis - quando o consumo é baixo relativamente ao seu passado histórico - do que em momentos de maior vigor económico - em que o consumo é elevado em relação ao seu passado histórico. A volatilidade do mercado de acções seria explicada por um pequeno montante de risco subjacente ao consumo (como acontece no caso do rendimento proveniente de dividendos), ampliado pela aversão ao risco. As implicações para a abordagem aos ciclos económicos são evidentes:

“As recessões são períodos de consumo baixo relativamente ao nível de consumo habitual, preços baixos, flutuações de rentabilidade relativamente elevadas, rentabilidades esperadas muito maiores…”

(Campbell e Cochrane, 1997, p. 17).

A variação temporal do preço do risco pode também resultar da interacção de agentes heterogéneos. Constantinides e Duffie (1996) desenvolvem um modelo com agentes que apresentam funções de utilidade idênticas, mas com fluxos heterogéneos de rendimento do trabalho, mostrando que as alterações na distribuição cross-sectional do rendimento podem gerar qualquer comportamento desejado do preço de mercado do risco.

Alguns aspectos do comportamento do mercado de activos podem ser também explicados pelas expectativas irracionais dos investidores. Se os investidores estão excessivamente pessimistas acerca do crescimento económico, por exemplo, podem sobreavaliar os bilhetes de tesouro e subavaliar as acções no curto-prazo, o que ajudaria a explicar os equity premium e riskfree rate puzzles. Como referem Barsky e De Long (1993), se os investidores sobrestimam a persistência das variações no crescimento económico, vão

sobreavaliar as acções quando o crescimento foi muito elevado e subavaliá-las quando o crescimento foi baixo, produzindo uma variação temporal no preço do risco.

Tem existido recentemente na literatura uma tendência para os economistas minimizarem a importância das flutuações económicas a favor da ênfase no crescimento económico de longo-prazo. Mas, como refere Campbell (1996), o modelo da formação de hábitos implica que os consumidores levam muito a sério as flutuações económicas. Na verdade, estas têm efeitos negativos importantes sobre o bem-estar, uma vez que alteram o consumo no curto-prazo, quando os agentes têm pouco tempo para se ajustarem; por outro lado, as reduções do crescimento de longo-prazo permitem que os níveis de consumo habitual dos agentes se ajustem gradualmente. Deste modo, os modelos que incorporam a hipótese de formação de hábitos sugerem um impacto maior e um ajustamento gradual do consumo em relação às flutuações de curto-prazo do que o esperado em modelos tradicionais (do ciclo de vida e do rendimento permanente).

2.1.4.2 A acumulação de riqueza como um fim em si mesmo

Um pressuposto, muitas vezes implícito, na economia é o de que as pessoas apenas acumulam riqueza para financiar o seu consumo individual e o do seu agregado familiar. Recentemente, alguns autores têm procurado encontrar outras motivações para a acumulação de riqueza.

Cole et al. (1995) desenvolvem um modelo que procura capturar a preocupação do indivíduo com o seu estatuto social relativo, ao mesmo tempo que mantêm o pressuposto económico de que os indivíduos se preocupam, em última instância, apenas com o consumo. A preocupação de um agente com a riqueza relativa é instrumental, isto é, o indivíduo preocupa-se com a riqueza relativa, porque o consumo final se relaciona não apenas com a riqueza, mas, adicionalmente, com a riqueza relativa. Assim, os indivíduos não obtêm directamente a utilidade da posição que ocupam na sociedade, mas, pelo contrário, a preocupação é induzida devido ao facto daquela afectar o consumo de bens. Neste sentido, os indivíduos adquirem riqueza de forma a serem mais ricos em relação aos outros.

O desejo de ser rico relativamente a outros é semelhante às motivações sociais para a aquisição de riqueza mencionada na literatura tradicional. A ideia destes era a de que a sociedade vê de forma positiva os indivíduos ricos e, além disso, esta ligação positiva serve

de motivação importante para a aquisição de riqueza. Adam Smith (1759, p. 108-110) escreveu:

”Qual o propósito de toda a labuta e azáfama deste mundo? Qual a finalidade da avareza e da ambição, da busca de riqueza, de poder, e proeminência? É para satisfazer as necessidades da natureza? Os salários do trabalhador mais ordinário podem satisfazê-las… Então, de onde surge a rivalidade que percorre todas as diferentes categorias de homens, e quais são as vantagens que nós reclamamos melhorarem a nossa condição? Para ser observado, para ser atendido, para ser mencionado com simpatia, complacência, e aprovação, são todas as vantagens que podemos obter com isso. É a vaidade, não o bem-estar, ou o prazer, que nos interessa. Mas a vaidade tem sempre por base a crença de que somos o objecto da atenção e da aprovação.”

Cole et al. (1992) apresentam um modelo em que os agentes se preocupam com a riqueza relativa, porque esta afecta, por exemplo, as decisões relativas ao estado civil. Os membros de cada sexo diferem apenas nas suas dotações, mas o modelo tem como consequência imediata (do pressuposto de que o consumo é conjunto) que cada indivíduo preferirá, mantendo o restante constante, casar-se com o membro mais rico do sexo oposto. Mas, de igual modo, a preocupação com a riqueza relativa é meramente instrumental, pois é, em última instância, a decisão de casar com um indivíduo rico que permitirá um nível de consumo maior.

