2.4 AS ABORDAGENS PEDAGÓGICAS
2.4.3 Abordagens Sistêmicas Holísticas e da Complexidade e a
Essas abordagens têm como desígnio o resgate, pelo homem, da visão do todo para “que se sinta pleno, vivendo dentro da sociedade como cidadão do mundo e não como um ser isolado em sua própria individualidade” (BERHRENS, 2005, p. 58).
Tratam o aluno e o professor como indivíduos complexos vivendo num mundo de relações, sendo fios de uma só teia, mas sem perderem suas individualidades. O professor que assume essa abordagem trabalha em parcerias, buscando uma prática pedagógica reflexiva, harmônica, produtiva e transformadora (CAPRA 1996).
Consideram o aluno como um ser original e indiviso, por isso são recomendadas propostas de trabalhos pedagógicos criativos e transformadores com a intenção de despertar as múltiplas dimensões intelectuais (BERHRENS, 2005).
Para Cardoso (1995, p.56), a visão da totalidade está implícita na abordagem sistêmica e se encontra no ato de aprender, “um processo de autoconhecimento em busca da realização plena do homem, no sentido ético único, que, em linguagem comum, chamamos de felicidade”.
Capra (2002) recomenda a alfabetização ecológica como base para aprender os princípios da ecologia numa visão sistêmica. Eles são seis: redes, ciclos, energia solar, alianças (parcerias), diversidade e equilíbrio dinâmico e, segundo o autor, dizem respeito diretamente à sustentação da vida. Essa forma de abordagem se adequa não só à educação ambiental, mas a todo o currículo que prima pela integração homem/meio,
por reconhecer que o ambiente é fator determinante da saúde e que a mesma é produzida socialmente.
A avaliação, nas abordagens sistêmicas e da complexidade, considera a aprendizagem um processo gradativo de cada aluno e está fundamentada no respeito, nas limitações e nas diferenças de cada indivíduo.
Quando se refere à complexidade, Vasconcellos (2002, p.104) lembra que o paradigma da complexidade não é novo, “o seu reconhecimento pela ciência é que é recente”. Na atualidade, um dos autores que mais vêm se dedicando a esse tema é Morin (2005), que recomenda a articulação das disciplinas como forma de enfrentamento das questões do nosso século. Essa articulação gera a interdisciplinaridade que, por sua vez, irá gerar trocas e cooperações. A compreensão de que a soma das partes não é igual ao todo, que essa soma, inclusive, pode ser maior ou menor que o todo, mas que tudo contém o todo provoca uma mudança paradigmática na produção do conhecimento.
Para Morin (2002, 2005), a aceitação dessa verdade irá fazer com que o homem amplie a sua mente, construindo uma nova forma de pensar e realizar sua história neste mundo. Com esse novo pensar, ver-se-á que todos os que habitam esse planeta fazem parte de uma única rede e que todos dependem um do outro.
O paradigma da complexidade propõe uma nova visão de mundo, reformando o pensamento, religando os saberes, contemplando o todo, observando e analisando as emergências, vendo que os problemas essenciais não são divisíveis. Uma educação contextualizada que não se fragmenta, mas se liga, que aceita o que foi “tecido junto” à complexidade do cosmos com o mundo, com o outro e consigo próprio. Em que o homem se veja no outro para que se construa a vida em harmonia. Com essa abordagem, o autor propõe os sete saberes para a educação do futuro, os quais devem se reportar aos seguintes ensinamentos: as cegueiras do conhecimento; os princípios do conhecimento pertinente; a condição humana; a identidade terrena; o enfrentamento das incertezas; a compreensão; e a ética do gênero humano (MORIN, 2001).
Todas essas abordagens pedagógicas foram citadas no PPP da FCM-UPE como diretrizes para atingir seus objetivos em relação à formação do novo médico.
A abordagem da ecopedagogia se assemelha às anteriores na sua filosofia. Entende o homem como natureza e, portanto, o prepara para viver em harmonia.
Segundo Gadotti (2000), parte da necessidade dos protagonistas, buscando a satisfação das necessidades não satisfeitas, desencadeando um movimento dinâmico, imprevisível e contrário ao movimento vertical professor x aluno, construído e executado na pedagogia tradicional. E um movimento vivencial, intuitivo, dinâmico, complexo e experiencial não é um movimento estático, ele cria e se recria a cada nova situação, é inacabado e imperfeito.
A educação centrada na demanda exige uma pedagogia da intercomunicação a partir da cotidianidade dos interlocutores. Nessa pedagogia, as dinâmicas e a participação nascem da própria realidade vivenciada e anterior a ela, do próprio imaginário das pessoas (Durand, 1997 e 1998) e dos grupos de pessoas, e isso é o que realmente imprime sentido ao processo ecopedagógico. Seus principais eixos são, ao mesmo tempo, os valores nos quais deve sustentar-se a ecopedagogia:
Sacralidade, diversidade e interdependência da vida.
Preocupação comum da humanidade de viver com todos os seres do planeta. Respeito aos Direitos Humanos.
Desenvolvimento sustentável. Justiça, equidade e comunidade. Prevenção do que pode causar danos.
São grandes chaves político-pedagógicas que traduzem sobretudo o desejo de construir uma humanidade menos opressiva do que aquela que construímos até hoje. Contudo, o necessário grau de generalidade desses eixos não pode nos distanciar de uma prática pedagógica concreta (GUTIÉRREZ, 1994). De acordo com as abordagens citadas, pode-se inferir que um currículo com visão, integradora, apresenta uma política educacional que atenda, no mínimo, quatro princípios elementares:
que explicite, na ação pedagógica, uma reflexão sobre o homem e a sociedade a sua volta;
que permita uma postura de crítica dos seus professores e alunos abrindo espaços para a discussões na área filosófica da política sociológica da educação e seus fins, redirecionando, redefinindo e reavaliando de forma permanente a escola e a prática pedagógica, como elementos básicos na construção social;
que compreenda o conhecimento como a resultante de uma complexa rede de interações objetivas e subjetivas na formação da totalidade de cada situação especifica e geral, para construir e reconstruir o contexto e a historicidade social; respondendo assim ao propósito de construir uma sociedade de homens justos, éticos capazes de reconhecer no antigo formulações para elaborar novos conhecimentos. Formador de trabalhadores competentes e autônomos, conhecedores da técnica, versáteis e criativos nas ações e não simples máquinas que repetem cotidianamente as mesmas idéias desgastadas através dos anos. Neste contexto, Cardoso (1995, p. 56) afirma que: “é indispensável também a vivência globalizante dos conteúdos [...] a aprendizagem não está centrada no professor, nem no educando, mas no encontro experiencial entre eles” e,
que considere métodos qualitativos para a avaliação do desempenho centrando mais na aprendizagem do que na avaliação-contínua.
2.5 CURRÍCULO MÉDICO: ASPECTOS HISTÓRICOS E PEDAGÓGICOS