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Aboutness: a propriedade de ser sobre algo

III. Significados com Corpo: A Filosofia da Arte de Arthur C Danto

2. A essência da arte: a resposta de Danto ao problema da Natureza da Arte

2.1. Aboutness: a propriedade de ser sobre algo

Na tentativa de encontrar critérios de demarcação entre as obras de arte e as meras coisas comuns, das quais estas muitas vezes são indiscerníveis, Danto começa por ensaiar a hipótese de que a representação é o que caracteriza as obras de arte. Esta é uma estranha sugestão no século em que a arte, sob os auspícios do modernismo, parece ter abandonado a sua vocação representativa. A sua sugestão inicial é então a de que todas representam na medida em que têm um significado. Mas que significará, afinal, ter um significado? A distinção fregeana entre sentido e referência vem esclarecer esta afirmação. O significado diz respeito tanto ao sentido como à referência de uma expressão. O sentido de uma expressão como «A Estrela

89 da Manhã» diz respeito ao conteúdo da expressão, àquilo que ela quer dizer. A referência corresponde à extensão ou denotação da expressão. Neste caso a referência de «A Estrela da Manhã» é o planeta Vénus, porque é a ele que a expressão se aplica. Assim sendo, as expressões «A Estrela da Manhã» e «A Estrela da Tarde» têm sentidos diferentes, mas a mesma referência porque a sua extensão é exactamente a mesma, ou seja, aplicam-se exclusivamente ao planeta Vénus. Ocasionalmente, poderemos estipular que «A Estrela da Manhã» passará a referir-se ou a estar pela Lua, por exemplo numa qualquer linguagem secreta. Por estipulação, poderemos fazer qualquer coisa referir qualquer outra. Podemos convencionar que, de cada vez que dissermos a palavra «laranja», nos referiremos a «maçãs» ou a «holandeses» ou até a «vestidos compridos». Neste domínio tudo é possível, tudo pode estar por tudo. As obras de arte podem não ter uma referência ou uma extensão porque não se aplicam a nada, podem não estar por nada, não tendo neste sentido qualquer significado. Ao longo do tempo as obras de arte foram perdendo a sua função denotativa, mas mantiveram a capacidade de significar, uma vez que terão sempre um sentido. Significam porque são sobre algo, têm aquilo a que Danto chama «aboutness».

«O que quero propor, como base nestas considerações imensamente esquemáticas e vulneráveis, é que as obras de arte são do tipo certo para serem logicamente associadas às palavras, apesar de terem contrapartes que são meras coisas reais, considerando que as primeiras são acerca de algo (ou que a questão acerca do que é que elas são acerca pode ser colocada legitimamente)». (Danto, 1981, p. 82)63

Mesmo quando uma obra é apresentada com a indicação «Sem Título» ela é sobre algo, porque, se não for efectivamente sobre algo, então é uma coisa e não uma obra de arte. As obras de arte, enquanto classe, são sobre algo, mesmo que esse algo seja uma ausência. O título indica-nos geralmente o que procurar quando pretendemos encontrar o significado da obra, e por isso não é frequente encontrar títulos em meras coisas reais, que têm, em vez disso, apenas nomes.

63 «What I want to propose, on the basis of these immensely schematic and vulnerable remarks, is

that works of art are logically of the right sort to be bracketed with words, even though they have counterparts that are mere real things, in the respect that the former are about something (or the question of what they are about may legitimately arise). (Danto, 1981, p. 82)

90 Note-se que o facto de as obras de arte poderem ser indiscerníveis de meras coisas reais serve de argumento para sustentar a tese de que as propriedades estéticas – como a beleza – não fazem parte da essência da arte. Entre a pá de neve que constitui Em Antecipação do Braço Partido e uma pá de neve comum que não é arte podem não existir diferenças estéticas significativas: seria absurdo afirmar que uma é bela, mas não a outra, ou que apenas uma provoca ou tem a capacidade de provocar uma emoção estética peculiar.64 Não significa isto que as propriedades

estéticas não possam genericamente ser importantes para a apreciação das obras de arte; apenas que não fazem parte da essência da arte. Para reforçar esta ideia poderemos ainda afirmar que muitas obras de arte não têm propriedades estéticas relevantes, não são particularmente belas ou visualmente interessantes. Zero Dólares, de Cildo Meireles, consiste nas imagens da frente e do verso de uma nota de dólar, em que o Tio Sam e Forte Knox substituem George Washington e a Casa Branca. As cores da obra não são especialmente bonitas e a obra não causa nenhum tipo de experiência que não possamos ter com qualquer nota de dólar comum. Se não compreendermos o que há de diferente entre Zero Dólares e uma nota comum, não poderemos responder apropriadamente à obra. Esta resposta é, portanto, uma conquista cognitiva e não uma reacção estética. A imagem do espectador ingénuo arrebatado pelo poder intemporal da obra de arte deve ser abandonada, até porque, como compreenderemos mais tarde, só sabemos àquilo a que reagir esteticamente depois de conhecermos os limites da obra, coisa que só é possível com a interpretação. Deveremos apreciar esteticamente a posição da pá de neve em Em Antecipação do Braço Partido ou o papel de parede que surge em Vestido de Noiva de Robert Gober?65 A resposta terá forçosamente de ser ambígua: se estes elementos

fizerem parte da obra poderemos apreciá-los e procurar fruí-los esteticamente; caso contrário, nada haverá neles para apreciar, pelo menos enquanto partes de uma obra de arte.

64 Duchamp, por exemplo, selecciona propositadamente objectos esteticamente irrelevantes para as

suas obras de modo a que a sua apreciação não seja feita em termos estéticos, mas sim filosóficos.

65 A obra, de 1989, consiste num vestido de noiva que Gober desenhou e confeccionou, colocado

contra um fundo de papel de parede representando um homem negro enforcado e um homem branco a dormir.

91 Note-se que, embora tenhamos já avançado na compreensão da natureza da arte, encontrámos apenas uma condição necessária para haver arte e não uma condição suficiente, pois mesmo que seja verdade que todas as obras de arte sejam sobre algo, tal não acontece apenas com elas. Todas as obras representam mas não só elas o fazem. Mais terá, então, de ser dito para que a essência da arte seja encontrada.