Os modelos que incorporam preocupações com a riqueza relativa nas decisões de consumo têm implicações importantes do ponto de vista das políticas económicas, na medida em que envolvem a consideração dos efeitos das mesmas – designadamente, das políticas fiscais – sobre as distribuições do rendimento e da riqueza e, subsequentemente, sobre as decisões dos indivíduos. De facto, quando os aumentos da riqueza ou do rendimento levam a benefícios secundários proporcionados pela subida de posição numa sociedade, os indivíduos responderão, de forma diferente, a choques agregados e/ou específicos ao indivíduo.

Outro aspecto importante tem que ver com a sinalização da situação pessoal, isto é, se a riqueza não for observável, os indivíduos com riqueza relativamente maior terão um incentivo para sinalizar a sua situação (Veblen, 1899). A lógica subjacente ao modelo é a dos modelos de signaling: os agentes mais ricos consomem bens dispendiosos, de forma a sinalizar a detenção de uma maior riqueza, porque para eles o custo de oportunidade em termos de consumo perdido de outros tipos de bens é menor.

Várias têm sido as abordagens que procuram explicar a distribuição desigual da riqueza entre as famílias.28 Neste âmbito, como referem Quadrini e Ríos-Rull (1997), o

modelo do ciclo de vida e o modelo dinástico são os mais utilizados29, considerando-se a

hipótese de agentes heterogéneos que têm de fazer face a choques não cobertos sobre as suas remunerações.

O aspecto-chave destes modelos é que a distribuição do rendimento é exógena, ao passo que a distribuição da riqueza é endógena. A razão principal inerente à decisão de poupança – além de servir de segurança contra choques sobre o rendimento – difere nos dois tipos de modelos: nos modelos dinásticos, as pessoas poupam para aumentar o consumo dos descendentes, ao passo que nos modelos do ciclo de vida, as pessoas poupam para melhorar o seu próprio consumo durante a reforma.

As abordagens recentes colocam ênfase na heterogeneidade dos agentes e, logo, nos seus efeitos sobre os níveis de riqueza detidos, procurando retirar poder explicativo às alterações das remunerações per se. Cole et al. (1995) descrevem vários aspectos recentemente propostos como adições à teoria que se baseia em alterações das remunerações e que incluem a propriedade de negócios, maiores taxas de retorno sobre níveis de activos mais elevados, ganhos de capital aleatórios, programas governamentais para garantir um nível mínimo de consumo, e alterações do estado de saúde e civil. Díaz- Giménez et al. (1997)30 mostram que a riqueza dos empresários é cerca de cinco vezes a dos

trabalhadores, ao passo que as remunerações dos empresários são menos do dobro das dos trabalhadores, o que sugere que os empresários têm diferentes motivações para poupar em relação aos trabalhadores.

Segundo Quadrini (1997), esse facto explicar-se-ia: pela presença de restrições de obtenção de empréstimo, que tem o efeito de seleccionar os empresários entre as famílias mais ricas; pela existência de um custo mais elevado para o financiamento externo, que induz os empresários a acumularem mais riqueza de forma a poupar este custo; e pelo risco associado a actividades de negócio (maiores do que os associados às remunerações do

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A teoria tem colocado ênfase nas alterações das remunerações que se considera responsáveis pelas alterações da poupança e da riqueza. Os consumidores são vistos como fazendo face a choques temporários nas suas remunerações, respondendo aos mesmos por via da poupança: poupam nos momentos bons de forma a poderem desaforrar em momentos maus; os consumidores mais ricos serão os que têm experiências passadas recentes de momentos bons.

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O modelo do ciclo de vida considera gerações sobrepostas de agentes que têm vidas finitas, não se preocupando com os seus descendentes. Por seu turno, o modelo dinástico inclui o pressuposto de que os agentes vivem indefinidamente, preocupando-se com os seu s descendentes.

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Os autores analisam a 1992 Survey of Consumer Finances dos EUA, desagregando a informação em função do chefe de família.

trabalho), que dá aos empresários um motivo adicional para aumentar a poupança por motivo precaução.

Por outro lado, como referem Cole et al. (1995), a carteira dos consumidores mais ricos inclui, frequentemente, activos que proporcionam maiores taxas de rentabilidade do que os activos dos consumidores mais pobres. Ora, quanto maior for a taxa de rentabilidade, mais atractivo será retardar o consumo, o que confere aos mais ricos um motivo adicional para poupar que os mais pobres não têm.

No caso dos mais pobres, a razão essencial para poupar é a de poder fazer face a futuras quedas de remunerações que restrinjam o consumo. Se o governo formula uma medida de política que visa garantir um nível mínimo de consumo, então, os consumidores que prevêem que o seu consumo vai estar abaixo do mínimo determinado pelo governo, não terão incentivo para acumular activos. Por outro lado, acontecimentos como a deterioração das condições de saúde a longo-prazo podem ter um efeito dramático sobre o bem-estar das pessoas envolvidas, sem necessariamente levar a grandes alterações nas remunerações.

Em síntese, algumas abordagens recentes consideram a possibilidade dos indivíduos acumularem riqueza como um fim em si mesmo e colocam ênfase na heterogeneidade dos indivíduos como responsável pela distribuição desigual da riqueza, aspectos que merecem consideração na explicação do comportamento do consumo privado.

No documento Mercado accionista, riqueza e consumo (páginas 42-47)